Chacara Conceição destaque

A Chácara da Conceição

Autoria: Américo Pena.
Publicado na Folha Nova, nº 438,
em 25 de Fevereiro de 1923

O brilhante jornalista e emérito jurista, Dr. Caio Monteiro de Barros, quando em uma estação de águas em São Lourenço, honrou a Chácara da Conceição com uma demorada e minuciosa visita, enviando para o jornal O Combate, órgão do qual é diretor e redator, a correspondência que hoje abrilhanta as nossas primeiras colunas.
Silvestre Ferraz – Minas – 25 de Fevereiro de 1923.
Américo Pena.

A CHÁCARA DA CONCEIÇÃO

Pelo redator do jornal “O Combate”
Dr. Caio Monteiro de Barros

Silvestre Ferraz em 1918
Silvestre Ferraz em 1918

Fui hoje a Silvestre Ferraz. É a sede do município.
Uma cidadezinha de aspecto pitoresco, amenosíssimo clima, situa-se num vale, estendendo-se pela encosta da montanha. E em volta tudo verdejante.
Campos de criar, pequenas culturas…
As ruas, posto que sem calçamento, limpas, convergindo para o largo da Matriz – uma grande igreja matriz!
Nessa praça fica o Jardim Público, bem cuidado e todo cheio de flores.
O agente executivo da cidade é o Sr. Antonio Coli Filho. Homem novo, ativo. É filho da cidade, à qual dedica sua atividade.
Mas o que me levou a Silvestre Ferraz foi conhecer a famosa Chácara da Conceição, sobre a qual tanto ouvira falar desde que aqui cheguei e que era alvo das referências as mais elogiosas.
É, de fato, uma maravilha.

Cel-Fernandes-e-Sra-Olga-Fernandes
Cel-Fernandes-e-Sra-Olga-Fernandes

Fundou-a, e é seu proprietário e diretor, o Sr. Cel. Jeronymo Guedes Fernandes. Um tipo forte de brasileiro, inteligente, culto e trabalhador, com a alma forrada do mais acrisolado patriotismo.
Carioca, por sinal que nascido à Rua da Assembléia, o Cel. Fernandes veio para o Sul de Minas e instalou-se, a princípio, em Itajubá, a cidade natal do ex-presidente Wenceslau Brás e que vai se desenvolvendo francamente. Pouco depois, transferiu-se para Silvestre Ferraz e dedicou-se ao magistério, organizando o Ginásio São José e a Escola Normal Nossa Senhora da Conceição, estabelecimentos esses logo equiparados aos institutos oficiais da União e do Estado.
O Sr. Fernandes dirigiu o Ginásio e sua exma senhora, Dª. Olga Fernandes, a escola normal, em cuja direção, aliás, essa senhora tanto se distinguiu pelas altas virtudes de exímia educadora.
Cedo, entretanto, o Cel. Fernandes percebeu que, pôr em prática ou realizar suas observações, experiências e os estudos que fizera na Europa e na América do Norte sobre a pomicultura e a viticultura, iniciando nesse recanto do território nacional essas atividades, evidenciando as nossas maravilhosas possibilidades econômicas, provando o que, como e do quanto somos capazes de excelentemente produzir, era indiscutivelmente de muito mais utilidade para a mocidade brasileira do que simplesmente contribuir para a multiplicação dos bacharéis, dos médicos, dos farmacêuticos, aumentando a avalanche dos infelizes moços que se intibiam no funcionalismo e no simples doutoramento, ao invés de se lançar nas profissões normais da cultura da terra, da industria ou do comércio, onde poderiam encontrar a felicidade, a independência, do trabalho sadio e produtivo.

Casa sede
Casa sede

E meteu mãos a obras esse “ianque”, e dentro em breve era uma esplêndida realidade a Chácara da Conceição, isto é, o modelar instituto agrícola que tanto nos honra e constitui a prova da tenacidade, do trabalho, do esforço, da inteligência e da cultura de um nosso digno compatriota.
Porque, realmente, o fundador da Chácara da Conceição não é só um exemplo de agricultor moderno e extraordinário. Ele é mais do que isso: é um benemérito, um cidadão que aos seus compatrícios oferece o mais eloquente exemplo de amor ao trabalho, de devotamento de progresso de seu país, cultivando a terra e mostrando de modo brilhantíssimo o quanto ela é boa, generosa e feraz.
Num país em que só se cuida de política e em que a maior ambição ou o sonho dourado do nosso patrício é, infelizmente, arrimar-se parasitariamente em alguma repartição pública, para não trabalhar, ou quando ele tem relações influentes, fazer negócios com o governo, dos quais advem enriquecimento fácil e rápido, sempre da noite para o dia, esse homem quebra a norma geral da vida e vai lavrar a terra, cultiva-la e faze-la produzir, empregando nessa realização todas as energias sadias da sua mocidade.
Vê-se, pois, que o Cel. Fernandes abriu uma exceção à regra geral do que acontece em nosso infeliz país, onde o homem não quer trabalhar, mas apenas viver à custa do Tesouro ou agarrado a alguma “têta”, sem incômodos ou percalços.
A Chácara da Conceição foi criada em 1906.
Em 1918, o governo federal, então dirigido pelo Sr. Delfim Moreira, reconhecendo as qualidades excepcionais do ilustre agricultor e a excelência do seu campo de experiências, demonstrações e cultura intensiva, em boa hora e por feliz inspiração, anexou-lhe um patronato de menores que tem o nome do então presidente da República.

