As Festas do Centenário de Carmo de Minas

Autoria: Américo Pena.
Publicado na Folha Nova, nº 7,
Em 1º de Março de 1914.

Sublime!
Majestosa e extraordinariamente bela foi a comemoração do centenário de Silvestre Ferraz! (Hoje, Carmo de Minas)
Se a nossa digna municipalidade, a ilustre comissão de festejos e o povo antecipadamente preparassem com ruidosas pompas o programa, se nas ruas fossem plantados arcos engalanados, se as casas todas fossem embandeiradas, se, enfim, tudo fosse premeditado, ao certo os festejos, apesar do cunho de simplicidade com que se revestiram, não teriam maior brilho.
E tudo isso porque a festa nasceu espontânea do coração do povo. A alegria irradiava em cada habitante desta terra, via-se o contentamento em cada semblante e, como que unidos todos para um só fim, confundiu-se a onda popular em uma só entidade, repleta de alegria e cheia de vida para festejar, sem pompas artificiais, o aniversário da modesta vilota que se ufana em ser habitada por corações bem formados.
Narremos, pois, o que foi a festa do dia 24, festa que, em sua simplicidade, marcará nos faustos da história do Carmo o apanágio de um povo que sabe venerar os seus antepassados e prezar a terra que lhe serviu de berço.
Pela manhã os sinos bimbalharam festivamente chamando os cristãos à missa campal, rezada pelo respeitável vigário cônego Antonio de Faria Nogueira, no cruzeiro (É o mesmo cruzeiro que hoje está na pracinha ao lado do portão do cemitério.), ora artisticamente construído em belíssimo pedestal, no local onde, há 100 anos, foi sufragada a primeira missa pelo capelão Narciso José Rodrigues (O antigo cruzeiro ficava na praça Professor Brito, pouco acima do posto telefônico).
Cerca de mil pessoas assistiram religiosamente a esse ato tão solene. Ao terminar a missa e após a bênção ao cruzeiro, proferiu extradordinário sermão relativo à efeméride o nosso virtuoso vigário Antonio Nogueira.
A corporação musical de Cristina, que gentilmente veio tomar parte nas festas, executou belíssimas peças de seu vasto repertório.
Às duas horas da tarde teve lugar, no teatro local (Localizava-se na esquina da rua Francisco Isidoro com rua Ana Umbelina), cedido pelo Empresa Guarani, uma solene sessão cívica, sendo lavrada, por essa ocasião, uma ata especial em livros da municipalidade. A Câmara teve a gentileza de convidar para acercar-se à mesa presidencial não só os representantes da Câmara de Cristina, os senhores Cel. Godofredo da Fonseca, Pedro Carneiro de Rezende, Albertino Dias Ferraz e Samuel Augusto Salles, com também os respeitáveis concidadãos, senhores Cel. Francisco Ribeiro Junqueira, Cap. Gabriel Ribeiro Junqueira Junior, Gabriel Dias de Castro, Manoel Dias Ferraz, Manoel Carneiro de Paiva, Major Paulino de Araujo, Antonio Coli e Américo Pena, representante desta folha. Usaram da palavra e proferiram vibrantes discursos os senhores Cel. Jerônimo Guedes Fernandes, o doutor Fausto Ferraz e Pedro Carneiro de Rezende.
Às quatro horas saiu da Igreja Matriz um numeroso préstito conduzindo a pedra fundamental da Santa Casa de Misericórdia. Chegado ao local onde vai ser construído o edifício (Local onde está o atual prédio do posto de saúde, na rua Ana Umbelina.), teve lugar, então, a bênção da pedra, sendo lavrada uma ata que foi assinada por centenas de pessoas e colocada em cofre hermeticamente fechado, sobreposta pela pedra fundamental do futuro templo da caridade.
Em um púlpito volante, conduzido da igreja para ali, proferiu comovente discurso o cônego Antonio Nogueira, que, ao terminar, deu a palavra a quem dela quisesse usar, permitindo que os oradores ocupassem a honrosa tribuna sagrada da qual o virtuoso sacerdote constantemente espalha pelos fiéis as doutrinas do Divino Mestre. Assomou então à tribuna o vulto simpático do talentoso jornalista Dr. Fausto Ferraz, que proferiu um belo discurso, sendo estrepitosamente aplaudido.
Sucedeu-lhe o nosso distinto amigo Cel. Jerônimo Guedes Fernandes, esse talento sobejamente conhecido, que tem o dom da palavra e que sabe empolgar um auditório com o seu fraseado eloquente. O seu discurso foi uma verdadeira chave de ouro a essa esplêndida cerimônia, tão simples no seu todo e tão majestosa no seu fim.
Terminada a cerimônia do assentamento da pedra fundamental do edifício da Santa Casa, seguiu a massa popular a caminho da igreja, acompanhando seu bondoso pastor a fim de assistir ao Te-Deum rezado em ação de graças.
Nas ruas a multidão divertia-se com lanças-perfumes e confetes, bandos carnavalescos transitavam, um cordão de congadas devidamente ensaiado percorria a cidade.
À noite funcionou o Cinema Guarani com teatro repleto, houve bailes em diversas casas, a excelente banda musical de Cristina tocou em diversos pontos da vila, cruzavam-se grupos festivos, as palestras em diversos salões eram animadíssimas, enfim, tudo deslumbrante, tudo majestoso e belo!
E todo esse deslumbramento, toda essa majestosa festa não obedeceu a um prévio programa, nasceu tão somente da alma do povo, foi uma festa de coração.

Américo Pena
Silvestre Ferraz, Março de 1914

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