Adriano Turri

Autoria: João do Rio Verde.
Publicado na Folha Nova, nº 1.313,
em 8 de Fevereiro de 1942.

Adriano Turri foi sempre um enamorado da sua bela e gloriosa terra.
Com que nostalgia, de quando em quando, ele recordava a “Italia coroada de rosas”, a Italia romântica das serenatas enluaradas e das canções repassadas de saudade dos gondoleiros de Veneza, evocando, com a sua balada tristonha, épicas lendas povoadas de epsódios maravilhosos.
Adriano era bem moço quando chegou ao pequeno arraial de Carmo do Rio Verde e, durante largos anos, soube amar com devotamento este nosso querido rincão mineiro, embora jamais olvidasse a sua longínqua terra natalícia: aquela Italia de outrora, quando, em vez da escravidão facista de hoje, um sopro de liberdade percorria todos os quadrantes da formosa península beijada pelas águas serenas do lendário Adriático.
Homem culto, a sua casa comercial mais se assemelhava a um gabinete de literatura, onde ele, com alma, recitava a Divina Comédia e, deslumbrado, acompanhava os primeiros triunfos de Gabriel d’Anunzio, que, por essa época, projetava nas letras italianas os excelsos poemas que lhe construiriam o pedestal da imortalidade no seio dos povos italianos.
Alto, de olhar vivo e expressivo, Adriano Turri sabia ser agradável, razão por que era estimadíssimo pelos carmelitanos. Aqui em nossa terrinha natal ele construiu um lar feliz e, morto há mais de quatro décadas, a sua desolada viúva ainda rememora saudosa os dias inesquecíveis vividos ao lado de seu querido esposo.
Na sua pátria Adriano cursou as aulas de um seminário maior, onde se aprofundou no estudo da teologia, deixando a referida casa educacional no ano em que deveria receber as ordens sacras de presbítero.
Amigo e fervoroso admirador de nosso venerado padre Antonio Nogueira, auxiliava-o nas solenidades da Semana Santa e, neste momento, através das nebulosas reminiscências dos tempos idos da minha meninice, tenho a impressão nítida de ver ainda ‘Siô’ Adriano, no Domingo de Ramos, à porta da igreja matriz, com a sua voz forte e litúrgica, entoando o tradicional cântico do “Hossanah Filio Davi”.
Adriano cultuou sempre a boa poesia e, de acordo com as leis atávicas e hereditárias, aí temos o sangue do homenageado de hoje correndo nas veias de uma das maiores poetisas mineiras.
Fátima Cléo, pseudônimo com que se oculta através da cortina rósea da modéstia a filha de Adriano Turri, é uma inteligência luminosa numa alma profundamente sensível, vivendo num país decantado construído de sonhos e de esperanças. Os seus poemas são cheios de incomparável doçura, não lhes faltando uma deliciosa beleza de ritmos, nem magníficas imagens coloridas, ora inundando de sol os nossos bosques matizados de flores silvestres, ora emprestando um novo e fulgurante brilho às estrelas que recamam de luz o azul infinito de nosso céu primaveril.
Fátima Cléo, poetisa inata, em estrofes sublimes, vem glorificando em hinos de esplendor, os feitos heróicos de nossos valorosos antepassados.
Fátima Cléo, em versos admiráveis, bafejados por uma lúcida cultura aliada a uma inspiração espontânea, canta as alvoradas maravilhosas e os encantadores crepúsculos pardacentos da nossa formosa terra.
Presto, nesta crônica, uma homenagem à memoória de Adriano Turri, na certeza de que receberei os aplausos de todos os que conviveram com esse digno cidadão.

João do Rio Verde
Fevereiro de 1942

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