A Chacrinha e a Promessa de D. Irene

Em uma crônica publicada neste site em Agosto de 2013, de autoria de João do Rio Verde, este assim referiu-se à antiga chácara da família Rangel: “…reviver um passado distante e feliz, decorrido naquela poética vivenda construída outrora entre frondosas árvores frutíferas, à sombra de magnólias e jasmineiros perfumados, à orla da via férrea, nas proximidades da Estação.”
Agora, lendo o Informe Nossa Senhora do Carmo, nº 40, do primeiro quadrimestre de 2014, encontrei o artigo da jornalista Zelia Coli Junqueira apresentando o livro “A Chacrinha”, de autoria de Irene Guimarães dos Santos, que relata histórias das gerações que foram abrigadas naquela acolhedora morada.

Capa do livro
Capa do livro
Contracapa do livro
Contracapa do livro
Enchente de 1940, com a Chacrinha assinalada
Enchente de 1940, com a Chacrinha assinalada



Transcrevo a descrição da Chacrinha pelas palavras da própria Titinha, a quem peço autorização para fazê-lo:

A Chácara foi construída nos anos de 1882 e 1883, pelo Cel. João Silvio de Moura Rangel e por sua esposa Clara Augusta Gorgulho Rangel, conhecida por todos como Cacaia.
Casarão estilo colonial, base em pedras, paredes de pau a pique, forro de esteira de bambu, assoalho todo em madeira, com muitas janelas de batentes largos com venezianas de madeira até a metade, vidros verdes e vermelhos na parte superior. Suas paredes eram brancas e as janelas e portas pintadas de azul.

Fachada da Chacrinha
Fachada da Chacrinha

A frente tinha duas janelas, uma escada de pedras sobrepostas com quatro degraus que dava acesso à porta muito alta, imponente, com duas folhas largas. A porta não tinha fechadura, mas uma tranca interna, de ferro fundido, que só era usada à noite ou em dias de ventania.
[…]
A lateral, assobradada, tinha sete janelas perfiladas, sempre abertas.
[…]
Perto da cozinha tinha uma casinha onde se guardava lenha. Nos fundos, um grande galinheiro, com produção de ovos e frangos. À frente da casa, um grande jardim cheio de árvores e flores.
[…]
Vovó Irene era poetisa (N.R.: Irene Rangel, filha de João Silvio e Cacaia, nasceu e sempre foi moradora na Chacrinha). Sua inspiração vinha de coisas simples, muitas vezes banais para todos, menos para ela. Fazia poesias para os filhos, netos, amigos e sobre plantas, animais e fenômenos da natureza.
Tinha sempre por perto um caderno brochura, sem capa, dobrado ao meio, amassado e gasto, onde rascunhava os seus versos. Depois, passava as poesias para outro caderno brochura bem conservado. Bastava alguém chegar à Chacrinha para ela ir até seu quarto pegar o caderno e declamar as poesias. Invariavelmente chorava, e sempre nas mesmas estrofes. Muitas vezes a pessoa tomava o caderno de suas mãos para ler o fim da poesia, já que ela não conseguia falar, embargada pelas lágrimas.
[…]
Anos depois de ter saído da Chacrinha, escrevi uma poesia para vovó Irene e enviei pelo correio. Ela respondeu minha carta e aproveitou para mandar sua última criação. Já tinha passado dos oitenta anos. Com suas mãos trêmulas pelo derrame, ela escreveu nas folhas arrancadas do seu caderno brochura:

Querida Titinha,

Vamos bem e o mesmo desejamos a você.
Gostei muito da poesia que você fez para mim. Muito agradeço.
Vou mandar a poesia que eu fiz para a Chacrinha, vê se gosta.

Abraços da avó saudosa,
Irene.

Chacrinha

Aquela casa tão velha
Que fica à beira da estrada,
Outrora foi muito alegre,
Tinha vida e foi amada.

Tinha um jardim muito lindo,
Cheio das mais belas flores,
Onde os pássaros canoros
Arrulhavam os seus amores.

Uma biquinha tão clara,
Com seu doce borbulhar,
Sempre a rolar dia e noite
Com seu triste murmurar.

Ao lado, no bambual,
À tarde, no anoitecer,
O sabiá canta triste,
As rolinhas vão gemer.

Chacrinha, casa querida!
Os meus filhos viu nascer.
Amiga da mocidade,
Hoje vê meu padecer.

Minha casa, eu te amo
Com a maior devoção.
Tens um lugar muito grande
Dentro do meu coração.

Irene Rangel
Chacrinha, 15 de Junho de 1975

Como relatou João do Rio Verde:
“Por morte de sua venerada mãe, o Dr. Gentil Rangel fez doação incondicional da Chacrinha à sua irmã Irene, casada com o Glicério Pinto de Andrade, pedindo-lhe, porém, como especial favor, que conservassem com amor e carinho aquela bendita propriedade, que evocava a época mais ditosa da sua existência.”
D. Irene Rangel faleceu em Junho de 1979. No fim do mesmo ano a antiga casa da Chacrinha foi demolida. Assim comprovamos que a promessa feita a seu irmão Gentil foi fielmente cumprida por D. Irene: Amou e cuidou da querida Chacrinha até o fim de seus dias.

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