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A Casa do Doutor Zeca

Autoria: João do Rio Verde
Publicado na Folha Nova, nº 1.350,
em 8 de Novembro de 1942.

O pavoroso incêndio que, na madrugada de 26 de Setembro , reduziu a um amontoado de ruínas uma grande e confortável casa residencial do Largo da Matriz, causou verdadeiro pânico pelo espetáculo inédito e dantesco. Toda a população despertou e, aterrada, procurava saber a causa dos estampidos que se ouviam a quebrar o silêncio costumeiro e os mais encorajados, chegando à janela, vislumbravam enormes labaredas que clareavam de um vermelho ardente quase toda a cidade.
Conhecida a origem do sinistro, centenas de pessoas procuraram extinguir a estranha fogueira, mas a impetuosidade das chamas, devido à existência de inflamáveis e à falta de bombeiros com os apetrechos indispensáveis, anularam a valentia e a boa vontade da nossa gente, transformando tudo, em pouco tempo, em um montão de cinzas.

Casa do Dr. Zeca
Casa do Dr. Zeca
Mais, porém, do que os prejuízos materiais, contemplamos naquele escombros, dilacerada, uma saudosa e bendita página do nosso querido Carmo do Rio Verde, a qual ali se desfez para sempre na voragem inclemente das labaredas. Aquele vetusto prédio representava para nós um símbolo pontilhado de doces e inesquecíveis reminiscências e cheio de bençãos populares. Foi naquela casa ora destruída, que o Dr. Zeca, com os seus atos bafejados pelos mais nobres sentimentos de altruísmo, erigiu um grandioso monumento de gratidão no coração dos carmelitanos.
Vista parcial de Silvestre Ferraz em 1918
Vista parcial de Silvestre Ferraz em 1918
Na parte térrea, justamente onde teve início o fogo, era outrora instalado o consultório do Dr. José Paulino Ribeiro Gorgulho, uma das figuras médicas de maior projeção naquela época. Foi ele um grande cientista e um notável clínico, porém muito maior do que tais atributos era o seu coração, pois ele buscava sempre atender com carinho aos humildes e aos indigentes, auscultando-os com bondade e doçura e muitas vezes fornecendo-lhes os medicamentos de que necessitavam para a cura ou alívio de seus sofrimentos.
Foi, pois, naquela velha casa, ora transformada em destroços, que viveram os seus sonhos de praticar a caridade sem alardes.
Se é verdade que na história da vida dos indivíduos, os feitos mais emocionantes de amor ao próximo são os realizados às ocultas, releva que recordemos esse traço predominante do muito saudoso e venerado cirurgião.
Não queremos, nesta crônica, fazer senão uma exaltação: glorificar, ainda uma vez, a memória daquele que sempre colocou a ciência a serviço da caridade.
Dª Elisa Gorgulho, saudosa companheira do ilustre médico, acha-se profundamente consternada com o imprevisto desaparecimento de sua estimada e cômoda morada. Ela, como nós, não lamenta os bens materiais que se perderam, mas os derradeiros vestígios daquele sábio que, como São Francisco de Assis, encontrava a verdadeira felicidade ao estancar as lágrimas dos infelizes. Vêmo-lo hoje ainda na visão da gratidão e da saudade, como a surgir dos entulhos daquele recanto, outrora o lar feliz em que ele amou, viveu e morreu.
Todos esses raciocínios nos vêm agora ao espírito, em meio de indefinível saudade, na evocação da velha e gloriosa casa tão inesperada e sinistramente consumida pelas chamas devoradoras.

João do Rio Verde
Novembro de 1942

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