A Enchente de 1973

Nota do prefeito Francisco de Castro Pereira,
Publicada na Folha Nova, nº 2.819, em 31 de Dezembro de 1973.

Nota da Redação: Tínhamos reservado esta primeira página para uma reportagem completa, dentro de nosso estilo objetivo de noticiar, sobre os acontecimentos do dia 24 de dezembro. A chegada à redação, no final da tarde de sábado, da nota do Prefeito, motivou o cancelamento e consequente substituição. Sendo a nota um relatório oficial, ganharam os leitores com a troca.

Fernando Pena

A Folha Nova de hoje registra, em suas colunas, um dos mais impressionantes acontecimentos de todos os tempos, na história de nossa terra. Grande tromba d’água, abatida sobre os divisores de águas dos Municípios de Carmo de Minas, Cristina e Dom Viçoso, veio a causar a maior das enchentes do ribeirão do Carmo, de que temos notícia, trazendo o pânico à nossa pacata população, na madrugada deste dia 24 de dezembro de 1973. A cidade acordou de improviso e encheu-se de um clamor de vozes em que sobressaiam gritos de socorro em todas as direções. Lá embaixo, ao claro-escuro do amanhecer, a massa impetuosa das águas parecia levar tudo de envolta. Fazia assombro a líquida imensidão.
Pois bem. Deixamos aflitos o aconchego do lar, na parte alta e protegida da cidade, descemos a Praça da Matriz e entregamo-nos de corpo e alma à faina de acudir as famílias na parte baixa, cujas residências se transformaram em um desolador arquipélago. Criaturas abnegadas, tangidas pelo sentimento de solidariedade, houveram-se então com destemor e bravura nos trabalhos de evacuação das casas cercadas pelas águas, arrostando a fúria das correntezas e pondo em riscos as suas vidas.
Foram trágicos aqueles momentos. Trágicos e do mesmo passo edificantes. A gente percebe como as criaturas humanas são boas nas horas de tribulação e sofrimento. Todos se irmanam, todos se ajudam, todos se socorrem uns aos outros. Primeiro labutamos, sozinhos, as pessoas de Carmo de Minas. Logo depois vieram amigos de São Lourenço, Soledade de Minas, Lambari e outras localidades circunvizinhas, e pelejamos todos unidos. De mim, devo dizer, em particular: Nem sei se pude suster as lágrimas, tão emocionantes as cenas ali vividas. A abnegação foi geral, coletiva, contagiante. Por isso mesmo, furtamo-nos aqui a citar nomes ou enfocar esse ou aquele ato de bravura.
Vencida a batalha pela evacuação dos domicílios ilhados e serenados por um pouco os ânimos, tomamos uma série de medidas outras, acauteladoras, a primeira das quais foi solicitar, em telegrama, à Secretaria da Saúde, em Belo Horizonte, o envio, o mais cedo possível, para aqui, de vacinas, e antibióticos, a fim de prevenirmos um surto epidêmico na cidade.
Relatamos depois as ocorrências ao Senhor Governador do Estado, à Assembleia Legislativa do Estado, por intermédio do Deputado Lúcio de Souza Cruz, aos Ministérios da Saúde e do Interior, por via do Deputado Aureliano Chaves, e ao 8°. Batalhão de Polícia, de Lavras. Felizmente não se registrou vítima humana em Carmo de Minas, o que, para nossa consternação, ocorreu em Dom Viçoso e Cristina, comunas irmãs na nossa mesma adversidade. Em nosso Município ocorreram, sim, danos materiais, e não pequenos. Na zona rural, desmoronamento de três casas de sitiantes; arrasamento de roças de milho, arroz e feijão; erosão de pastagens nos terrenos altos; aterro e entulho em terrenos de baixada; destruição de pontes e boeiros; destruição de cercas de arame e grande número de outras benfeitorias. Destruídas, também, e levadas pela força das águas duas pontes no leito da V.F.C.O. Os maiores danos foram causados na Fazenda das Três Barras, com a destruição, inclusive, da usina hidrelétrica que a servia, e na Fazenda da Boa Vista. Na cidade não ruíram prédios, contudo ficaram danificados móveis, utensílios e roupas em geral neles existentes. Na área urbana, prejuízos de monta verificaram-se em três armazéns de gêneros alimentícios. Foram água abaixo sacarias de arroz, feijão, açúcar e sal.
De nossa luta de reconstrução participa a Residência Rodoviária do DER, de Itajubá, que em tempo recorde vem recuperando as condições de tráfego das estradas municipais e intermunicipais. Ainda por nossa iniciativa, realizou-se no dia 26, à noite, no Salão Nobre da Prefeitura, uma reunião do comércio local com autoridades da Administração Distrital da Fazenda, de São Lourenço, para a troca de ideias sobre assuntos de natureza fiscal pertinentes aos comerciantes prejudicados com a enchentes, reunião na qual se focalizou a possibilidade de aceitação, por parte da Fazenda Estadual, do crédito correspondente às mercadorias perdidas, na apuração das obrigações para 1974.
A Prefeitura Municipal com a colaboração da Delegacia de Polícia local, promove o levantamento dos prejuízos ocorridos em toda a área sinistrada, com vista à lavratura de termo circunstanciado das ocorrências. E desse termo serão tiradas cópias a serem encaminhadas, para os devidos fins, às autoridades estaduais e federais.
Valemo-nos da oportunidade para renovar aqui o maiores agradecimentos a todos quantos, dessa ou daquela forma, se solidarizaram conosco, lutaram ao nosso lado e nos estão ajudando a recompor a cousas e tudo nos seu lugares.

Francisco de Castro Pereira
Prefeito Municipal

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.