Do livro Cultura e Opulência do Brasil por suas drogas e minas

CULTURA E OPULÊNCIA DO BRASIL POR SUAS DROGAS E MINAS

Com várias notícias curiosas do modo de fazer o açúcar, plantar e beneficiar o tabaco, tirar ouro das minas e descobrir as da prata e dos grandes emolumentos que esta conquista da América Meridional dá ao reino de Portugal com este e outros gêneros e contratos reais.

Obra de

ANDRÉ JOÃO ANTONIL

Oferecida
Aos que desejam ver glorificado nos altares ao venerável padre José de Anchieta, sacerdote da Companhia de Jesus, missionário apostólico e novo taumaturgo do Brasil.
Lisboa
Na Oficina Real Deslandesiana, com as licenças necessárias, ano de 1711.

. . . . .

CAPÍTULO VII

(Nota da Folha Nova: Publicamos este Capítulo VII para, além da curiosidade de saber do comércio de Vila Rica, mostrar que toda essa opulência de artigos e mercadorias era transportada pelo Caminho Velho, que percorria o itinerário descrito mais baixo, no Capítulo X, e que passava pelo Pinheirinhos, por Santana do Capivari e pela Boa Vista, em Pouso Alto.)

Da abundância de mantimentos, e de todo o usual que hoje há nas minas, e do pouco caso que se faz dos preços extraordinariamente altos.

SENDO A TERRA QUE DÁ OURO esterilíssima de tudo o que se há mister para a vida humana, e não menos estéril a maior parte dos caminhos das minas, não se pode crer o que padeceram ao princípio os mineiros por falta de mantimentos, achando-se não poucos mortos com uma espiga de milho na mão, sem terem outro sustento. Porém, tanto que se viu a abundância do ouro que se tirava e a largueza com que se pagava tudo o que lá ia, logo se fizeram estalagens e logo começaram os mercadores a mandar às minas o melhor que se chega nos navios do Reino e de outras partes, assim de mantimentos, como de regalo e de pomposo para se vestirem, além de mil bugiarias de França, que lá também foram dar. E, a este respeito, de todas as partes do Brasil, se começou a enviar tudo o que dá a terra, com lucro não somente grande, mas excessivo. E, não havendo nas minas outra moeda mais que ouro em pó, o menos que se pedia e dava por qualquer cousa eram oitavas. Daqui se seguiu mandarem-se às minas gerais as boiadas de Paranaguá, e às do rio das Velhas as boiadas dos campos da Bahia, e tudo o mais que os moradores imaginaram poderia apetecer-se de qualquer gênero de cousas naturais e industriais, adventícias e próprias. E, ainda que hoje os preços sejam mais moderados, contudo porei aqui um rol, feito sinceramente por quem assistiu nas gerais três anos, dos preços das cousas que por comum assento lá se vendiam no ano 1703, repartindo-o em três ordens, a saber: os preços que pertencem às cousas comestíveis; o do vestuário e armas; e os dos escravos e cavalgaduras, que são os seguintes:   (Nota da Folha Nova:  André João Antonil refere-se, neste artigo, ao custo de vida na Vila Rica no início dos anos 1700. Para comparação aos dias atuais, uma oitava de ouro está cotada em  R$ 446,00.)

Preços das cousas comestíveis

Por uma rês, oitenta oitavas.
Por um boi, cem oitavas.
Por uma mão de sessenta espigas de milho, trinta oitavas.
Por um alqueire de farinha de mandioca, quarenta oitavas.
Por seis bolos de farinha de milho, três oitavas.
Por um paio, três oitavas.
Por um presunto de oito libras, dezasseis oitavas.
Por um pastel pequeno, uma oitava.
Por uma libra de manteiga de vaca, duas oitavas.
Por uma galinha, três ou quatro oitavas.
Por seis libras de carne de vaca, uma oitava.
Por um queijo da terra, três ou quatro oitavas, conforme o peso.
Por um queijo flamengo, dezasseis oitavas.
Por um queijo de Alentejo, três e quatro oitavas.
Por uma boceta de marmelada, três oitavas.
Por um frasco de confeitos de quatro libras, dezasseis oitavas.
Por uma cara de açúcar de uma arroba, 32 oitavas.
Por uma libra de cidrão, três oitavas.
Por um barrilote de água ardente, carga de um escravo, cem oitavas.
Por um barrilote de vinho, carga de um escravo, duzentas oitavas.
Por um barrilote de azeite, duas libras.
Por quatro oitavas de tabaco em pó com cheiro, uma oitava.
Por seis oitavas de tabaco sem cheiro, uma oitava.
Por uma vara de tabaco em corda, três oitavas.

