Conversando na esquina

Cidade de Interior

Conversa na praça
Conversa na praça

Há quem ache que cidades do interior vivam em um mundo à parte, onde influências externas só se materializam através da visita de forasteiros vindos, provavelmente, de cidades grandes. Que nesses lugares o tempo passa com um ritmo diferente, as águas correm mais tranquilas, as pessoas são mais calmas, despretensiosas, alheias ao que se passa nas metrópoles. Nestas a vida cultural fervilha, o tempo corre não sei para onde, com medo de se atrasar para o futuro. Nas metrópoles vivem as pessoas mais esclarecidas, que conversam sobre tudo, são extrovertidas, despachadas, modernas. Algumas, no intuito de mais reafirmarem sua identidade cosmopolita, chegam a desdenhar a vida interiorana, elaborando “causos” sobre o “mineirim” que só quer saber de comer queijo, reforçando a imagem do mineiro matuto, atrasado e inculto. Assim, também, deve ocorrer em diversos interiores do Brasil, cada um com suas características peculiares, seus sotaques próprios, compartilhando o título de cidadezinha do interior, afastadas geograficamente dos grandes centros, bem como da vida política, econômica, social e cultural do país.

Não nego que compartilhei desse pensamento um dia. Não por ser da capital. Ao contrário, eu e meus irmãos somos os únicos, na família de meu pai, nascidos e criados no interior. Mas, influenciada pela cultura globalizada, que teve ação marcante a partir da década de 90, intensificada pela música, pelas produções cinematográficas e pela moda norte americana, acreditava que a vida só seria interessante se morasse na cidade grande. O interiorano era apenas um expectador da cultura que fervilhava nas metrópoles.

O tempo passou. E passei minha infância e adolescência ora residindo em Lambari, ora em Carmo de Minas, até que nos fixamos definitivamente no Carmo. Completei meus estudos em São Lourenço, na Faculdade de História. De repente percebi que havia mudado de ideia.

Comecei a perceber a intensidade dos processos sociais e econômicos de âmbito geral e a sua repercussão em Carmo de Minas, como eles se relacionavam com a nossa comunidade e como se tornavam parte do que somos hoje em dia. Descobri que, em meio a todas as informações externas que recebemos em quantidades maciças atualmente, existe uma produção cultural nossa, genuinamente carmense. Sofremos influências das metrópoles, é evidente, mas assimilamos essa influência através de um filtro próprio, adaptado ao que somos e ao que julgamos ser conveniente ao nosso modo de vida.

Hoje, trabalhando no projeto “Folha Nova”, posso vivenciar a vida política, econômica, social e cultural acontecendo na Silvestre Ferraz de outrora. Somos leitores privilegiados da história Carmense, pois testemunhamos quanto de nossa cultura foi idealizada, escrita e produzida por nossos bisavós, avós e pais. E produzido com muitos maiores méritos, face às dificuldades de comunicação e transporte daqueles dias. Quanta coisa bela foi escrita em versos, quantas crônicas que prendem nossa atenção e nos comovem, quantos exemplos de vida edificante estão guardados em suas páginas!

Mesmo com a atual facilidade de acesso à informação propiciada pela Internet, acredito que dificilmente conseguiríamos uma produção cultural como a que foi realizada por nossos antepassados. A toda semana Américo Pena e, posteriormente, Fernando Pena, com a ajuda de seus colunistas colaboradores, presenteavam nossa comunidade com essa maravilhosa prova de cidadania que foi a redação e edição da Folha Nova, durante 60 anos. Quantos jornais de interior duraram tantas décadas? Talvez possamos contá-los com os dedos. E a Folha Nova sobreviveu a períodos difíceis da história como a 1ª Guerra Mundial, a grande depressão de 1930, a 2ª Guerra Mundial…

A Folha Nova merece e precisa ser lida mais uma vez, outra mais e muitas outras vezes. Nela estão partes da nossa história que precisam ser rememorados por alguns e conhecidos pelos outros. Ela ensina a história da nossa cidade, da nossa rua, de nossos parentes. E essa é a história mais querida, que guardamos dentro do coração. Pobre daquele que não conhece seu passado, pois será incapaz de compreender seu presente e jamais conseguirá determinar seu futuro.

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