Condições da Agricultura na vila de Silvestre Ferraz – 1910 a 1913

Condições da agricultura na vila de Silvestre Ferraz - 1910 a 1913O Serviço de Inspeção e Defesa Agrícolas, do Ministério da Agricultura, Indústria e Comércio, publicou um relatório sobre as condições da agricultura dos 176 municípios do Estado de Minas Gerais, inspecionados de 9 de Abril de 1910 a 30 de Novembro de 1913. O volume que nos serviu de consulta foi gentilmente cedido pela Mantiqueira de Minas, instituição que representa e lidera cafeicultores da microrregião localizada na Face Minas Gerais da Serra da Mantiqueira, dentro do entorno denominado Circuito das Águas. Deste relatório destacamos o capítulo referente à então vila de Silvestre Ferraz, atual município de Carmo de Minas.

 

 

 

 

VILA DE SILVESTRE FERRAZ

AGRICULTORES

– Condições econômicas: Boas.
– Impostos: Os agricultores e criadores pagam o territorial e o municipal.
– Maior queixa: Os agricultores queixam-se dos fretes excessivos da estrada de ferro e da falta de braços; os criadores, das moléstias dos animais.
– Estrangeiros: Não há.

 

ÁGUAS SUPERFICIAIS – Rios: dos Criminosos, Aterrado e ribeirão do Carmo, todos permanentes. Não há lagoas.

 

ÁRVORES FRUTÍFERAS – Existem neste município quase todas as árvores frutíferas, dando boas frutas.

 

ALIMENTAÇÃO DA POPULAÇÃO – Alimenta-se bem.

 

CAMPOS E PASTOS – Capim catingueiro, jaraguá, amargoso, mimoso e barba de bode; não há campos ervados.

 

CULTURAS – Cultivam milho, feijão, batatas, fumo, árvores frutíferas e videiras, sendo a cultura do milho a mais importante.

 

COLHEITAS – As colheitas são vendidas geralmente beneficiadas. A de cereais nos anos de 1910 e 1913 foi de 100.000 alqueires (1.500 t) de milho e 3.000 alqueires (45 t) de feijão. Colheram em 1911, 30.000 arrobas de 15 quilos (450 t) de batatas.

 

CEREAIS – O custo da produção de cereais é: milho, 40 réis (R$ 5,00) o litro; feijão, 80 réis (R$ 10,00) o litro. O milho é vendido a 60 réis (R$ 7,50) o litro. Os mercados compradores são o local e o Rio de Janeiro. Não há feiras.

 

CANA-DE-AÇUCAR – Seus produtos: Não há cultura de cana. Custa o quilo de açúcar 300 réis (R$ 37,50); uma rapadura de um quilo, 250 réis (R$ 31,25); um litro de aguardente, 400 réis (R$ 50,00).

 

COOPERATIVAS – Não há.

 

CALOR E FRIO – O calor começa em Setembro e o frio em Abril.

 

CHUVAS – Começam em Outubro.

 

CONDIÇÕES DE SAÚDE DA POPULAÇÃO – Geralmente fortes e corados.

 

CONTABILIDADE – Quase só apontamentos.

 

CRIAÇÃO DO MUNICÍPIO

– Bovinos, equinos, ovinos e suínos, sendo bovinos e suínos as mais importantes.
– Bovinos: Caracu, Jersey, Suíço e Comuns.
– Equinos: Comuns.
– Ovinos: Comuns.
– Suínos: Comuns.
– Produtos: Carnes, couros, crias, queijos, toucinho, etc., sendo a carne, o toucinho e os queijos os mais procurados.
– Custo dos animais: Cavalo de sela, 200$000 réis (R$ 25.000,00) e muito mais; cavalo de carga, 50$000 réis (R$ 6.250,00); burro de sela, 200$000 réis (R$ 25.000,00) e mais; burro de carga, 150$000 réis (R$ 18.750,00); animal de arado, 100$000 réis (R$ 12.500,00); boi carreiro, 100$000 réis (R$ 12.500,00); boi de corte, 80$000 réis (R$ 10.000,00); touro, 200$000 réis (R$ 2.500,00) e mais; vaca leiteira, produzindo em média 5 litros de leite diários, 100$000 (R$ 12.500,00) e mais; litro de leite, 160 réis (R$ 20,00).
– Carnes e toucinho: o quilo de carne de vaca, porco ou carneiro custa 700 réis (R$ 87,50); de toucinho, 800 réis (R$ 100,00).
– Manteiga e queijo: O quilo da manteiga custa 3$000 reis (R$ 375,00) e quilo de queijo, 1$000 réis (R$125,00).
– Aves: Uma galinha custa 800 réis (R$ 100,00); a dúzia de ovos, 500 réis (R$ 62,50).
– Moléstias: Febre aftosa e manqueira ou carbúnculo sintomático; tratadas com creolina, cal e vacina anti-carbunculosa.