Preço das cousas que pertencem ao vestuário, e armas

Por uma casaca de baeta ordinária, doze oitavas.
Por uma casaca de pano fino, vinte oitavas.
Por uma veste de seda, dezasseis oitavas.
Por uns calções de pano fino, nove oitavas.
Por uns calções de seda, doze oitavas.
Por uma camisa de linho, quatro oitavas.
Por umas ceroulas de linho, três oitavas.
Por um par de meias de seda, oito oitavas.
Por um par de sapatos de cordovão, cinco oitavas.
Por um chapéu fino de castro, doze oitavas.
Por um ordinário, seis oitavas.
Por uma carapuça de seda, quatro ou cinco oitavas.
Por uma carapuça de pano forrada de seda, cinco oitavas.
Por uma caixa de tartaruga para tabaco, seis oitavas.
Por uma caixa de prata de relevo para tabaco, se tem oito oitavas de prata, dão dez ou doze, de ouro, conforme o feitio dela.
Por uma espingarda sem prata, dezasseis oitavas.
Por uma espingarda bem feita e prateada, cento e vinte oitavas.
Por uma pistola ordinária, dez oitavas.
Por uma pistola prateada, quarenta oitavas.
Por uma faca de ponta com cabo curioso, seis oitavas.
Por um canivete, duas oitavas.
Por uma tesoura, duas oitavas.

E toda a bugiaria que vem de França e de outras partes, vende-se conforme o desejo que mostram ter dela os compradores.

Preços dos escravos e das cavalgaduras

Por um negro bem feito, valente e ladino, trezentas oitavas.
Por um molecão, duzentas e cinqüenta oitavas.
Por um moleque, cento e vinte oitavas.
Por um crioulo bom oficial, quinhentas oitavas.
Por um mulato de partes, ou oficial, quinhentas oitavas.
Por um bom trombeteiro, quinhentas oitavas.
Por uma mulata de partes, seiscentas e mais oitavas.
Por uma negra ladina cozinheira, trezentas e cinqüenta oitavas.
Por um cavalo sendeiro, cem oitavas.
Por um cavalo andador, duas libras de ouro.

E estes preços, tão altos e tão correntes nas minas, foram causa de subirem os preços de todas as cousas, como se experimenta nos portos das cidades e vilas do Brasil, e de ficarem desfornecidos muitos engenhos de açúcar das peças necessárias e de padecerem os moradores grande carestia de mantimentos, por se levarem quase todos aonde vendidos hão de dar maior lucro.

. . . . .

CAPÍTULO X

Roteiro do caminho da vila de São Paulo para as minas gerais e para o rio das Velhas.

