Desalento

Autoria: Fátima Cléo.
Publicado na Folha Nova, nº 937,
em 25 de Fevereiro de 1934.

Depois de um dia triste,
a noite chega,
triste e chuvosa,
mais triste ainda…
E as gotas,
da chuva que desce do infinito nas trevas,
muito serena como um sussurrar de prece,
são soluços que se transformaram no espaço,
são lágrimas das estrelas,
brancas noivas no céu abandonadas.

Lá fora, na escuridão,
não se vê um pirilampo nas estradas,
a doirar,
de quando em raro,
a sinfonia de ais que escuto
e não sei onde.
E aqui dentro, o indefinido,
nada mais.
Nem o perpassar de anseios primitivos,
que às vezes o nosso coração esconde.
Nem mais me invade a esperança indecisa,
só há parcelas de tristeza e de saudade
que morreram no meu cérebro e na minha alma.
Mas tanta vontade eu sinto de chorar,
também,
não sei porque.

Amanhece.
Vai-se a aurora e o dia vem
– eternos namorados que nunca se encontram.
Há um leve e doce estremecer de ninhos
no arvoredo que se agita
quando a aragem de manso vai passando;
há flores no canteiro
e colibrís nos estrelados jasmineiros;
nas campinas, o verde antigo é já mais verde;
tornou-se mais azul o azul do céu imenso.
Há madrigais de pétalas na terra toda,
e há hinos divinais de sons e de asas,
no ar.
Há fragmentos de alegria
que se movem em minha mente,
e que parecem reviver em minha alma.
E mais vontade eu sinto de chorar…

Então,
bem sei agora,
que para o meu coração,
invés de noites claras
e claros dias de primavera sem fim,
só pode haver uma noite,
uma só,
eternamente escura
e eternamente triste:
A que trago dentro de mim!

Fátima Cléo
Silvestre Ferraz, Setembro de 1933

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