Antonio Alves Pereira

Autoria: João do Rio Verde.
Publicado na Folha Nova, nº 1.398,
em 17 de Outubro de 1943.

Recordamos, há tempos, nesta seção, aquela formosa lenda dum inspirado vate polones que, em linguagem magnífica, imaginou uma floresta maravilhosa de sua terra natal, onde as aves ali nascidas, conhecendo que se aproximava a hora da morte, procuravam exalar o último sopro de vida à sombra das frondosas árvores que lhes serviram de berço.
E não são poucos os prosadores e os poetas que, em páginas repassadas de ternura ou em estrofes sublimes, cantam hinos carinhosos à terra natalícia.
Ocorre-nos esta evocação ao transportarmos para esta coluna o nome saudoso de Antonio Alves Pereira que, com grande e fervoroso afago, soube, até os derradeiros dias de sua longa existência, amar este abençoado rincão da terra mineira.
Alma bondosa e jovial, Antonio Alves contava um amigo dedicado e sincero em cada coração carmelitano. Todos o queriam bem e onde ele se encontrasse reinava a mais comunicativa alegria, pois não era homem de armazenar tristezas ou permitir lamentações inúteis.
Antonio Alves Pereira era membro querido e acatado das famílias Dias, Alves e Pereira, deste município e dos circunvizinhos.
Embora houvesse casado quatro vezes, sempre se revelou um esposo profundamente carinhoso.
Consorciou-se a primeira vez aos dezenove anos de idade com Dª Amélia Dias de Castro e foram nove anos que transcorreram em plena lua de mel, ficando, por morte de Dª Amélia, cinco herdeiros; em segundas núpcias teve por esposa Dª Mariana Cândido Ribeiro, enviuvando-se após seis anos de venturoso convívio e de cuja união nasceram tres descendentes; contraiu, novamente, matrimônio com Dª Mariana Dias de Castro e durante quarenta anos o novo lar foi bafejado por uma ininterrupta felicidade, felicidade somente quebrada após quatro decênios com a morte de sua venerada companheira, não deixando prole do terceiro casamento; realizou, então, novo enlace com Dª Mariana de Oliveira, de cuja consorte houve quatro filhos durante os dez anos de recíproca ventura.
Esta última lhe sobrevive e é a melhor testemunha das grandes virtudes do saudoso marido.
Antonio Alves gostava extraordinariamente de bailes, dançando com elegância e entusiasmo até no último ano de sua existência, principalmente valsas e quadrilhas e, talvez, mais animado do que muitos moços de 20 anos.
Gênio alegre e expansivo, era uma grande satisfação para os jovens daquela época vê-lo em sua companhia numa sala de baile.
Aos oitenta anos de idade, alguém afirmara certa vez que ali estava um corpo de velho num espírito em plena mocidade.
Antonio Alves sempre residiu na sua propriedade agrícola denominada “Boa Vista dos Criminosos”, onde faleceu, piedosamente, aos oitenta e tres anos.
Era pai do Sr. Alfredo Alves Pereira, antigo proprietário da Fazenda da Mata, onde ainda mora, e do Sr. Antonio Alves Pereira Filho, residente nesta cidade.
A vida desse boníssimo varão é ainda constantemente evocada, pois ele sempre soube ser bom e magnânimo, não só para com os poderosos, senão igualmente junto aos pequenos e humildes.
A memória do nome de Antonio Alves Pereira não pertence apenas aos seus numerosos parentes, pois é ele um patrimônio do nosso Carmo do Rio Verde e a lembrança desse digno e saudoso cidadão atravessará os anos e as décadas, perpetuada na estima e na saudade dos carmelitanos.

João do Rio Verde
Outubro de 1943

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