 

CUSTO DOS TECIDOS – O custo mínimo dos tecidos é de 300 réis (R$ 37,50) por metro.

 

ESTRADAS E PONTES – Cortam o município as estradas de ferro da rede Sul Mineira; as estradas de rodagem e suas pontes são regularmente conservadas.

 

EXPORTAÇÃO E IMPORTAÇÃO – Exporta: Toucinho, manteiga, queijos, milho, feijão, etc.; importa: sal, açúcar, arroz, aguardente, rapadura, tecidos, ferragens, etc.

 

ESCOLAS – Há um Grupo Escolar,uma Escola Normal e uma Escola de Farmácia, além das escolas primárias particulares.

 

FÁBRICAS – Existem fábricas de manteiga.

 

FARINHA DE MANDIOCA E FEIJÃO – O litro da farinha de mandioca custa 200 réis (R$ 25,00); o litro da farinha de feijão, 150 réis (R$ 18,75).

 

HABITAÇÕES – Salubres na maioria.

 

HIPOTECAS – Há poucas.

 

INSTRUMENTOS AGRÍCOLAS – Arados, enxadas, machados, foices, etc.

 

JUROS – A taxa é de 7 a 8 % ao ano.

 

MADEIRAS DE LEI – Óleo vermelho, jacaranda, sobrazil, cedro e pinheiro.

 

MINAS – Não há.

 

MOLÉSTIAS DA POPULAÇÃO – Comuns.

 

MOLÉSTIAS E PRAGAS DAS PLANTAS CULTIVADAS -Formigas, lagartas, cupins e mela, etc.; combatem as formigas com formicida.

 

NÚCLEOS COLONIAIS – Não há.

 

OPEROSIDADE DA POPULAÇÃO – É pequeno o número de desocupados.

 

PADRÕES DE TERRAS BOAS – Cambará, caeté, lixa, unha de vaca, etc.

 

PADRÕES DE TERRAS INFERIORES – Sucupira, pindaíba, etc.

 

PORTOS – Não há.

 

SEMENTES – Não há cuidado na escolha.

 

SEMEADURAS – São feitas a mão, começam a semear em fins de Setembro.

 

SISTEMA DE TRABALHO DO PESSOAL AGRÍCOLA – Jornal diário, mensal e contratos.

 

SALÁRIOS – Trabalhador rural, 1$200 a 1$500 réis (R$ 150,00 a R$ 187,50) diários, com comida; cozinheira, 10$000 a 15$000 réis (R$ 1.250,00 a R$ 1.875,00, no texto original não há indicação do período); as lavadeiras cobram 500 réis (R$ 62,50) por dúzia de peças; carpinteiro, 5$000 réis (R$ 625,00) diários; não há administradores nem escrivães de fazenda. Os salários são pagos e os contratos cumpridos.

 

TERRAS

– Qualidade: Na maioria boas, misturadas e acidentadas. Existem muitos terrenos pedregosos. A vegetação é representada por matas virgens, capoeiras, cerrados, carrascais e campos.
– Preços: o hectare de terra boa custa 100$000 réis (R$ 12.500,00), havendo preços bem mais inferiores.

 

TRANSPORTES – Dentro do município o custo do transporte é de 100 réis (R$ 12,50) por 15 quilos e por légua (4.820 m). Na estrada de ferro os fretes para o Rio de Janeiro são: toucinho, 263 réis (R$ 32,87) por 10 quilos; milho, 756 réis (R$ 94,50) por saco de 60 quilos; feijão, 763 réis (R$ 95,37) por saco de 60 quilos e batatas, 760 réis (R$ 95,00) por saco de 60 quilos.

