Antonio Coli

A Folha Nova recebeu uma mensagem de Leticia Coli, tratando a respeito do Carmo do Rio Verde de 1890. Aproveitamos o ensejo para publicar o artigo que Fernando Pena redigiu como homenagem póstuma a Antonio Coli, originalmente publicado na Folha Nova, Nº 1109, de 29 de Novembro de 1937:

Antonio Coli

Antonio Coli
Antonio Coli

Faleceu, no dia 22 do corrente, às 13 horas, o respeitável ancião Antonio Coli, italiano de nascimento, porém brasileiro e silvestrense de coração, tantos foram os anos de sua preciosa existência passados entre nós, desde os idos tempos do velho Carmo do Rio Verde.
Nasceu o extinto a 7 de Agosto de 1854, na pequenina cidade de Lucca, na Província da Toscana, Itália, falecendo pouco depois de ter completado 83 anos.
Era filho de Luiz Coli e D. Maria Domingos Boschi, naturais daquela cidade italiana.
Antonio Coli veio para o Brasil com 15 anos de idade, voltando pouco depois à sua pátria de origem para fazer o serviço militar, porque, patriota como era e disso deu inúmeras provas, não queria ser considerado desertor.
Regressando novamente ao Brasil, dirigiu-se para Silvestre Ferraz, então Carmo do Rio Verde, isto em 1881, casando-se em 1885 com D. Izabel Branco Coli.
Aqui, portanto, durante 56 anos de sua existência passou empregando a sua fecunda atividade no comércio e mais tarde na agricultura, alcançando uma situação de destacado realce econômico financeiro. A ela o alçaram a sua cristalina intuição para o comércio e uma perfeita visão das coisas e dos homens, escudadas numa extraordinária capacidade de trabalho e segurança de orientação.
Chegou o filho da pátria dos iluminados e da terra expoente da civilização a possuir a maior fortuna que se tem visto neste e nos lugares circunvizinhos, orçada em vários milhares, em bens de raiz e de dinheiro. Estava no apogeu de suas conquistas quando rebentou a guerra europeia de 1914, em cujas malhas viu a sua Pátria querida envolvida e a braços para opor resistência ao invasor comum. Então, pôs ele os seus haveres à disposição do Governo italiano, tendo concorrido (discretamente) com mais de 50.000 liras para auxiliar a defesa de seu país.
Foi agente consular, tendo recebido, por várias vezes, menção honrosa pelos serviços prestados e pelo seu acendido patriotismo que tanto realça a gente italiana, desde os velhos e esplendorosos tempos do império romano.
Não sendo, não obstante, um homem que houvesse passado pelos bancos colegiais e acadêmicos, foi um espírito relativamente culto, devotado ao livro e às coisas da sua terra de origem. Assim é que foi assinante de várias revistas e jornais italianos e um conhecedor perfeito dos clássicos escritores Dante, Petrarca, Stecchetti e tantos outros, cujas páginas recitava de cor.
Em idade avançada e com o agravamento do terrível mal que lhe vinha de anos minando o seu organismo, já esgotado, o velho Antonio Coli não mais resistiu, vindo a falecer, dentro porém dos sentimentos católicos, tendo recebido da Igreja todos os sacramentos. Deixa viúva a inconsolável D. Izabel Branco Coli e seus dignos filhos Antonio Coli Filho, ex-presidente da Câmara Municipal deste município em diversas legislaturas, Dr. Altamiro Coli, atual Prefeito desta cidade, Álvaro Coli, José Coli, Arquimedes Coli e o infortunado João Batista Coli. Deixa ainda as diletas filhas do casal, Maria do Carmo, Dalila, Noêmia, Izabel e Maria Aparecida.
Logo que circulou a notícia de seu falecimento, o Grupo escolar, por ordem de seu Diretor, encerrou suas aulas, a Prefeitura Municipal, por seu correto Secretário, Sr. João Nogueira, encerrou seu expediente, e a escola noturna, regida pelo professor José Alves de Oliveira, não funcionou, providências estas tomadas como um tributo de homenagem e respeito à memória do saudoso morto.
O sepultamento do venerável ancião verificou-se no dia seguinte, às 12 horas, tendo, antes, sido rezada uma missa de Requiens, solenemente cantada por três sacerdotes, os revmos. Padre Joaquim Cardoso, Cônego Roque Consentino e Padre José Vicente Pivato.
Sobre o caixão mortuário notamos muitas coroas e flores. Entre o grande número de cavalheiros e senhoritas que acompanharam o féretro até o cemitério, encontravam-se muitas pessoas de cidades vizinhas. De São Lourenço vieram os Srs Gastão Ferreira, Omar Franqueira, José Mendonça, Francisco Coli, Cel. Albano Magalhães, que também representou o Prefeito Dr. Humberto Sanches, Cap. Fortunato de Moura Monteiro e o Sr.José Dutra, pela família Dutra.
Falou, despedindo-se do extinto, o professor Antonio Luiz Nogueira, cuja oração foi atentamente ouvida pelos presentes:

“Meus Senhores,
“-Morreu como verdadeiro cristão e como homem!” Foram estas as palavras proferidas, ontem, pelo Dr. Altamiro Coli, ao se referir, sensivelmente emocionado, aos últimos momentos de seu idolatrado pai.
Na realidade, meus senhores, fechou-se o livro dessa existência preciosa, toda ela consagrada carinhosamente aos seus, com uma página brilhante e edificante, que será para todo o sempre lembrada pelos entes queridos que Antonio Coli deixou na Terra.
Como homem, venceu a última etapa de sua vida coberto de louros, porque soube ter a serenidade e a coragem ante a aproximação da morte, entregando placidamente a alma nas mãos da Providência Divina, que já lhe conferiu, por certo, o prêmio aos que lutaram e sofreram na Terra.
Como cristão, triunfou, aureolado de glórias, pois quis ter sempre ao seu lado a figura doce e serena do sacerdote, que lhe administrou os últimos Sacramentos da Igreja e o confortou, com as palavras que Deus faz cair pelos lábios de seus ministros sobre todos aqueles que estão prestes a fazer a viagem para a região da Eternidade.
Como um verdadeiro cristão triunfou e venceu, pois nos últimos momentos apertava de encontro ao coração a imagem doce do meigo Crucificado, apagando-se a luz do seu olhar na contemplação d’Aquele que se fez homem para redimir e salvar o gênero humano.
Paz à alma do justo e do bom!”

Agradecimento

Izabel Coli e Filhos vêm, muito sensibilizados, agradecer a todos os que os confortaram, com as suas visitas, durante a enfermidade do seu inesquecível Esposo e Pai, cumprindo, assim, uma das últimas vontades do morto querido.
Expressam, também, a sua gratidão aos que o acompanharam até a sua última morada.

Silvestre Ferraz, 28 de Novembro de 1937.

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