Arquitetura Rural em Carmo de Minas no século XIX

Cícero Ferraz Cruz
Cícero Ferraz Cruz

Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo da Escola de Engenharia de São Carlos da Universidade de São Paulo, pelo mestrando Cícero Ferraz Cruz, como parte dos requisitos para obtenção do Titulo de Mestre em Arquitetura e Urbanismo. Esta brilhante dissertação foi publicada em livro em 2010, sob o título “Fazendas do Sul de Minas Gerais – Arquitetura Rural nos séculos XVIII e XIX”, edição do IPHAN.

Sobre o livro, assim se pronunciou Ângela Maria Barros de Faria, da editoria de cultura do Estado de Minas:

Cícero Ferraz levou 10 anos para concluir a pesquisa – ou aventura, melhor dizendo. Filho de sul-mineiros, desde criança ele visitava a região. Aos 7, mudou-se de Belo Horizonte para Varginha. Amigos e parentes possuíam fazendas antigas, algumas migraram da família para novos donos. Mais tarde, aluno do respeitado especialista Antônio Luís Dias de Andrade, o Janjão, na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP), o jovem estudante decidiu transformar seus passeios na roça em ciência. Mestre Janjão havia estudado fazendas rurais do Vale do Paraíba; o discípulo queria contar a outra história de Minas Gerais. Afinal de contas, a Minas que ele conhecia não era a do ouro, a dos diamantes ou a do barroco de Aleijadinho.

Quase solitariamente – às vezes, levava alguém para ajudá-lo a medir os achados –, Cícero Cruz rodou quilômetros por estradas sul-mineiras. O famoso boca a boca – método “científico” tão caro à gente das Gerais – o conduziu a muitos de seus objetos de pesquisa. Certa dose de cara de pau e o jeitinho de moço bem-criado foram de muita valia na hora de bater à porta de famílias que nunca o viram, ainda por cima pedindo para entrar, fotografar e vasculhar a casa.

Os números impressionam: 100 fazendas (o livro mostra todas elas, com direito a imagens aéreas de satélite, via Google), 3 mil fotos (390 publicadas) e 300 desenhos, com plantas e detalhes das edificações. Tudo da lavra de Cícero.

Fazendas de Carmo de Minas

Se as fazendas da região de Cruzília e Carrancas foram privilegiadas por estarem entre a Garganta do Embaú e as vilas de São João (atual São João del Rei) e São José (atual Tiradentes) no século XVIII, as fazendas da região de Carmo de Minas serão privilegiadas pela proximidade com a própria Garganta, no século seguinte. Essa área fica a leste do antigo Caminho Velho da Estrada Real, em um trajeto de ligação entre este caminho e a vila de Itajubá, ao pé da Serra da Mantiqueira, em altitudes próximas a mil metros. Suas fazendas não estão tão encravadas na Serra como algumas fazendas da região de Itajubá, por isso desenvolveram melhor a agropecuária no século XIX. No fim deste século a região ganhou um ramal da estrada de ferro, o que promoveu seu desenvolvimento.

O atual município de Carmo de Minas teve sua freguesia desmembrada da Freguesia de Pouso Alto em 1831. Em 1841 foi elevada a distrito e passou a se chamar Carmo do Rio Verde. Foi emancipada em 1901, quando passou a se chamar Silvestre Ferraz e, em 1953, tornou-se Carmo de Minas.
entrais e dois quartos, sendo que um deles possui outro quarto para dentro e o outro possui uma ligação interna com o setor íntimo. Por um corredor sifonado, chega-se à grande sala que acessa os outros quartos e o setor de serviços. Entre esta sala e o quarto aos fundos, a divisão é feita por um grande armário que substitui a parede. O corpo de serviços possui duas pequenas copas, três cômodos menores e a cozinha ao final. Há três pias para lavar as mãos espalhadas pela casa: uma no alpendre, outra na sala íntima e outra junto à porta, na junção dos dois corpos. Outro edifício de destaque na fazenda é a grande tulha de madeira, contemporânea à casa, que fica ao lado do jabuticabal, por onde passa um riacho. Um antigo monjolo de jacarandá foi desmanchado ainda na 1a metade do século XIX e, dele, foram feitas 11 cadeirinhas de bordar. Essas cadeiras foram distribuídas entre as mulheres da família e, por tradição, passavam de avó para neta, sempre pulando uma geração.

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