Canto Materno

Autoria: Plínio Motta.
Publicado na Folha Nova, nº  1.758,
Em 10 de Dezembro de 1950.

Canta a mãe. A voz lhe é doce,
De ritmo sonoro e brando.
Cantava como se fosse
Um anjo do céu cantando.

Canto de mãe é celeste.
Tem, por isso, além de lindo,
Pureza de flor agreste,
Que ainda se está abrindo.

Como se a filha entendesse
Sua canção, suave e bela,
Mais a voz se lhe enternece
E canta, assim, junto dela:

Velada por meu carinho,
Dorme o teu sono, querida,
No teu gracioso bercinho,
Enlevo de minha vida.

Que ternura em tuas faces,
De expressão meiga e divina.
Quisera que tu ficasses,
Assim, sempre pequenina.

Não vale a pena cresceres.
No Clube da Mocidade
Quem proporciona prazeres
É Dona Infelicidade.

Mulher é como a açucena,
Tão frágil, tão delicada,
Que, de uma asa, a leve pena,
Roçando-a, fica esfolhada.

Nossa vida principia
Toda cheia de incerteza,
Com um minuto de alegria,
Com sessenta de tristeza.

Hás de achar, em cada curva
De teu sinuoso caminho,
Muito charco de água turva,
Muita fraga, muito espinho.

Terás pesares imensos…
Hás de chorar, tanto e tanto,
Que nem com um milhão de lenços
Enxugarás o teu pranto.

Por isso, assim, bela e pura,
Como as flores da campina,
Ser-me-ia a maior ventura
Ver-te sempre pequenina.

Plínio Motta
Silvestre Ferraz, Dezembro de 1950

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