Braz Lomônaco

Autoria: João do Rio Verde.
Publicado na Folha Nova, nº 1.333,
em 5 de Julho de 1942.

Saudade!… Saudade!…
Volta, mensageira da dor, para a tua eterna morada nas tristes alamedas dos cemitérios, por entre os mausoléus, onde só medram perpétuas ou sempre-vivas. Retorna, condutora de lágrimas, para as paragens sombrias e abandonadas, pois lá, em meio da solidão, encontrarás o clima ideal próprio para o tua missão inglória e cruel. Deixa-me em paz e busca, com o teu triste estigma, os corações em que já se apagou o derradeiro lampejo do clarão da esperança.
Queres, porém, ainda uma vez, espelhar ante a minha imaginação cismadora uma página vivida, outrora, no nosso Carmo do Rio Verde, página desaparecida no desfiladeiro vertiginoso dos anos que não param.
És tu, saudade, que nesta manhã invernosa de Julho, revolvendo aquele passado remoto, me mostras o semblante bondoso e amigo de Braz Lomônaco, filho adotivo do nosso querido Carmo, o qual, durante a sua longa existência, amou com desvelado afeto a terra que, desde a sua juventude, elegera como sendo a sua nova pátria, o seu segundo lar.
Braz Lomônaco Junho era natural da Itália meridional, província da Calábria, tendo nascido na pequena e poética cidade de Gaeta.
Chegando aqui ainda no verdor dos anos, consorciou-se com a distinta senhora Margarida Ferrer Lomônaco, natural de São Gonçalo do Sapucaí. Dessa união feliz teve treze filhos, sendo nove mulheres e quatro varões, tendo falecido dois: Francisco e José.
O casal experimentou a suprema felicidade de celebrar as bodas de ouro numa comovente cerimônia a que assistiram todos os filhos e numerosos parentes. Nos dias que correm, a sua descendência já se eleva a uma centena e todos, pelos incomparáveis dotes de coração, guardam impolutos os nomes honrados de Braz e Margarida Lomônaco.
Releva lembrar que, entre os seus netos, se encontra o Fernando Pena, diretor proprietário desta Folha, o qual, sem favor algum, embora bem moço ainda, representa a lídima personificação do mais belo caráter e a sua conduta, como sucessor do saudoso Américo Pena, tem sido por todos proclamada como oriunda de um nobre e heróico espírito, a serviço de uma causa útil, valiosa e dignificante. (Quero avisá-lo, meu caro Fernando, que se, guiado pela sua reconhecida modéstia, você cortar o período acima, eu não continuarei com essas crônicas. Seria, então, uma penalidade ou um prêmio aos leitores? Dolorosa interrogação.)
Braz Lomônaco, certa vez, levou uma queda, sendo projetado ao chão quando cavalgava um animal “passarinheiro”, resultando daí uma enfermidade em sua espinha, de que o tratamento prolongado e rebelde consumiu as economias acumuladas durante largos anos de labor insano. Nunca ficou radicalmente curado, embora por duas ocasiões estivesse na Europa para esse fim e, também, para aliviar a nostalgia da encantadora Itália que jamais ele esqueceu, apesar do imenso amor que sempre consagrou à nossa hospitaleira e generosa Minas Gerais e, especialmente, ao tranquilo arraial do Carmo do Rio Verde.
Na história da vida comercial da nossa terra, encontramo-lo à frente de um grande empório de fazendas e armarinho, naquela época longínqua em que o Carmo não possuia estrada de ferro nem mesmo estradas de rodagem.
A sua espaçosa casa residencial, onde morou dilatados anos, à rua Francisco Isidoro, consta que foi a primeira habitação que se ergueu no povoado do Carmo, pois o vasto casarão fora outrora a sede de importante fazenda agrícola que se perdia entre florestas virgens.
Braz Lomônaco Junho expirou serenamente no dia 25 de Fevereiro do ano de 1916 e a sua dedicada e santa companheira por 51 anos, faleceu a 20 de Outubro de 1921.
Ser-me-á impossível, nesta ligeira coluna, recordar com as cores da justiça os excelsos predicados de que era possuidor o saudoso e abençoado casal, cuja memória ora evoco. Com ele, posso dizer, fechou-se na história deste bendito rincão da terra mineira um formoso capítulo escrito com as letras do trabalho, da bondade e do altruísmo.
Resta-nos, a nós carmelitanos, uma recordação profunda e sincera que sentimos, no âmago de nossas almas, ao rememorar os nomes queridos e inesquecíveis de Braz Lomônaco e de Margarida Ferrer. Eles ainda vivem e viverão sempre nos corações de seus descendentes que, entre hinos de amor e de saudade, contarão a vida exemplar desses dignos antepassados aos que surgirem na aurora de uma nova existência.

