Américo Pena

Nasceu Américo Pena em 9 de Novembro de 1867, em Paraty, no Estado do Rio de Janeiro.
Aos 14 anos deixou a casa de seus pais, ali voltando somente após ter contraído matrimônio e já com filhos. Casou-se, em primeiras núpcias, com Luíza Aurora Brasileira, em Uberaba, de cujo consórcio nasceram os filhos: Alberto, Licínio, Leonor, Tácito, Eduardo e Laura, que não lograram viver, o conhecido ator Aristóteles Pena, atualmente em São Paulo, e Américo Pena Filho, residente em São Lourenço.
Enviuvando de sua primeira esposa, alguns anos depois fixou residência nesta cidade, onde casou-se com Matilde Lomônaco, a quem deixa viúva. Desse consórcio nasceram mais os seguintes filhos: Fernando, Pedro, Margarida, Eunice, Ibrahim e Maria das Dores. Américo Pena era irmão de Elvira Pena Firme, que reside atualmente em Taubaté.
Além de ator teatral de nomeada, conquistando aplausos das mais ecigentes plateias brasileiras, tendo percorrido diversos Estados como empresário e como artista contratado, fundou e dirigiu importantes e diversos jornais em São Paulo e outras cidades do grande Estado bandeirante. Uns tiveram vida efêmera; outros ainda existem, sob novos títulos. Fundou, nesta cidade, há 25 anos, “A Folha Nova”, e manteve, por todo esse tempo, não sem grande sacrifício, a sua normal circulação.
Exerceu, ainda, diversos cargos nesta cidade, como secretário da antiga Escola de Farmácia e Odontologia, inspetor de ensino, delegado de polícia e, por último, investido nas funções de Juiz de Paz, cargo para o qual vinha sendo eleito e reconduzido desde o ano de 1927. Ainda neste cargo, foi o primeiro Juiz de Direito da cidade, por ocasião da elevação de Silvestre Ferraz à categoria de Comarca.
E, afinal, morreu com 71 anos de idade, com relevante folha de serviços prestados à causa pública, quer à frete de seu jornal, que sempre defendeu o interesse da coletividade, quer à frente de cargos gratuitos que exerceu, com o intuito apenas de servir à terra em que nasceu sua última esposa e filhos.

ELOGIO A AMÉRICO PENA, por João Nogueira:

Habituamo-nos a visitar a casa do diretor da Folha Nova. Isso há cerca de 16 anos. Era ali o ponto de reunião de todos quantos desejassem tomar o seu café e conversar. E que conversador admirável que foi Américo Pena. Quantas horas felizes ali passamos.
Depois que a moléstia, que o acaba de matar, apoderou-se de seu organismo, arrefeceu-se o nosso entusiasmo. Ali não mais encontrávamos o fogoso orador de outros tempos. Esse já estava morto. Havia, em seu lugar, um velho magro, um tanto trôpego mesmo. A paralisia lhe dificultava a voz, engrolando-lhe as sílabas, mutilando-lhe os vocábulos. Os dedos, magros e trêmulos, negavam-se ao mister de suster os mais leves objetos de uso. Irritado, procurava dominar a apatia dos movimentos, mas era tarde. De seu gestual formidável, só restavam duas mirradas mãos trêmulas, em movimentos de desânimo; da sua sonora voz de ator, que abalou e comoveu as plateias brasileiras, só saiam palavras confusas e inexpressivas. A vida queria rebelar-se contra a inércia, mas era tarde. O basta irremediável já havia soado àquele que fora uma grande manifestação de vida cerebral, de ação, de movimento. Américo Pena, o homem das multidões, o homem dinâmico, o homem nervo, o homem espírito, há muito que estava morto.
O resto acaba de ser dado à sepultura.
Morreu Américo Pena.
Não mais vibra, como nos bons tempos em que vendia saúde, no afã de bem confeccionar o seu jornal; não mais ouviremos o roçagar de seus chinelos de doente pelos assoalhos da velha casa amiga; não mais o veremos quêdo em lucubrações, talvez rememorando episódios da sua vida aventurosa, na sua calma rede de vencido. Passou, mas a sua memória não passará. Terá vida perene no coração da família, na recordação dos amigos, nas dificuldades dos que o sucederem na imprensa de nossa terra.
Não sabemos, mesmo, como rememorar o doloroso desenlace. Os nossos dedos titubeiam, confundindo as teclas da máquina, baralhando tudo. Era nosso desejo que o pensamento ditasse, e os nossos dedos fixassem no papel uma boa página, na qual pudéssemos contar o que nos vai na alma. Em tal impossibilidade, fazemos nossos os doloridos versos do saudoso dr. José Gorgulho Nogueira, ditos à beira do túmulo que devia receber os despojos do não menos saudoso dr. José Paulino Ribeiro Gorgulho, morto, nesta cidade, em 10 de maio de 1914:
Chorai, chorai, chorai, ó vale, ó rio, ó prado…
Chorai, chorai, ó Carmo, o nosso bom finado.
O estudioso que, no futuro, procurar reconstituir e coordenar os episódios mais atraentes de nossa terra, encontrará subsídio precioso nas colunas da Folha Nova. Também nós, desejosos de conhecer os arcanos do passado, temos consultado pessoas de avançada idade e velhíssimos e carunchosos arquivos e infólios, à cata de elementos que nos falassem do velho Carmo de nossos avós. E estamos autorizados a informar que o melhor repositório de preciosidades no gênero está contido nos números que compõem a coleção da antiga Procelária, a velha anunciadora das tempestades políticas do antigo Carmo, em cujas colunas flamejava a pena brilhante de Alípio de Moura, o intrépido jornalista que deixou nome nos anais de nossa imprensa provinciana. Mas esse periódico é raríssimo, hoje. Do mesmo, apenas existe uma coleção, paciente e carinhosamente organizada pelo saudoso José Ribeiro de Faria e Souza, que tentamos arrecadar, ainda em vida do colecionador. Mas o saudoso velho não pode me atender, embora manifestasse bastante simpatia ao nosso intento. E informou-nos que havia oferecido dita coleção ao João Antônio Lomônaco, proprietário da extinta folha. Está, portanto, em São Paulo, onde reside o seu detentor, caso ainda exista. A Procelária passou, portanto, como a procela: fez muito barulho, mas deixou poucos vestígios.
Mas nem tudo se perdeu. Resta-nos a preciosa coleção da Folha Nova. Há 25 anos que esta folha vem tendo circulação normal; há 25 anos que ela proclama as nossas conquistas no campo das nossas grandes possibilidades produtivas, das nossas organizações sociais, da nossa evolução duradoura, do nosso conhecimento; há 25 longos anos que ela, festiva, registra o nosso noivado venturoso, a nossa esperançosa boda, o nascimento de nossos filhos, o sepultamento de nossos pais… Depois que os sinos bimbalham, anunciando um acontecimento alegre ou lúgubre, o prelo geme, imprimindo a notícia do infante que nasce ou do ancião que recolhe ao descanso tumular. É nessa fonte inesgotável, de fácil e oportuna consulta, em que irão abeberar-se os estudiosos de amanhã. E é à memória de Américo Pena que a cidade de Silvestre Ferraz deve essa coletânea, farto repositório que pede paciente investigação. Ali dormem preciosos elementos que Américo Pena soube buscar em fontes autorizadas e transplantar para as colunas de seu jornal, para gaudio dos leitores e admiração de nossos filhos.
É essa, ao par de outras, a glória de Américo Pena. Glória que nem todos sabem avaliar, mas que será proclamada, futuramente, quando um espírito perquiridor tentar o confeccionamento da história do velhíssimo Carmo de Pouso Alto, do velho Carmo do Rio Verde, da ridente cidade de Silvestre Ferraz.
É essa, repetimos, ao par de outras, a glória de Américo Pena, Ao combatente cansado, o repouso merecido.
Adeus, velho mestre. Adeus e descanse em paz, enquanto nós aqui ficamos por mais um pouco.

João Nogueira,
Silvestre Ferraz, dezembro de 1938

AMÉRICO PENA

Depois de cerca de quatro anos de cruéis padecimentos, motivados pela moléstia que tanto lhe causou sofrimentos, e de seus dez dias em que estve de cama, devido a agravação da sua moléstia, faleceu, nesta cidade, no dia 6 deste mês de dezembro de 1938, às seis e meia horas da tarde, nosso saudoso diretor Américo Pena.
Embora afastado dos nossos trabalhos, há anos, por não o permitir o seu estado de saúde, interessou-se sempre por nosso jornal, lendo-o antes de ser distribuído e apontando os possíveis senões escapos à nossa revisão.
Uma perda irreparável para nós, os continuadores de sua obra, à frente desta folha, da qual ele foi, durante 25 anos, o sustentáculo principal, fundando-a e mantendo-a carinhosamente até seu falecimento.
Ao chefe querido, a homenagem da nossa Redação.

Fernando Pena
Silvestre Ferraz, dezembro de 1938

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