Capitão Francisco Dias Ferraz

Autoria: João do Rio Verde.
Publicado na Folha Nova, nº 1.355,
em 13 de Dezembro de 1942.

Transportemos hoje para estas crônicas um nome querido e sobremodo venerado na história imortal do nosso velho e glorioso Carmo do Rio Verde.
O Capitão Francisco Dias Ferraz foi um varão digno e que soube ser nobre e útil quando na época feliz e próspera da sua existência, assim como na adversidade, demonstrou possuir uma alma forte e um coração purificado por belos sentimentos de estoicismo e de resignação com a suprema vontade do Todo Poderoso.
O Cap. Chico Ferraz nasceu a 6 de Fevereiro do ano de 1847, na Fazenda Sete de Abril e, durante a sua mocidade, passou a residir na Fazenda da Pedra Branca, tendo, finalmente, em 1855 transferido a sua morada para a bela e confortável propriedade agrícola denominada Pinhal, sendo todas as três pertencentes ao município de Cristina.
O nosso homenageado possuía a patente de Capitão da 1ª Companhia do Batalhão nº 59 da Guarda Nacional, a qual lhe fora conferida, por merecimento, pelo Cônego Joaquim José de Santana, Vice-presidente da Província de Minas Gerais, a 29 de Novembro de 1880, sendo designado para os serviços ativos das comarcas de Cristina e de Pouso Alto.
A 26 de Agosto do ano de 1875, aqui no Carmo, uniu-se pelos sagrados laços do matrimônio à distinta carmelitana Tereza Junqueira Ferraz, que hoje, com a avançada idade de 82, reside em companhia de seu dedicado filho Custódio Junqueira Ferraz. Desse feliz consórcio houve três filhos: Cristiano, Custódio e Mario.
Em 1925 o estimado e bom casal celebrou, com grandes e pomposas festas, as bodas de ouro, tendo comparecido ao ato centenas de pessoas das ilustres famílias Junqueira e Ferraz.
Delfim Moreira, o grande estadista mineiro, jamais esqueceu os bons e dignos companheiros dos longínquos e saudosos tempos da juventude, razão por que dedicava uma inquebrantável estima a Chico Ferraz.
Ainda há dias, no arquivo deixado pelo morto e carinhosamente guardado pelos filhos, lemos uma amistosa carta escrita a 30 de Setembro de 1913, em cujas páginas já descoradas pela ação do tempo, aquele notável político brasileiro, em comoventes frases sentimentais, evoca em uma linguagem repassada de saudade e de afeto, a quadra ditosa da vida em que ambos, fraternalmente, viveram na Fazenda da Pedra Branca.
Recordemos, agora, um episódio interessante que se verificou em Barra do Piraí, no Hotel da Estação, por ocasião de um banquete oferecido por aquela cidade fluminense ao eminente candidato ao cargo de Vice-Presidente da República. Delfim Moreira, quebrando a praxe protocolar, subitamente, com admiração das pessoas presentes, abandonou sua cadeira no lugar de honra afim de abraçar o seu velho amigo Chico Ferraz, que ele avistara na plataforma procurando tomar um trem que se destinava à Zona da mata, causando surpresa aos jornalistas que, curiosos, abraçaram também o Cap. Francisco Ferraz, acompanhando o gesto democrático de Delfim Moreira.
Atacado de incurável e dolorosa paralisia, viveu durante dez anos em uma cadeira de rodas, mostrando sempre a mais serena resignação com a vontade de Deus.
Católico fervoroso e praticante, após receber todos os sacramentos da religião cristã, exalou o derradeiro suspiro a 11 de Julho de 1931, aqui nesta cidade, onde havia passado a maior parte da sua existência e em cujo Campo Santo repousam as suas cinzas.
A sua velha companheira, de quando em quando derrama uma lágrima de infinita saudade, ao recordar os anos venturosos decorridos em companhia do digno esposo.
Os seus filhos Cristiano, Custodinho e Mario cultuam com desvelo e profunda saudade à memória do querido pai que, morto a 11 anos, continua, em um columbário de estima e de veneração, a viver nos corações de seus descendentes.

João do Rio Verde
Dezembro de 1942

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