Ao meu belo e saudoso vilarejo natal

Autoria: Jose Antonio Nogueira.
Publicado na Folha Nova, nº 425,
Em 15 de Novembro de 1922.

Quando publiquei um dos meus livros sobre questões sociológicas nacionais, recebi de um leitor desconhecido, desses que a afinidade de idéias e sentimentos aproxima espiritualmente dos escritores, uma longa e amável carta cujo ‘leit motif’, por assim dizer, se reduzia a essa pergunta insistente:
“Numa fase de dissolução e desorganização, como a que atravessamos, onde foi o senhor descobrir tantas razões de confiança no futuro de nosso país? Onde foi haurir tamanha fé e mesmo entusiasmo?”
A resposta sincera a semelhante interrogação quero hoje dá-la aqui, à maneira de confidência, de alma à alma, coração contra coração, ao meu belo e saudoso vilarejo natal, hoje risonha cidadezinha. Essa minha firme confiança nos destinos do nosso povo, na sua capacidade para as mais altas formas de organização e de vida coletiva, tem as suas mais profundas raízes nas observações e experiências acumuladas na infância, época da existência largamente aberta às grandes realidades físicas que nos rodeiam. Foi nesse doce cenário de aldeia mineira que primeiro apareceram as magníficas qualidades do nosso povo.
O meu velho Carmo do Rio Verde – Oh! guardem essa religiosa e poética denominação! – ficou no meu espírito e na minha saudade como um escrínio mágico onde vi e senti um dia as fortes idealidades peculiares à raça, as raras virtudes, os tesouros inesgotáveis que constituem o substrato da nossa alma. Diante dessa certeza profunda, adquirida no verdor dos anos e associada a esse belíssimo pedaço de céu e de montanhas verdes, todo o pessimismo dissolvente das leituras ou dos ásperos contatos com a vida sempre caiu por terra, vencido e aniquilado, dando lugar a uma atitude de confiança e de fé que me acompanhará até o momento supremo da transfiguração final. Essa grande suavidade que Joaquim Nabuco via como que espalhada pelos nossos sertões ou em nossa vida rural, senti-a eu nessa lenda de ouro, fortemente vivida, que foi e deve continuar a ser o nosso Carmo do Rio Verde, um dos exemplares apenas das maravilhas incontáveis que as raças povoadoras semearam no seio das montanhas desta riquíssima parte da América. E não só suavidade e bondade, senão milagre de energia, de amor e de cultura! Aí a mulher brasileira se manifestou em tuda a sua imensa grandeza moral, sob a forma mais santa e abençoadora do mundo – a de uma mãe piedosa e inteligente, heroína de amor e de coragem, lição viva do que pode ser a nossa capacidade educadora – quando manifestada pelo gênio das nossas mães, esposas ou filhas. Aí madrugaram-me na sensibilidade os sãos princípios e os belíssimos exemplos de um homem que à religião da honra e da probidade aliava um dos mais nobres misticismos cristãos que ainda houve, surto divino capaz de pedir meças aos arroubos de um Ruysbroeck, o admirável, de quem Maeterlinck disse tão formosas coisas. Refiro-me a meu pai, esse venerado professor cuja vida imaculada floresceu nessa linda povoação. Aí em torno de meu lar santíssimo tantos outros conheci igualmente floridos de raras virtudes, tantas perfeições humanas se me gravaram indelevelmente no coração, que, mais tarde para compreender e amar cada vez mais a minha grande pátria, não tive mais que alargar o âmbito dessas observações e experiências da primeira infância, abrangendo com elas todo o povo, toda a raça, todo o passado e o porvir do Brasil.
Pois o grande, o maravilhoso “País de Ouro e Esmeralda” não é mais do que uma gigantesca ampliação dessa vila de sonhos, de virtudes e de amor que foi e é o meu doce e encantador Carmo do Rio Verde.

José Antonio Nogueira
Novembro de 1922

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