Custódio Ribeiro Pereira Guimarães

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Em meados do século XVIII chegou ao Brasil, vindo de Portugal, um jovem chamado Custódio Ribeiro Pereira Guimarães. Era ele filho de Francisco Ribeiro da Cunha e de Mariana Gonçalves, naturais da freguesia de Moreira do Rei, Monte Longo, Braga, na região do Minho, no norte de Portugal.
Chegando ao Brasil, Custódio dirigiu-se para Ouro Preto, onde morava um seu tio, proprietário de uma mina de ouro na região. Custódio contava, então, dezoito anos.
Trabalhando na mina aurífera de seu tio, que era muito rico, foi alertado por empregados deste de que ali não deveria permanecer, pois que tal ocupação era bastante perigosa. Pouco tempo depois, um desabamento na mina quase matou vários operários, que só se salvaram graças à pronta e corajosa intervenção do jovem Custódio.
Resolvido a partir, comunica sua vontade ao tio. Este o aprova e abençoa, dando-lhe, então, 200.000 réis e uma letra de um conto de réis, para ser descontada junto a outro tio, residente em São Paulo. Era uma verdadeira fortuna para a época.
Chegando a São Paulo, Custódio procura por seu segundo tio, que lhe diz estar a cidade já muito explorada, aconselhando-o a partir para as bordas da Serra da Mantiqueira. Depois de ter receber o conto de réis e de ter ganho deste tio grande outra quantia em dinheiro, partiu Custódio para a vila de Cruzeiro, fixando-se nas encostas da Serra da Mantiqueira onde, já no interior desta Província, na localidade de Santana do Capivari, no caminho que vai para Pouso Alto, ergueu uma pousada. Marcou suas terras, requerendo a propriedade da Sesmaria. Deu ao lugar o nome de Fazenda do Pico. Posteriormente a fazenda passou a ser chamada de Fazenda da Chapada. Custódio passou à posteridade como sendo o “Velho da Chapada”.
Fazendo fortuna, casou-se com Maria Ribeiro de Carvalho, filha de Antônio José Ribeiro de Carvalho, natural de São Salvador de Rossaz, Braga, Portugal, e de Maria Gonçalves Ribeiro Torres, natural de Pouso Alto. Custódio tornou-se, ainda, Sargento-Mor e Capitão da Coroa portuguesa.
De seu casamento com Maria Ribeiro de Carvalho nasceram seis filhos:
1) Custódio Ribeiro de Carvalho.
2) Francisco Ribeiro de Carvalho.
3) Joaquim Ribeiro de Carvalho.
4) Manoel José Ribeiro de Carvalho.
5) Antônio José Ribeiro de Carvalho.
6) João Ribeiro de Carvalho.
Custódio era bastante aparentado com sua futura mulher. Daí seus filhos adotarem o sobrenome Ribeiro de Carvalho.
Após a morte de Maria Ribeiro de Carvalho, em 1803, foi feito seu inventário, sendo inventariante o seu viúvo, Custódio Ribeiro Pereira Guimarães. Deixou, a mesma, um testamento, transcrito na íntegra, a seguir:
Testamento de Maria Ribeiro de Carvalho.
Testamenteiro — Capitão Custódio Ribeiro Pereira Guimarães. Estado Civil — casada.
Local — São João del Rei.