João do Rio Verde
Julho de 1942

Agradecimento a João do Rio Verde

Autoria: João Lomônaco.
Publicado na Folha Nova nº 1.340,
em 30 de Agosto de 1942.

O professor Antonio Luiz Nogueira recebeu do nosso conterrâneo e amigo João Lomônaco, residente em São Paulo, a carta que prazeirosamente publicamos:
“São Paulo, 22 de Agosto de 1942.
Meu caro Antonio,
Abraços. Regressando de uma longa viagem pelo Estado de Goiás, onde estive em desempenho de minha missão, como representante da importante firma Irmãos Spina, encontrei aqui o o número da Folha Nova que inseriu uma crônica sobre a personalidade do meu querido e sempre lembrado pai, Braz Lomônaco. Posso afirmar, com toda a sinceridade, que senti uma grande comoção ao ler a referida crônica, em torno da figura daquele bom velhinho que, embora italiano, amava essa terra como se fosse a sua pátria. Aqui ele viveu longos anos dedicados ao trabalho construtivo e honrado e consagrados ao santo amor à família. Cometeria uma falta se deixasse de enviar a minha palavra de profunda gratidão ao meu caro conterrâneo que se oculta sob o pseudônimo de “João do Rio Verde”. Resolvi, então, encarregá-lo de tão importante incumbência, fazendo chegar, através das colunas da Folha Nova, ao cronista, os agradecimentos muito sinceros de todos os membros da família Lomônaco pelas expressões com que, carinhosamente, se referiu à pessoa do meu saudoso pai. Certo de que você atenderá prontamente o meu justo apelo, termino esta, enviando-lhe e a todos os nossos conterrâneos o meu abraço afetuoso.
Grato, João Lomônaco.”

5 comentários em “Braz Lomônaco”

  1. Prof. Dr. Jose Antonio Lomonaco

    Fico emocionado com a homenagem. Embora escrita em 1942, tocou-me hoje, tantos anos após, como se hoje tivesse sido publicada. Quanta honra! Quanta alegria deve ter trazido a meus avós.
    Daria alguns anos da minha vida para ter tido a honra de conhecer meus antepassados. Quem sabe, no futuro, possa eu voltar ao passado. E, então no passado, possa trazer para o hoje a gloria do esforço de meus bisavós em formar família, chegados da Itália cansados, com medo, mas vitoriosos na sua empreita em construir o legado que nos deixou.

  2. Águida Maria Silvano Lomônaco Ribeiro

    Estou à procura dos meus ancestrais, gostaria de ter mais informações de Brás Lomônaco Junho.

      1. Rosana Matias

        Prezado Dr. José Antonio Lomonaco.

        Estou em busca do óbito de Margarida Lomonaco, filha de Braz Lomonaco e Margarida Baptista Ferrer. Já encontrei o batismo e o casamento, entretanto não consigo encontrar o óbito.
        Por acaso o Senhor tem alguma informação sobre esse ramo da família?
        Obrigada

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