Barão

Autoria: João do Rio Verde.
Publicado na Folha Nova, nº 1.326,
em 17 de Maio de 1942.

Quanta vez, com o meu pensamento povoado por uma vaga e indefinida saudade, recordo-me do nosso velho e poético arraial do Carmo do Rio Verde. Desfilam, então, pela minha mente, diluindo-se em doces reminiscências, vultos que me foram outrora familiares e, de novo, desaparecem, qual espiral de fumo soprada pelo inclemente vendaval que, de quando em quando, corta espaço em fora e se perde nas nuvens que circulam pelo azul infinito do firmamento.
No grande e insondável romance da existência, as páginas que mais emocionam as nossas almas, deixando uma Via Láctea perene de imorredouras saudades, são aquelas que nos falam dos tempos idos da infância, dos nossos queridos antepassados, da terra adorada em que nascemos e dos lindos e deliciosos recantos onde brincávamos alegres e venturosos na primavera da vida.
Estou, neste momento, vendo ainda, através de tantos anos decorridos, a fisionomia simpática e jovial daquele velho gordo, alto, trajando sempre uma vetusta casaca preta já descorada pelo uso.
Não sei a origem por que todos lhe chamavam Barão, pois o seu verdadeiro nome era Manuel Pereira Pinto.
Não possuía ele titulo algum nobiliário, mas o seu coração generoso e bom merecia muitas outras insígnias, talvez superiores à comenda com que o povo da minha terra, espontaneamente, o condecorara.
Exercia ele a profissão de alfaiate e a pequena vivenda em que morava ficava trepada numa ladeira íngreme, na rua Cap. Antonio Jose.
Às vezes, à tarde, o Barão descia até o adro da Matriz para tomar parte num torneio de anedotas, pois era uma excelente distração de que ele muito gostava, dando ruidosas gargalhadas.
Em companhia do Barão residia a sua filha Laureana. Como ora me lembro nitidamente, aquela piedosa senhora, modesta e humilde, com o seu xale de tecido escuro em volta do pescoço, caindo as dobras nas costas, em caminho da igreja, onde, diariamente, ao alvorecer, ela ia assistir à santa missa e, muitas vezes, receber a hóstia sagrada.

Dr. Manuel Francisco Pinto Pereira

Siá Laureana tinha um raios de sol iluminando-lhe os dias e confortando-a nas horas tristes de desalento: o seu filho estremecido.
O Barão e a sua filha somente alimentavam um ideal na vida, a educação do pequeno Manuel que, na escola primária, revelava possuir formosa e invejável inteligência.
Morto o Barão e morta Dª Laureana, a trajetória do Dr. Manuel Pinto vem sendo uma escalada de triunfos e de glórias.
Magistrado, professor, jornalista, orador, enfim, em todos os campos de atividade do pensamento, o seu saber aliado à inquebrantável força de vontade, fá-lo receber messes de veementes aplausos obtidos, não apenas pelos dotes da sua belíssima cultura, senão ainda, pelo seu nobre caráter.
Em memorável concurso na Faculdade de Direito de São Paulo, a despeito dos valiosos “pistolões” com que se apresentaram os demais concorrentes, juntando-se ainda certos preconceitos retrógrados, em flagrante desacordo com os nossos princípios democráticos, o neto do Barão e filho de Siá Laureana, brilhantemente, conquistou uma coroa de louros, alcançando a palma da vitória.
Certamente, lá do céu, o Barão e a sua digna filha, felizes e deslumbrados, assistem à suprema realização do grande sonho que tanto lhes acalentou o espírito nesta tristíssima vida terrestre.

João do Rio Verde
Maio de 1942

Reproduzimos artigo da Wikipédia, a respeito deste glorioso conterrâneo, neto e filho de ex-escravos, nascido em humilde lar, na ladeira da rua Cap. Antonio Jose:

 

Manuel Francisco Pinto Pereira
Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.

Manuel Francisco Pinto Pereira (Silvestre Ferraz, 27 de Maio de 1889 – São Paulo, 30 de Julho de 1956) foi um promotor de justiça, juiz, advogado, professor e jurista brasileiro.