Vista do leste
Vista do leste

É, pois, na Chácara da Conceição que cerca de 100 meninos se habilitam para a vida laboriosa e honesta do campo. Vi-os todos: fortes, sadios, vivos, dedicados aos trabalhos agrícolas. Interroguei-os, inquiri-os: todos satisfeitos, alegres e bem tratados com carinho, afeto e o maior desvelo.
E dessas 100 pequeninas criaturas, quantos homens úteis, futuramente, à família, à pátria e à humanidade. Além dos trabalhos de campo, aos menores é dada boa instrução primária e elementar.
Assisti às aulas.
Entrei inesperadamente, e pude verificar a dedicação dos mestres, mesmo porque examinei , indistintamente e à minha vontade, vários alunos, nos quais encontrei bom aproveitamento e aplicação.

A Chácara da Conceição, como disse, é uma excelente escola de pomicultura, viticultura, floricultura, horticultura, enfim, da cultura geral da terra.
Vi-a toda, em companhia do Cel. Fernandes e dos nossos gentilíssimos amigos Padre Joaquim Cardoso, Vigário de Silvestre Ferraz, e o Cel. Carlos Ferraz. distinto cidadão e um dos representantes mais estimáveis da numerosa e conceituada família Ferraz, irmão do simpático Sr. Fausto Ferraz que, em Passa Quatro, vai-se curando das ilusões da política, dirigindo uma escola de apicultura e pecuária.

Plantações
Plantações

Visitei os parrerais admiráveis. O Cel. Fernandes já plantou, e tem em franca produção, cerca de 40 mil videiras. Cultura à europeia. Há ali toda a qualidade de uvas. Há as pretas e há as brancas. Encontram-se uvas de todas as nacionalidades: portugueses, espanholas, francesas, inglesas, americanas e alemãs.
Vimos a Gold Queen, a Tronkental, a Gross-Colmann, a Moscatel Hamburguesa, a Moscatel de Alexandria, a Chassclas Rose, a Concord, a Niagara, a Jefferson,a Malvasia, a Ferro, a a Hicales, a Almeria, a Delaware, a Robin Rosse, a Alicante, a Dialgadis e muitas outras.
As colheitas são abundantíssimas, e sua exportação se faz para o Rio de Janeiro e São Paulo, onde são vendidas ao consumidor como se fossem uvas europeias, contra o que, aliás, o Cel. Fernandes já protestou energicamente, reclamando o título de nacionais para as suas uvas.
São uvas excelentes e que coisa alguma deixam a desejar confrontadas com as suas similares dos países de origem.

Rotulo de vinho
Rotulo de vinho

O Cel. Fernandes não produz apenas uvas e as exporta. Fabrica excelentes vinhos tipos Clarette, Bordeaux, Moscatel, Concorde, Bourgogne. Do Moscatel ele apresenta tres tipos: o portugues, o frances e malvasia.
Que diferença desses vinhos de pura uva para essas infames falsificações com que se envenenam os infelizes bebedores aí no Rio, onde se falsifica tudo, especialmente “champagnes”, “vinhos do porto”, “verdes” e outras beberagens intoleráveis que a Saúde Pública deixa expor à venda.
Para conseguir a esplêndida plantação de videiras que ora apresenta, o Cel. Fernandes mandou buscar mudas na Europa e América do Norte, não poupando nem esforços nem dinheiro.

Vista dos fundos
Vista dos fundos

Há, ainda, na famosa Chácara da Conceição, que se estende por alguns alqueires de terra, enormes plantações de ameixeiras, que produzem surpreendentemente. Encontramo-las carregadíssimas de frutos.
As pereiras. Sim, as pereiras… Aliás, desenvolvidas e vergadas também de frutos belíssimos. Há mais de 5.000 pereiras. A produção de peras é enorme.
Os caquizeiros do Japão produzem admiravelmente. Vi mais de 3.000 pés.
Encontrei também oliveiras. Todos se admirarão julgando que elas não se aclimatam no Brasil. Pois isso não é verdade. Belíssimas árvores, desenvolvidas, e cujos frutos já estão bem à vista. Até olivas produz a Chácara da Conceição!
Há, aos milhares, pessegueiros, dando frutos brancos e amarelos; marmeleiros da Europa e do Japão; macieiras, romanzeiras, mangueiras, laranjeiras, abacateiros, enfim, milhares e milhares de fruteiras de todos as espécies e qualidades, nacionais e exóticas. Só quanto às ameixeiras, a plantação consta de mais de 12 mil árvores.
Os abacaxis crescem e produzem tão bons como os famos de Pernambuco.
Todas as frutas são saborosas e excelentes, como as melhores europeias, quando se tratam de plantas estrangeiras. E nas exposições nacionais o Cel. Fernandes tem sempre obtido os primeiros prêmios, que dizer, a “Medalha de Ouro”.
A Chácara da Conceição é o atestado vivo da alta capacidade do seu diretor e fundador e merece todos e os mais entusiásticos louvores. Não é simplesmente uma excelente escola de agricultura intensiva e conforme os preceitos mais modernos e rigorosamente científicos: é também uma inigualável escola de moral, de patriotismo, de amor à nossa terra boa, generosa e fertilíssima, constituindo também um exemplo dos mais edificantes do trabalho tenaz, profícuo e inteligente.

Américo Pena
Silvestre Ferraz, Fevereiro de 1923

1 comentário em “A Chácara da Conceição”

  1. José Roberto Silva

    excelente reportagem resgatando nossos valores, nossa memoria. Em depoimento anterior compartilhei minha passagem pela Fazenda Boa Vista quando proprietário o Sr. Fernando Tostes Ferraz hoje o Sr. Itagiba. Me orgulho dessa terra e dessa região que me viu crescer onde nasci na vizinha Fazendinha dos Alpes município de Cristina. parabéns pelas informações tão relevantes para nossas gerações.

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