Crepúsculo

Autoria: Catão Junior.
Publicado na Folha Nova, nº 132,
em 27 de Agosto de 1916.

Ia baixando a noite, o sol morria…
A tarde entre arrebóis se despedia,
Para não mais voltar.
E nessa tarde, Oh! filha, tu partiste,
Deixando da saudade o manto triste
Da noite sem luar.

Quantas preces choradas aos pés de Deus,
A natureza surda aos rogos meus,
Muda me torturava;
Morrendo uma esperança a cada instante,
Ao ver-te, minha filha, agonizante,
A crença se findava.

Depois chegou a noite, escura e erma,
Já não eras, no leito, aquela enferma
Ao lado de teus pais;
Sem vida o teu corpinho ali dormia,
Branca mortalha um anjo te vestia,
Bordada de corais.

Implacável coveiro abrindo o chão,
Rasgava, em vez da terra, o coração
De quem te amava tanto.
Batendo, entre as saudades resvalando
A negra enxada, o ferro ia quebrando
Em lágrimas e pranto.

Morreste, enfim, que fero desengano,
De garras tão cruel e desumano,
Ferindo a minha dor;
Morta, ainda me olhavas, eu bem via…
Que querias levar a minha agonia
Nas asas do amor.

Catão Junior
Silvestre Ferraz,  Agosto de 1916

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