Biografia

Fez o curso primário e o ginásio em sua cidade natal. Aos vinte anos de idade, mudou-se para a cidade de São Paulo, a fim de cursar a tradicional Faculdade de Direito do Largo de São Francisco. Matriculou-se em 1909 e no requerimento de matrícula, declarou-se filho de Laureana Pinto Pereira, sem qualquer referência ao nome paterno.

Fez um curso brilhante, conforme seu histórico escolar arquivado na secretaria da Faculdade, concluindo-o em 1913 como o melhor aluno da turma. Bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais, retornou para Minas Gerais para exercer o cargo de Promotor Público na cidade de Santo Antonio do Machado e, logo em seguida, o de Juiz Municipal de Muzambinho. Nessa localidade exerceu, ao mesmo tempo, as funções de professor de Língua Portuguesa no liceu local.

Posteriormente passou a advogar em toda a região, inclusive no estado de São Paulo, com mais frequência na cidade de Franca. Nessa época (1916) escreveu o livro A mulher no Brazil (sic) que foi uma das primeiras obras, se não a primeira, a defender a igualdade de direitos entre os dois sexos. Esse trabalho fez sucesso e causou polêmica à época, no contexto da Primeira Guerra Mundial. E atraiu a atenção do jornalista Júlio Mesquita, diretor de O Estado de São Paulo que abriu as portas do periódico para colaborações de Pinto Pereira. O livro foi reeditado em 1920, desta vez com prefácio elogioso do grande Clóvis Bevilacqua. Há que se lembrar que a mulher, até 1934 quando nova constituição foi promulgada, não possuia direitos políticos e mesmo com o novo instituto constitucional só podia votar, quando casada, se autorizada pelo marido.
Nesse tempo o advogado Pinto Pereira já residia em São Paulo.

Em 1932, apesar de mineiro, alista-se no Movimento Constitucionalista, com seu colega Ernesto Leme, nas hostes paulistas, para combater o governo de Getúlio Vargas, sendo designado para a frente de Queluz.

Terminado o conflito, mediante nomeação do governador, passa a lecionar no Colégio Universitário, que preparava os estudantes para ingressar na Faculdade de Direito. Ensinava latim, disciplina que dominava com perfeição.

Em 1937, a Lei Estadual nº 2.586 de 8 de Janeiro, criou o Tribunal de Justiça Militar. Pinto Pereira foi nomeado pelo então governador do Estado, José Joaquim Cardoso de Melo Neto, como primeiro procurador daquela Côrte, cargo em que tomou posse aos 16 de maio do mesmo ano.

Apesar de suas qualidades como advogado e como tribuno, como haveria de testemunhar em sessão póstuma o professor Ernesto Leme, o grande e incontido anseio de Pinto Pereira residia no magistério.

Por ter participado da Revolução Constitucionalista, a Justiça concedeu ao professor Pinto Pereira a estabilidade no Serviço Público e a igualdade de condições ao cargo de Professor Catedrático.

Em 30 de Julho de 1956, falecia o velho mestre, filho da ex-escrava Laureana, que havia economizado todos os seus escassos tostões para que seu menino pudesse atingir a honrosa posição a que chegou.

Homenagem

O então prefeito da cidade de São Paulo, Ademar Pereira de Barros, atendendo a pedido dos estudantes e professores, promulgou a Lei Municipal nº 453, de 30 de Dezembro de 1957, que deu o nome de Prof. Pinto Pereira a um rua situada no bairro do Brás, numa justa homenagem aquele professor da Faculdade de Direito, respeitado e querido por todos os seus alunos e colegas.

Obras

1916 – A Mulher no Brasil. São Paulo: Teixeira & Cia., 265 págs. (segunda edição, 1920).
1924 – Casamento e divórcio no Direito Civil internacional. São Paulo: Monteiro Lobato, 201 págs.
1936 – Do sujeito de Direito nas fundações privadas. São Paulo: Revista dos Tribunais (segunda edição, 1955)
1938 – Aspectos da ausência no Código Civil pátrio. São Paulo: Revista dos Tribunais, 195 págs.
1949 – Rui – Grandeza d’alma. Rio de Janeiro: Casa de Rui Barbosa, 76 págs.
1954 – Preleções de Direito Internacional Público (ed. pelo Centro Acadêmico XI de Agosto)

Escreveu também outros estudos jurídicos que foram publicados em revistas especializadas, principalmente na Revista dos Tribunais.

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