A Chácara de Firmino Cruz

Autoria: Eugênio Rubião
Publicado na Folha Nova, nº 269, em 6 de Julho de 1919.

Num recanto fértil do Sul de Minas, em Silvestre Ferraz, há uma encantadora propriedade agrícola – a chácara Buenos Aires. É duplamente encantadora, pela opulência de suas árvores frutíferas e pela significativa lição de trabalho que oferece, pois é obra exclusiva de um homem desajudado de proteções oficiais, que só podia contar com o auxílio de seus braços e os de sua numerosa família.
A chácara Buenos Aires, que dista três quilômetros da pitoresca vila de Silvestre Ferraz, pertence ao Sr. Firmino Cruz, um português às direitas, trato franco, delicado e leal, que à rara energia para o trabalho sabe aliar uma honradez a toda prova.
Por volta de 1903, Firmino Cruz, que até então lidara afanosamente no mister de pedreiro, abandonou essa profissão e entregou-se à agricultura. Adquiriu um pedaço de terra pela módica importância de 100$000, na fazenda indivisa da Mumbuca, terreno malsinado como improdutivo, onde arrastava desalentadamente a vida toda uma população de pequenos agricultores. Dando-se corajosamente ao trabalho, o carrascal transfigurou-se magicamente, e hoje, alguns anos volvidos, a chácara Buenos Aires é uma das mais risonhas propriedades agrícolas, com seus dezesseis alqueires de terra ciosamente aproveitados, com suas centenas de pés de laranjeiras e outras frutas, com seu canavial e seus milhares de pés de cafeeiros a cavaleiro da alegre casa de morada.
O pertinaz labor transfigurou a terra, até então acoimada de safras, e ela pagou regiamente com frutos o suor de seu desbravador. De sua propriedade rural tira, anualmente, o Sr. Firmino, uma renda de alguns contos de réis, produzida pelo cará, mandioca e hortaliças, com que abastece as vilas vizinhas, e pelas saborosas frutas, entre as quais sobressaem os inigualáveis abacaxis, que exporta para as principais cidades sul mineiras.
Fui inúmeras vezes à chácara Buenos Aires. Encantava-me, sempre, a maneira lhana e fidalga com que era recebido pelo seu honrado proprietário e sua família.
Firmino Cruz gosta de que seus amigos visitem a sua chácara e, com justo orgulho de proprietário laborioso, apraz em fazer o visitante percorrer o opulento pomar e o produtivo cafezal.
Saía eu sempre da vila pela calma do meio dia, ao chiar monótono das cigarras. A uma centena de passos estava a parar suarento, mas encantado. Pela escarpa fronteira derramava-se o casario da vila – casas muito brancas no verdor dos quintais tufados. Metia corajosamente os pés na estrada que se aprofundava entre altos barrancos vermelhos, enfeitados de líquens e finas avencas. Passada uma porteira, a estrada ia beirando algares, até que desembocava numa rechã, aí se repartia em duas: uma larga e batida, transpondo o córrego numa alta ponte de pedra, a outra estreita, mais uma trilha perdida no campo, contornando dificilmente o morro. É para aí que eu seguia.
Parava na vista do morro: de uma banda, ao longe, uma nesga do povoado, as casas brancas trepadas na colina; abaixo, perto, a chácara do Coli, encantadora vivenda de ares senhoriais, com sua escadaria de pedra levando à varanda, e sua alameda de magnólias e eucaliptos. A estrada dobrava a crista do morro e ia sempre descendo, para lá, mais adiante, subir.
Lá em cima um cafezal, coroando o planalto. É a chácara Buenos Aires. Só ao chegar é que se avista a casa alegre e modesta, pousada como um ninho de pássaros na coroa do outeiro. Num banco, numa saleta frescamente caiada, descansamos algum tempo a conversar com o Sr. Firmino, que deixou o serviço e emprega todos os esforços por cumular de gentilezas a visita. Servido o café, sai a mostrar-nos o pomar. Ao pé da casa chama-nos a atenção um araticunzeiro, única árvore que encontrou no carrascal, que é hoje a formosa chácara Buenos Aires.
Perdemo-nos entre centenas de laranjeiras, cuidadosamente alinhadas; visitamos o depósito de café em coco; entramos na coberta em que se fabrica o polvilho; beiramos um córrego bordado de viçosas mangueiras; trepamos pelo morro, por entre as ruas de cafeeiros, onde se descortina uma delicioso panorama de campos, bosques e colinas.
Eis, em rápidas pinceladas, o que é aquela pitoresca chácara Buenos Aires, que é um frisante exemplo do quanto pode o trabalho, ajudado de força de vontade e de perseverança. Na sua modéstia, Firmino Cruz é um herói do trabalho.
Imitassem-no todos os pequenos lavradores, e cada pequena propriedade seria uma chácara Buenos Aires. De burocratas e poetas o Brasil está cheio; do que há mister é de bons agricultores, dos que, dando de mão à rotina, saibam explorar beneficamente todas as forças criadoras da terra brasileira.
Da máxima produtividade do nosso solo depende essa suspirada autonomia econômica por que anseia o Brasil.
Oxalá venha logo, que por toda a parte cresçam as searas e floresça por toda a parte a iniciativa dos grandes e pequenos agricultores, e que estes sigam o exemplo fecundo de Firmino Cruz.