 

NOTA

 

Silvestre Ferraz é limitado pelos municípios de Caxambu, Águas Virtuosas, Cristina e Pouso Alto. Seu clima é excelente e sua altitude é de 1.008 metros acima do nível do mar. É cortado pelas estradas de ferro: Sapucaí, Minas e Rio e Muzambinho, que constituem hoje a rede Sul Mineira, possuindo no município cinco estações: Silvestre Ferraz, São Lourenço, Freitas, Carmo e Domingos Teodoro. Sua população é de cerca de 15.000 habitantes. As terras são ubérrimas e se prestam muito bem a culturas variadas. Há importantes fábricas de manteiga.
O gado bovino já está sendo melhorado com produtos das raças Jersey, Suíça, Holandesa e Caracu.
Já há gado tão apurado que o adiantado criador, Sr. Jeronimo Guedes Fernandes, conseguiu vender um novilho por 3:000$000 réis (R$ 375.000,00) e outro por 4:000$000 réis (R$ 500.000,00).
Há anos que a cultura da vinha vem se fazendo com bons resultados. Os terrenos, no geral, não se prestam às culturas do arroz e do café. (Hoje, terra dos melhores cafés do Brasil)
Em Silvestre Ferraz há uma chácara, denominada Chácara da Conceição, do Sr. Cel. Jeronimo Guedes Fernandes, que merece especial menção pela quantidade e variedade de frutas de seu pomar.
O seu vinhedo consta de 30.000 pés de várias qualidades de videiras, salientando-se entre elas as seguintes: Golden Queen, Moscatel preta de Alexandria, Frankental, Almeria, Hycalés, Chasselas dorée e rosé, Delaware, Robin Noire e outras, todas obtidas por enxerto. Com elas já tem ele fabricado vinhos especiais.
Além do belo vinhedo, possui a chácara milhares de árvores frutíferas, bem tratadas, como se vê dos números seguintes: 1.340 laranjeiras de diversas qualidades, 900 ameixeiras do Japão, 850 caquiseiros, 120 marmeleiros do Japão, 100 pereiras, 450 macieiras europeias, 100 cerejeiras (50 ditas do Rio Grande), 50 mangueiras, 100 ameixeiras Rainha Cláudia, frutas do conde e condessa, caramboleiros, sapotizeiros, frutas pão, ateiras, abacateiros, 900 pés de nogueira, etc. Estas plantas, em sua maioria são obtidas por enxerto. Além deste pomar pretende o proprietário formar mais dois.
A criação do município é mais ou menos esta: bovinos, 5.000; cavalares, 720; muares, 500; lanígeros, 300; suínos, 4.000; caprinos, 400.

 

A conversão de valores aproximados entre réis (1889) e reais (2015) serve apenas para facilitar a comparação entre os diversos preços informados neste questionário, publicado em 1913. Não houve preocupação em calcular a correção monetária entre as duas moedas. Assim, se nos admirarmos com o preço de uma dúzia de ovos, R$ 62,50, ou de um litro de leite, R$ 20,00, em 1910/1913, devemos lembrar que o salário mensal de um trabalhador rural superava os R$ 27.500,00, na mesma época. Isso, portanto, demonstra a dificuldade de se tomar essa conversão direta de valores como correção monetária de moedas. O cálculo de valores entre as duas moedas foi feita com base na cotação do ouro 24 quilates, conforme publicado na Wikipédia – Réis :

9 (nove) gramas de ouro 24 quilates, em 15/11/1889, valia 10$000 réis.
9 (nove) gramas de ouro 24 quilates, em 15/11/2015, valia R$ 1.188,00 (cotação atualizada para 15/11/2015).
Assim,

10 réis em 15/11/1889, equivalia a R$ 1,25 em 15/11/2015;
80 réis em 15/11/1889,  equivalia a R$ 10,00 em 15/11/2015.

E seguindo a mesma comparação entre as moedas de 1889 e 2015, baseada valor do ouro 24 quilates, vejamos algumas moedas que eram conhecidas por seus nomes e que até hoje são referenciados em nossa linguagem:

Um vintém – 20 réis –  equivalia a R$ 2,50.

Um tostão – 80 réis – equivalia a R$ 10,00.

Uma meia-pataca – 160 réis – equivalia a R$ 20,00.

Uma pataca – 320 réis – equivalia a R$ 40,00.

 

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