Em nome da Santíssima Trindade, Padre, Filho e Espírito Santo, três pessoas distintas e um só Deus verdadeiro.
Saibam quantos este Público Instrumento de Testamento virem que sendo no ano do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de mil oitocentos e três, ao primeiro de junho, neste sítio chamado Ressaca, em casas de morada de Vicente Rodrigues, eu, Maria Ribeiro de Carvalho, estando em meu perfeito juízo e entendimento, que Deus Nosso Senhor foi servido dar-me, e temendo-me da morte, e desejando por a minha alma no caminho da salvação, e por não saber o que Nosso Senhor quer fazer e quando será servido levar-me para Si, faço este meu testamento na forma seguinte.
Primeiramente, encomendo a minha alma à Santíssima Trindade, que a criou, e rogo ao Eterno Pai que, pela Sacratíssima morte e paixão de seu Unigênito Filho, a queira receber, como recebeu a Sua estando para morrer na Árvore da Bela Cruz. À Virgem Maria, Senhora nossa, a Santa de meu nome e de minha especial devoção, a todos os santos e santas da corte do céu, rogo sejam meus intercessores quando minha alma deste mundo partir, para que vá gozar da bem aventurança para que foi criada, porque como verdadeira cristã protesto viver e morrer na Santa Fé Católica e crer tudo que tem, e crê a Santa Madre Igreja Romana em cuja fé espero salvar a minha alma, não por meus merecimentos, mas sim pelos da Sagrada Paixão e morte de meu Senhor Jesus Cristo.
Rogo a meu marido, o Capitão Custódio Ribeiro Pereira Guimarães, em primeiro lugar, em segundo ao Alferes Bernardo José Pinto, em terceiro ao Guarda Mor Gregório Ribeiro de Carvalho, que por serviço de Deus e esmola a mim, queiram ser meus testamenteiros.
Ordeno que meu corpo seja sepultado na Capela de Santa Ana de Capivari desta Freguesia de Pouso Alto.
Declaro que sou irmã de Nossa Senhora do Monte do Carmo, na Praça do Rio de Janeiro, e quero que meu corpo seja amortalhado no hábito de terceira. O meu funeral será feito à eleição do meu testamenteiro.
Declaro que sou natural da Freguesia de Nossa Senhora da Conceição do Pouso Alto, filha legítima de Antônio José Ribeiro de Carvalho, já falecido, e de Maria Gonçalves.
Declaro que sou casada com o Capitão Custódio Ribeiro Pereira Guimarães, de cujo matrimônio tivemos seis filhos, os quais são vivos os seguintes: Custódio, Capitão Francisco, Alferes Joaquim, Manoel, Antônio e João, os quais são meus herdeiros forçados.
Declaro que temos uma fazenda de matos com duas sesmarias de meia léguas cada uma, na paragem chamada a Conquista, e assim mais a outra de mato e capoeiras, digo, e campos de criar, na paragem chamada a Senhora da Lagoa.
Declaro que possuímos cento e cinquenta escravos, entre grandes e pequenos. Possuímos mais oitenta e seis bestas muares. E assim mais seis cavalos. E assim mais vinte e sete éguas. E assim mais trezentas cabeças de gado vacum, entre grande e meado, e assim mais o que se nos devem que constam de créditos e livros.
Declaro que temos uma morada de casas na Capela do Capivari e outras chamadas sitas na mesma Aplicação, e assim mais todos os trastes e alfaias de ouro, prata, cobre e metal que meu marido dará a inventário, com os mais que se acharem.
Declaro que todas as dívidas que se devem se hão de pagar do monte, por serem contraídas na administração da fazenda.
E na forma a isto se partirá, entre mim, meu marido e herdeiros, todo o monte na forma da lei do Reino. E porque no que me cabe as duas partes são de meus herdeiros, e só a terça é minha.
E dela disponho pelo modo seguinte:
Declaro que de minha terça que me tocar, meus testamenteiros mandarão dizer no Convento do Carmo, na praça do Rio de Janeiro, cem missas pela minha alma.
Declaro, mais, mandará dizer cem missas em Altar privilegiado, na mesma cidade do Rio de Janeiro, todas por minha alma.
Declaro, mais, que mandará dizer cinquenta missas pelo Anjo de minha guarda e a Santa de meu nome.
Declaro que mandará dizer cinquenta Missas pelas almas do Purgatório.
Declaro, mais, mandará dizer vinte Missas pela alma de meu Pai, todas serão ditas na cidade do Rio de Janeiro.
Declaro, mais, mandará dizer trinta Missas pelas almas dos escravos que faleceram em casa.
Declaro, mais, que mandará fazer um ofício na cidade do Rio de Janeiro.
Declaro, mais, que dará duzentos mil réis de esmolas aos pobres desta Freguesia.
Declaro que, pagas as dívidas e cumpridos os meus legados, o que restar de minha terça se dará a meus herdeiros, em igual parte, que são Custódio, Francisco, Joaquim, Manoel, Antônio, João.
Declaro que meu testamenteiro será obrigado a dar conta das minhas disposições no tempo de um ano, e assim torno a rogar aos meus testamenteiros que, por serviço de Deus e esmola a mim, queiram ser meus testamenteiros que são meu marido, o Capitão Custódio Ribeiro Pereira Guimarães, o Alferes Bernardo José Pinto, o Guarda Mor Gregório Ribeiro de Carvalho, quero em tudo cumprirão como nele meu testamento tenho ordenado.
E porque tenho disposto, e porque esta é a minha última vontade na forma que tenho disposto, por não saber ler nem escrever, pedi e roguei ao Capitão João Fernandes da Silva este por mim escrevesse e como testemunha assinasse, e eu me assino com uma Cruz, sinal de que uso.
Ressaca, primeiro de junho de mil oitocentos e três anos.
Sinal de Maria Ribeiro de Carvalho, como testemunha que este fiz vi assinar,