Eugênio Rubião
Julho de 1919

8 comentários em “A Chácara de Firmino Cruz”

  1. Fernando Firmino

    Fiquei emocionado com o texto. Firmino Cruz era meu avô. Eu não o conheci e sequer sabia que sua chácara chamava-se Buenos Aires, mas foi incrível tomar conhecimento dessa história!

    1. Folha Nova

      Emocionados ficamos nós, Fernando, com a sua mensagem. Por isso é que vale a pena resgatar a memória de nosso antigo Carmo. Muito obrigado!

      1. Fernando Firmino

        Mostrei o texto ao meu pai, hoje com 84 anos, um pouco debilitado por conta do peso da idade. Ele igualmente se emocionou ao ver seu pai descrito exatamente como era: um homem honesto, trabalhador e gentil.

  2. Luiz Carlos da Silva Firmino

    Já sabia um pouco da história de meu bisavô Firmino Cruz! Histórias contadas por parentes como tios e primos de primeiro e segundo graus! Meu pai sabia do nome da “Chácara Buenos Ayres”, mas nunca me disse. Fiquei a par da vinda de Firmino Cruz da Europa, junto com sua esposa Maria Rodrigues da Cruz, e sua chegada no Porto do Rio de Janeiro e sua subida à Serra da Mantiqueira, se instalando no Bairro do Capinzal e, em princípio, se destacando como exímio pedreiro (por que trabalhava com pedras), ainda existindo exemplares de suas obras, intactas, na região e na estrada da Fazenda do Capinzal. Diziam alguns que Firmino Cruz era português, mas, pelo que me consta, seria espanhol, da Província de Salamanca. Maria Rodrigues da Cruz sim, era portuguesa, de origem nobre, sendo Firmino da Cruz pedreiro de ascendência galega, com certeza misturada com ascendentes árabes, por sua cor amorenada. Conta a história que Firmino Cruz trouxe sua esposa para o Brasil sem o consentimento de sua família. Depois de sua transferência para a Mumbuca, desenvolveu lá próspera e duradoura cultura de frutíferas raras, como caquizeiros de várias espécies, peras pedras,laranjas serra-dágua, campista, pele de moça, araçás, mangas, uvas, marolo, bananas, etc., abastecendo local e regionalmente a população do Sul de Minas!

  3. Fiquei emocionada, pois não conheci meu avô Firmino Cruz, nem sabia, também, que sua Chácara chamava-se Buenos Aires. Linda história de família que foi resgatada por meu primo.Lembro-me dessa chácara quando era crianca… Quanta saudade de minha avó, que cheguei a conhecer, de meus tios e primos…. Meu nome é Auxilliadora, me chamam de Dora.

  4. Denilson Scalisse

    Fiquei muito feliz em poder saber de mais algumas histórias de nossa família, sentindo muitas saudades das visitas na casa de meus avós, Onofre e Maria, quando sentava para um cafezinho com meu avô e ele, sempre feliz, contava algo do seu passado. E me recordo dele falar muitas histórias sobre essa fazenda de nossos bisavós, mas não lembrava o nome Buenos Aires. Meu nome é Denilson Scalisse.

  5. Maria Ascenção Figueiredo Luz

    Não conheci meus bisavós Firmino e Maria da Cruz. Nem sabia o nome da chácara. Mas conhecia a história. E, complementando, havia plantação de flores, principalmente copos de leite. Eles eram responsáveis pela decoração da igreja matriz de Carmo de Minas. Num sítio próximo dali construíram um moinho comunitário, onde produziam polvilho. O sítio hoje pertence a um amigo meu. Frequento o lugar e ainda existe o moinho, muitos pés de manga, jabuticaba e a plantação de café. O lugar é lindo, aconchegante, cheio de vida. Vale a pena conhecer. Obrigada pela história e pelos comentários, fiquei super feliz de conhecer um pouco mais de minha origem. Minha avó paterna era uma das filhas deles. Abraços, Maria Ascenção Figueiredo Luz, de São Lourenço, MG.

  6. Márcia Maria Ribeiro

    Obrigada por essa lembrança maravilhosa de meus antepassados. Lendo cada depoimento me reporto aquela época em que meus pais nos levavam para Mumbuca onde nós nos perdíamos por entre as várias frutíferas que eram cultivadas e delíciavamos com todos os sabores variados, enquanto nossos pais tratavam de alguns negócios ou simplesmente conversavam. Foi sem dúvida uma época memorável!

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