A Estrada do Campo Redondo

Excerto da crônica “Terra Minha”
Autoria: João do Carmo.
Publicado na Folha Nova, nº 136,
em 24 de Setembro de 1916.

Esta tarde, como de costume, fomos eu e mais o poeta Plínio Motta gozarmos essas primícias da primavera, demandando ao léo os caminhos campesinos. Enveredamos a estrada pitoresca do Campo Redondo, a qual, dobrada a porteira bem no alto do morro, caracola, em recortes fundos, teso abaixo até encontrar a porteira que dá entrada à trilha, profundada entre vegetação alta, conduzindo à suave região das fontes claras e pinheirais verdes.
A certo trecho da estrada galgamos a barranca e, deitados a fio comprido na relva seca, deixamos a vista folgar à toa por essas paisagens tão nossas conhecidas mas que, cada dia que as vemos, estão a oferecer-nos aspectos variados, belezas imprevistas. Abaixo, choupanas rústicas, cobertas de telhas enegrecidas, cercadas de velhas sebes de rachões, ao pé de árvores.
A Fazenda do Campo Redondo, uma enorme casa assobradada, está à raiz do morro, precintada de velhos muros de taipa e abrigada de pinheiros rugosos, com seus verdes para-sóis muito hirtos no ar. No curral, fechado de réguas de madeira, o paiol enegrecido, depois, o moinho, mais adiante, o monjolo barulhento.
Há um riacho de águas verdes que vai, azafamado, a derivar entre pedras, mas a certo ponto do curso rebalsa-se em seio tranquilo, a refletir o céu.
Da outra banda do rio, uma estrada vai direta pela várzea, rumando uma fazenda, de que aparecem os telhados e a chaminé a bafejar fumaça.
Da Fazenda do Campo Redondo, a beirar o riacho, parte uma estrada que, mais e mais, se vai apertando entre morros até desembocar em uma várzea a cujo fundo, lá longe, está uma chacrinha a emerger suas paredes claras dos arvoredos do quintal, envolta dos verdes bambuais. E, para além da chacrinha, há campos de capim gordura ressequido de completo da geada.
Há por tudo um jeito de primavera. O sol já se esconde para o ocidente, mais a oriente nuvens arredondam-se em montanhas altas, cor de cobre. E, para o alto, o céu se reparte em múltiplas nuances, onde há desde o verde berilo das montanhas até esse salmão resvés do poente em que tão bem vai o toscanejar tímido das estrelas.
Percebemos que era tarde. Subimos devagar o morro. Um suave crepúsculo descia. Nos rebordos dos morros, onde as árvores tinham atidudes calmas, o céu era de uma amarelo esmaecido, para mais acima tornar-se de um azul opalizado. Junto a um valo, ao pé da porteira, um cavalo pastava e o vulto negro tinha um destaque profundo na meia tinta do crepúsculo. Acima, árvores com seus braços recurvos para o céu… E das capoeiras vinha um intenso perfume, sopro promissor de primavera…

João do Carmo
Silvestre Ferraz, Setembro de 1916

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