Ass.: João Fernandes da Silva

Não sei dizer exatamente em que época Custódio comprou a Fazenda do Jardim, em Itanhandú (ou se esta fazenda fazia parte, por desmembramento, da Fazenda da Chapada), e a Fazenda do Paracatu, em Virgínia. Porém, tudo leva a crer que foi após a sua viuvez.
Segundo o historiador Luiz Barcellos de Toledo, em seu livro “O Sertão da Pedra Branca”, Dona Anna Joaquina da Silva morreu em 14 de agôsto de 1803. Seu inventário foi feito em 1805, na Fazenda das Três Barras, por seu marido, Manoel Ramos da Silva. Em 1811, Manoel Ramos e seus herdeiros venderam esta fazenda ao abastado fazendeiro de Pouso Alto, Capitão-Mor Custódio Ribeiro Pereira Guimarães, conhecido como “Chapada”, devido ao lugar onde residia. Na mesma ocasião este comprou, ou recebeu em pagamento de uma dívida, a vizinha Fazenda Palmital, de Antônio José Pereira, que a tinha comprado do Alferes Antônio José Rodrigues. Estas duas fazendas, hoje no município de Carmo de Minas, divisavam com João Fernandes da Silva, proprietário da Fazenda do Pitangal, e Manoel Carneiro Santiago, dono da Fazenda da Água Limpa, ambas na vizinha cidade de Cristina.
Custódio Ribeiro Pereira Guimarães já então gozava de grande prestígio e merecida fama de grande fazendeiro. Juntamente com seus filhos, passou a ser proprietário de extensas áreas de terra, que se estendiam por diversos municípios, entre eles, Passa Quatro, Itamonte, Itanhandú, Alagôa, Pouso Alto, São Sebastião do Rio Verde, Virgínia, Carmo de Minas e Dom Viçoso. Nestas localidades se encontravam, além das primitivas sesmarias dantes mencionadas no testamento de Dona Maria Ribeiro de Carvalho, as fazendas do Jardim, do Paracatú, da Chapada, do Palmital e das Três Barras.
Observando-se mapas municipais e informações de antigas divisas, pode-se calcular que o somatório destas áreas deveria exceder os 35.000 hectares de terras, das mais férteis do Sul de Minas.
A seguir, passaremos a tratar dos 6 filhos deste casal.

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1 comentário em “Custódio Ribeiro Pereira Guimarães”

  1. Alessandro Guimarães Vasconcelos

    Olá, me desculpem pois não sei se este seria o canal adequado, mas sou trineto de Manoel Francisco da Silveira Guimarães e gostaria de saber se vocês tem alguma informação sobre esta família. Desde já agradeço e parabéns pelo site.

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