À Memória do Velho Tobias

Autoria: Albano de Freitas
Publicado na Folha Nova, nº 1755,
Em 19 de Novembro de 1950.

O Tobias, que Deus o tenha, tipo humilde e de rua, conhecido joguete da garotada, era poeta e sabia filosofar nas horas de calma, quando falava a alguém que o não magoasse. Saía, às vezes, com coisas como estas:

Olha, moço amigo, durmo sobre um colchão de trapos, mas imagino-o cheio de pétalas de rosa e me ponho a sonhar…
Jamais compreendi uma roseira cercada de espinhos; o que vejo são os viçosos arbustos com suas nobres e naturais defesas para os seus lindos enfeites: as rosas a trescalar perfumes.
No córrego tortuoso e barrento que inunda as margens, transformando-as em pântanos cheios de miasmas, pousada de insetos nocivos portadores de endemias, eu vejo apenas a fita de cristal deslizando mansamente, em lindos meandros por sobre a alfombra veludosa e macia, bordada de flores, beijando os lagos marginais, autênticas bandejas de prata polida, a refletir o sol ou a retratar o céu estrelado.
E sou feliz, assim, porque, por vezes, adivinho o sorriso escondido na lágrima, pérola formosa nascida no coração, foco de luz a iluminar a vida, e, quem sabe, adivinho a amargura da alegria a esconder as lágrimas que caem em silêncio, gota a gota, no íntimo do ser, para aflorar em sorrisos…
Eu não tenho idade, sou velho precoce, duma infância desprotegida e amargurada, mas continuo a perpétua criança confiante e desavisada que vive num mundo de realidades aparentes, nesta alegria triste, sempre renascendo para a vida e aguardando a morte, único destino que cabe a todos nós.
No ressoar do sino, no zumbido do inseto, no sorriso da criança, no gargalhar do moço, no gemido do velho ou, ainda mesmo, no silêncio dos sepulcros, eu ouço os acordes da música divina. No estrondejar do trovão ou na aragem orvalhada e fresca eu vejo a alegria de viver; no estouro do canhão guerreiro ou na dissimulada diplomacia dos que se entredevoram eu vejo o espoucar da vida, embora nem sempre compreenda os erros e as virtudes que contribuem para a construção da vida que caminha.
Eis que, com pedaços de palha seca de milho, diversamente coloridos e recortados com arte, bem entrelaçados, se faz, não raro, um encantador ramo de flores. Também assim, com um punhado de palavras escritas com alma e metrificadas com arte, se tem produzido poemas mais duradouros que os monumentos de bronze que o tempo destrói, capazes de imortalizar uma geração, conduzindo-a através dos séculos.
Eu, quando a correr, tropeçando, fugindo das pedradas que me atiram, a sorrir, os meninos, procuro pisar de leve a relva, para não magoar as minúsculas flores que desabrocham nos vãos das pedras. Considero que, se Deus mostra a sua grandeza na amplidão dos céus, também deixa ver a sua bondade no gracioso formato e alegre colorido da florzinha humilde da macega que atapeta o chão, a sorrir para o homem que, descuidado, passa esmagando essas jóias tão lindas e tão frágeis.
Só não encontro encanto algum na ingratidão. Quem é pobre e de condição humilde, nada tendo para dar, dá o coração puro – e quem isto faz, dá tudo – sendo desagradável quando, como recompensa, o enchem de pedradas. É um prazer malsão, mas cada um é feliz a seu modo, não nos cabendo impedir a felicidade alheia.

E o Tobias, assim falando, se afastava com os olhos cheios de lágrimas.
Paz à sua alma.

Albano de Freitas
Silvestre Ferraz, Novembro de 1950.

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