A Valorização do K

Autoria: Américo Pena.
Publicado na Folha Nova, nº 69,
em 6 de Junho de 1915.

Cada qual surge para a vida com a sua boa ou má estrela. O destino alfabético, ortográfico e caligráfico do K na língua portuguesa foi sempre, força é confessar, um destino padrasto.
Na grande família alfabética, entre o alfa e o ômega, que é como quem diz entre o A e o Z, foi sempre o K o menino órfão, criado por favor, desprezado e inútil, que se não apresenta às visitas, pobre gata borralheira que, nos dias de festa rola, esquecida, da cozinha para a copa, enquanto os manos felizes, os BB, os MM, os PP, fazem as honras da casa com todos os FF e RR.
Abram-se os grandes livros do idioma, as fulgurantes obras de arte de prosa e verso escritas na língua de Camões e Veríssimo, e não se encontra, nem uma vez sequer, o mísero K, a pobre letra desprezada e sem pais.
Dir-se-ia filho enjeitado e espúrio da híbrida união do saxônio W com o grego Y, mas nem esses querem assumir a paternidade do mísero.
A Academia Brasileira de Letras expulsou-o do seu grande dicionário inexistente; e cá ficou o K, na língua, para o simples ofício de escrever “kágado” e, isso mesmo, por imposição mais da higiene que da estética do vocábulo.
No teclado das máquinas de escrever e das linotipos, a tecla do K, por falta de exercício, enferruja-se e ankilosa-se (vá lá, por proteção ao pobre coitado) e nos caixotins dos tipógrafos, jazem os KK sob a espessa camada de pó centenário.
Ora por mais absurdo isso pareça, a guerra européia veio reabilitar o K neste recanto do Universo. Para alguma coisa haveria de servir a guerra. O K triunfa, o K reabilita-se, valoriza-se o K.
Já funciona na linotipo a tecla dos KK e os tipógrafos já correm ao gerente reclamando-o, como quem raclama uma letra atrasada.
Com a guerra figuram nos telegramas os “oskis” húngaros, os “inskis” russos, os “ensks” sérvios; à frente da campanha valorizadora o kaiser e o kzar mandam as tropas ensanguentar o continente: marcham para a guerra os milhões de KK de todas as patentes, desde o konprinz alemão até o último cossak russo.
Os austríacos atacam Krasnik, e os russos marcham sobre Konigsberg, os alemães destroem Kalisz, e como se isso não bastasse ao triunfo do K, os japoneses entram na luta, liderados pelo general Kamio e pondo em pé de guerra todas as karretas, kulatras e karabinas dos seus exércitos de terra e mar.
Hurra pelo K. Ele tem, afinal, sua hora de triunfo nas letras locais.
“All right!”, ou, como dizem os americanos: “OK!”

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