Clara Rangel, a querida Cacaia

Autoria: João do Rio Verde.
Publicada na Folha Nova, nº 1.382,
em 20 de Junho de 1943.

Abandonando este ano pela primeira vez o anzol e o meu bornal nas margens solitárias do Rio Verde, transponho a colina fronteira para, no coração da minha terra natal, em linguagem simples e despretenciosa, em páginas de amor e de saudade, reviver um passado distante e feliz, decorrido naquela poética vivenda construída outrora entre frondosas árvores frutíferas, à sombra de magnólias e jasmineiros perfumados, à orla da via férrea, nas proximidades da Estação.
Ali, naquela vetusta chacrinha, viveu durante trinta e cinco anos uma das mais santas e meigas criaturas que iluminaram a minha saudosa juventude com um sorriso repassado de infinita bondade: Clara Rangel, ou Cacaia, apelido com que era tratada pelos carmelitanos.
Ah! quanta recordação dum passado longínquo e inesquecível ao evocar à memória a vida daquela distinta e estimada senhora, em cuja fisionomia se deparava sempre um doce sorriso nimbado de carinho.
Clara Augusta Gorgulho Rangel nasceu no Arraial do Carmo no ano de 1851, na Chácara da Sinhana, sua mãe, chácara hoje pertencente à família Coli. Foi ela casada com João Silvio de Moura Rangel, natural de Maxambomba, Estado do Rio de Janeiro, o qual, vindo para a nossa terra como caixeiro viajante e aqui tendo contraído matrimônio, foi estabelecer-se como comerciante no Largo da Matriz, onde hoje é a casa do José Chaib.
O João Silvio era um cavalheiro de fina educação e esmerada cultura, assemelhando-se mais a um diplomata do que a um negociante.
O casal teve 8 filhos, sendo 4 homens e 4 mulheres: Gentil, Silvio, José Godofredo e Tancredo; Lavínia, Georgina, Silvia e Irene. São mortos 3: Silvio, Silvia e Tancredo, este último falecendo com apenas alguns meses de idade.
Por volta do ano de 1884 o casal passou a residir em Três Corações, regressando, porém, alguns meses depois para o nosso querido Carmo do Rio Verde.
Naquela próspera cidade nasceu Godofredo Rangel, o notável e apreciado escritor, uma das mais legítimas glórias das letras brasileiras.
Cacaia, dado o seu gênio alegre e folgazão, era querida por todos e a Chacrinha se tornara o ponto predileto dos passeios domingueiros das famílias carmelitanas. Os bailes que, frequentemente, ali se realizavam nos primeiros anos deste século, aos acordes de uma melodiosa sanfona, muitas vezes prolongavam-se até o raiar do clarão da madrugada. Clara, espirituosa e jovial, sabia a todos agradar e só se retirava para os seus aposentos depois da partida do último dos convidados.
Ao recordar hoje a vida abençoada de Clara Rangel, sinto uma intraduzível e comovente saudade daqueles tempos de outrora, que já não voltam, deixando uma imorredoura lembrança em nossas almas.
Clara Rangel faleceu com 84 anos de idade, a 28 de Março de 1935, continuando, entretanto, a viver num sulco da mais profunda saudade nos corações do povo do seu amado rincão natalício.

A Chacrinha

A Chacrinha, risonha vivenda onde perto de 4 décadas viveu a boa e caritativa Clara Rangel, possui a sua interessante história que, como epílogo desta crônica de saudade, passo agora a narrar.
O prédio foi edificado no ano de 1882 pelo João Silvio de Moura Rangel, esposo de Cacaia. O João Silvio, que atravessava por essa época uma tremenda crise econômica, somente devido à sua tenacidade conseguiu terminar a obra. A maior parte do material empregado na construção foi removido de um velho galinheiro modelo que existia na Chácara da Sinhana; as pedras foram retiradas de antigo moinho abandonado, havia anos, no quintal da referida Chácara; o terreno, onde se vislumbravam vestígios de ranchos improvisados por tropeiros após longas caminhadas, foi cedido pelas irmãs Sinhana e Siá Quita, respectivamente mãe e tia de Clara. O pedreiro construtor chamava-se Braz Guerreiro e o carpinteiro Egídio, genro de um tal Sancho.
O João Gomes Nogueira, proprietário da Fazenda dos Criminosos, concunhado de João Silvio, bom parente e coração generoso, ofereceu um carro de bois para o transporte do material necessário, tendo trabalhado como candieiro do referido carro o menino Gentil (o eminente Desembargador Gentil Nogueira de Moura Rangel, um dos luminares da magistratura, residente em Belo Horizonte).
Um ano após terminada a obra, em 1883, foi a Chacrinha vendida ao Dr. Zeca Gorgulho, que por sua vez a cedeu ao Carlinhos Junqueira, da Boa Vista, sendo a mesma adquirida de novo pelo Dr. Zeca em 1900, ano em que o Dr. Gentil Rangel comprou a mesma, afim de que a Chacrinha se tornasse um patrimônio da família Rangel.
Por morte de sua venerada mãe, o Dr. Rangel (o antigo candieiro do carro de bois) fez doação incondicional da Chacrinha à sua irmã Irene, casada com o Glicério Pinto de Andrade, pedindo-lhe, porém, como especial favor, que conservassem com amor e carinho aquela bendita propriedade, que evocava a época mais ditosa da sua existência.

João do Rio Verde
Junho de 1943

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