Carlos Gomes Nogueira

Autoria: João do Rio Verde.
Publicado na Folha Nova, nº 1.396,
em 3 de Outubro de 1943.

Não podemos deixar de prosseguir com estas crônicas, crônicas evocativas de saudosos tempos distantes e vividos outrora no nosso tranquilo arraial, quando se nos deparam conceitos como o que agora vamos reproduzir:
“O Carmo tem a rara felicidade, que certo lhe invejarão outras terras, de possuir um cronista de seus velhos tempos, um cronista compreensivo e bondoso, que sabe fazer reviver numa auréola de saudade as pessoas e coisas de antanho que aos poucos iam ficando no esquecimento. Ainda bem que suas mãos piedosas não se cansam de remover essas lousas já esverdeadas pela pátina do tempo, para nos darem o doce sofrimento de viver novamente os dias idos.”
Busquemos, portanto, embora com o coração cortado de saudades e a alma em lenta agonia, relembrar, numa remota e pungente evocação, entes queridos que viveram outrora no pequenino e pacato arraial do Carmo do Rio Verde.
Inscrevamos nesta galeria, construída de amor e de carinho, o nome saudoso de Carlos Gomes Nogueira, pranteado filho desta nossa terra natalícia, onde nasceu no ano de 1846, na velha Fazenda dos Criminosos, de propriedade de seu pai, Capitão Luiz Gomes Nogueira.
Carlos, que ficara órfão aos oito anos de idade, começou a sua vida de trabalhos como tropeiro da fazenda, aos doze anos.
Casou-se com a distinta carmelitana Maria Amália Gorgulho Nogueira (Cocota) a 20 de Janeiro de 1868 e desse feliz consórcio nasceram 14 filhos, estando vivos apenas três: professor Alfredo Gorgulho Nogueira, Joaquim Gorgulho Nogueira e Josefina Gorgulho Nogueira.
Foi ele, em 1880, fundador e proprietário do “Hotel Carlos Gomes”, existente outrora na Rua dos Bambus, transferindo-o, em 1833, para o Largo da Matriz.
Até os últimos dias de existência o Sr. Carlos Gomes alimentou a ilusória esperança de ser contemplado com a “sorte grande”, pois os seus bolsos estavam sempre repletos de bilhetes de loteria; morreu, contudo, sem ter a ventura de ver realizado aquele seu velho sonho.
Dir-se-á que o seu coração fora edificado com os alicerces da mais pura bondade, razão por que era muito estimado pela população carmelitana.
O Capitão Luiz Gomes Nogueira, seu pai, era o maior fazendeiro da região, pois a propriedade agrícola dos “Criminosos”, naquela época, possuía mais de dez mil alqueires de terras, terras que se perdiam em imensas florestas virgens muitas léguas além do atual município de Silvestre Ferraz.
Contaram-nos há anos, que, quando da liberdade dos escravos, enquanto se celebravam ruidosas festas nas fazendas vizinhas, os negros dos “Criminosos” choravam copiosamente, tais os sentimentos humanitários de que era possuidora a família Gomes Nogueira.
O Capitão Luiz Gomes Nogueira era bisavô do professor Antonio Luiz Nogueira, diretor do Grupo Escolar Gabriel Ribeiro.
Carlos Gomes Nogueira residiu durante alguns anos em Cristina e na cidade de Campanha, regressando para o Carmo no ano de 1901.
O passamento lamentável de seu filho Zezé (Dr. José Gorgulho Nogueira) ocorrido no Rio de Janeiro no dia 17 de Setembro de 1930, abreviou-lhe os tormentosos dias, tão acabrunhados por esse golpe tremendo e brusco, falecendo a 19 de Dezembro do mesmo ano, depois de ter completado 84 anos de idade.
A morte desse bondoso carmelitano encheu de luto e de tristeza a nossa terra, tristeza e luto que, como dobre de finados, ainda hoje refletem em nossos corações no planger triste duma imorredoura saudade.

João do Rio Verde
Outubro de 1943

Nota: O trecho citado no início desta crônica, foi extraído da amável missiva com que Godofredo Rangel agradeceu a merecida homenagem que tributamos à memória de Clara Rangel, sua venerada e saudosa mãe.

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