Chuva Íntima

Eu desejei a chuva. Mesmo sendo aquela que sempre preferiu o frio ao calor, que sempre ficava em casa ao invés de aproveitar o tempo bom lá fora, a chuva parecia necessária nesse dia. O motivo eu não sei, mas eu queria a chuva.
E me senti bem com ela. Talvez não me sentisse melhor nem num maravilhoso dia de sol. O dia chuvoso me deu motivo para ficar o dia todo alternando entre a televisão, o livro, a comida e a sonolência. Sem aquele papo de “você precisa sair”.
Nesse dia estava a salvo de qualquer pressão e ainda teria o maravilhoso som da chuva caindo lá fora.
Caminhei até a janela virada para o pátio da igreja e apreciei aquele espetáculo. É preciso apreciar a chuva como se ouve uma sinfonia, identificando cada pequeno detalhe, cada gota de chuva que contribui para o seu ápice grandioso, quando a tempestade esbraveja, rolando suas enxurradas ladeira abaixo, balançando as copadas das árvores com suas baforadas possantes, clareando o céu com seus raios brilhantes.
E quando parece que o furor da chuva não terá fim, eis que ela abranda, diminui seu caudal, minguando suas enxurradas. O vendaval se metamorfoseia em agradável brisa. O brilho do sol ressurge entre as nuvens, já não tão escuras. O vigor da vida brota nas árvores dos quintais, de onde saem os pássaros alegres, arrepiando as suas penas encharcadas, querendo secá-las ao sol.
Cessa o último chuvisqueiro e as pessoas já saem à rua, apressadas em seus afazeres retardados pelas águas. E o sol brilha nos telhados ainda molhados, na torre da igreja com reflexos de prata, nas árvores que transformam suas folhas em pequenos diamantes. E brilha a vida dentro da gente.
Todos nós temos um dia chuvoso adormecido dentro do peito. Não sabemos quando ele dominará o nosso céu interior, mas sabemos que não será eterno. E quando a nossa tempestade íntima passar, veremos a vida ressurgir, num sorriso irresistível.
Eu fui dormir, naquela noite, agradecida pelo dia de chuva. Quando acordei, adivinhem só, estava chovendo. Mas chovia somente lá fora, não dentro de mim. Eu me sentia diferente. Quis aproveitar a chuva de uma maneira diferente. Então eu saí, caminhei pela rua olhando para as nuvens, com os pingos da chuva batendo em meu rosto. Corri, girei com meus braços abertos e dancei com a chuva. Terminei completamente ensopada.
Quando entrei em casa recebi as reprimendas de praxe, com ordens de tomar um banho quente, vestir roupas secas e me agasalhar.
Um insistente sorriso recusa-se a sair de meus lábios.

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