A Cachoeira do Carmo

Autoria: Djebel al Tarik.
Publicado na Folha Nova, nº 2376, em 5 de maio de 1963.

A recordação é um consolo para os que estão no entardecer da existência. É um gozo para os que se esquecem das agruras que, por ventura, tenham e vão em pensamento, pelo espaço e pelo tempo, em busca de seu berço, do lugar onde passaram a sua infância e mocidade.
A cachoeira do Carmo, que linda era! Situada num recanto aprazível, era um ponto de convergência da mocidade que ia lá para tomar banho. Era um encanto a nossa cachoeira: as quedas d’água em catadupas aqui e ali, o magnífico poço de natação logo em seguida, o chão das imediações, muito limpo, recoberto apenas por gramas, alfombra convidativa ao repouso, o abandonado moinho de tábua, a trilha aberta do moinho à via férrea, a floresta que era o pano de fundo daquele cenário esplendoroso. Tudo causava enlevo, não só a mim e aos companheiros como aos visitantes de nossa cachoeira.
À parede, logo acima de minha escrivaninha, está um retrato, uma relíquia para mim. É um grupo de rapazes fotografado logo depois de um dos costumeiros banhos na referida cachoeira.
Os conterrâneos componentes desse grupo são: Raul, filho do grande Dr. José Paulino Ribeiro Gorgulho. Este deixou um nome bonito, pois foi o médico da pobreza. Era uma figura de destacado relevo no meio silvestrense, sua bondade era admirável. Foi fiscal do antigo ginásio. Falou à beira do túmulo o Dr. Júlio Gorgulho Nogueira que recitou uma bela poesia de sua lavra e disse ter sido o Dr. Zeca o “apóstolo da ciência médica”. Raul Ribeiro Gorgulho formou-se em direito e exerceu brilhantemente a magistratura. Foi o maior amigo de Luiz Noronha, que, no retrato, está deitado em decúbito, perto do Raul. Luiz faleceu em 1915. Deixou nome pela sua probidade. Era uma alma, por assim dizer, santa. Residiu algum tempo em Santos, onde foi escriturário. Outro do grupo: José Garcia, que exercia a odontologia e teve a glória de um filho sacerdote – o Padre Gorgulino, de uma inteligência invulgar e muito culto, exemplaríssimo como sacerdote, militou na imprensa e faleceu moço, sendo muito sentida a sua morte. Outro do retrato: o grande Glicério, o homem das piadas; foi coletor e está hoje merecidamente aposentado. Assentado no chão e muito repimpado, mocinho ainda e com um topetinho cor de azeviche o nosso caro Joaquim Gorgulho – o Quim I, como lhe apelidara o Dr. Godofredo Rangel. Foi funcionário do Correio, em cujo emprego deixou um nome bonito. Está também aposentado. Temos ainda no retrato o Leopoldo Vieira, filho do Manoel Cândido, farmacêutico por muitos anos no Carmo. É filho deste o Dr. Júlio Vieira, médico de nomeada no Rio. Joaquim foi meu companheiro de infância e, sei, também ele tange na lira a saudade de sua querida terra natal. Certa vez recebi dele uma mensagem afetuosa com a qual fiquei muito sensibilizado. O menor da turma do retrato é o Joaquim Noronha, que atualmente reside em Guaxupé com sua senhora, Maria Laura Torraca, em companhia do vigário geral e cura da catedral, Monsenhor Marcos Antônio Noronha.
Deixei para o fim dessa enumeração a comparação que quero fazer da amizade de Raul e Luiz, conforme citei linhas acima. Essa amizade foi como a de Valentino e Proteu, de Shakespeare, com a diferença que este traiu aquele por questão de amor. Depois Valentino se reconciliou com Proteu, esquecendo-se de sua traição. Entretanto, entre Luiz e Raul jamais houve um deslize na amizade, por pequeno que fosse.
A nossa cachoeira era mesmo de admirar, tanto que Julinda Alvim quando, há muito tempo, passou uns dias em nossa terra com seu velho pai, foi conhecê-la e escreveu, então, um soneto do qual destaco a primeira quadra:

Triste moinho da granja abandonada,
Que levaste a cantar a vida inteira;
Hoje derruis aqui diante da estrada
Vendo passar o trem de ferro envolto em poeira.

Djebel al Tarik
Maio de 1963

2 comentários em “A Cachoeira do Carmo”

  1. Glicerio Andrade Guimaraes

    Gilberto……..vamos por parte, a escrita é de 1963, mas a fotografia na escrivaninha é de antes de 1915…pela primeira parte da poesia, a cachoeira é a da barra.

    1. Gilberto Arantes Junqueira

      Concordo, Glicerio. O autor, que se apresenta sob o pseudônimo de Djebel al Tarik, com certeza foi contemporâneo a essa turma. Como seu avô é um dos componentes do grupo, será que algum parente seu tem essa fotografia?

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