GASTAM COMUMENTE OS PAULISTAS, desde a vila de São Paulo até as minas gerais dos Cataguás, pelo menos dous meses, porque não marcham de sol a sol, mas até o meio-dia, e quando muito até uma ou duas horas da tarde, assim para se arrancharem, como para terem tempo de descansar e de buscar alguma caça ou peixe, aonde o há, mel de pau e outro qualquer mantimento. E, desta sorte, aturam com tão grande trabalho.
O roteiro do seu caminho, desde a vila de São Paulo até a serra de Itatiaia, aonde se divide em dous, um para as minas do Caeté ou ribeirão de Nossa Senhora do Carmo (na atual cidade de Mariana) e do Ouro Preto e outro para as minas do rio das Velhas, é o seguinte, em que se apontam os pousos e paragens do dito caminho, com as distâncias que tem e os dias que pouco mais ou menos se gastam de uma estalagem para outra, em que os mineiros pousam e, se é necessário, descanso e se refazem do que hão mister e hoje se acha em tais paragens.
No primeiro dia, saindo da vila de São Paulo, vão ordinariamente a pousar em Nossa Senhora da Penha, por ser (como eles dizem) o primeiro arranco de casa, e não são mais que duas léguas.
Daí, vão à aldeia de Itaquequecetuba, caminho de um dia.
Gastam, da dita aldeia, até a vila de Moji, dous dias.
De Moji vão às Laranjeiras, caminhando quatro ou cinco dias até o jantar.
Das Laranjeiras até a vila de Jacareí, um dia, até as três horas.
De Jacareí até a vila de Taubaté, dous dias até o jantar.
De Taubaté a Pindamonhagaba, freguesia de Nossa Senhora da Conceição, dia e meio.
De Pindamonhagaba até a vila de Guaratinguetá, cinco ou seis dias até o jantar.
De Guaratinguetá até o porto de Guaipacaré, aonde ficam as roças de Bento Rodrigues, dous dias até o jantar.
Destas roças até o pé da serra afamada de Amantiqueira, pelas cinco serras muito altas, que parecem os primeiros muros que o ouro tem no caminho para que não cheguem lá os mineiros, gastam-se três dias até o jantar.
Daqui começam a passar o ribeiro que chamam Passavinte, porque vinte vezes se passa e se sobe às serras sobreditas, para passar as quais se descarregam as cavalgaduras, pelos grandes riscos dos despenhadeiros que se encontram, e assim gastam dous dias em passar com grande dificuldade estas serras, e daí se descobrem muitas e aprazíveis árvores de pinhões, que a seu tempo dão abundância deles para o sustento dos mineiros, como também porcos monteses, araras e papagaios.
Logo, passando outro ribeiro, que chamam Passatrinta, porque trinta e mais vezes se passa, se vai aos Pinheirinhos, lugar assim chamado por ser o princípio deles; e aqui há roças de milho, abóboras e feijão, que são as lavouras feitas pelos descobridores das minas e por outros, que por aí querem voltar. E só disto constam aquelas e outras roças nos caminhos e paragens das minas, e, quando muito, têm de mais algumas batatas. Porém. Em algumas delas, hoje acha-se criação de porcos domésticos, galinhas e frangões, que vendem por alto preço aos passageiros, levantando-o tanto mais quanto é maior a necessidade dos que passam. E daí vem o dizerem que todo o que passou a serra da Amantiqueira aí deixou dependurada ou sepultada a consciência.
Dos Pinheirinhos se vai à estalagem do Rio Verde, em oito dias, pouco mais ou menos, até o jantar, e esta estalagem tem muitas roças e vendas de cousas comestíveis, sem lhes faltar o regalo de doces.
Daí, caminhando três ou quatro dias, pouco mais ou menos, até o jantar, se vai na afamada Boa Vista, a quem bem se deu este nome, pelo que se descobre daquele monte, que parece um mundo novo, muito alegre: tudo campo bem estendido e todo regado de ribeirões, uns maiores que outros, e todos com seu mato, que vai fazendo sombra, com muito palmito que se come e mel de pau, medicinal e gostoso.
Tem este campo seus altos e baixos, porém moderados, e por ele se caminha com alegria, porque têm os olhos que ver e contemplar na prospectiva do monte Caxambu, que se levanta às nuvens com admirável altura.
Da Boa Vista se vai à estalagem chamada Ubaí, aonde também há roças, e serão oito dias de caminho moderado até o jantar.
De Ubaí, em três ou quatro dias, vão ao Ingaí.
Do Ingaí, em quatro ou cinco dias, se vai ao Rio Grande, o qual, quando está cheio, causa medo pela violência com que corre, mas tem muito peixe e porto com canoas e quem quer passar paga três vinténs e tem também perto suas roças.
Do Rio Grande se vai em cinco ou seis dias ao rio das Mortes, assim chamado pelas que nele se fizeram, e esta é a principal estalagem aonde os passageiros se refazem, por chegarem já muito faltos de mantimentos. E, neste rio, e nos ribeiros e córregos que nele dão, há muito ouro e muito se tem tirado e tira, e o lugar é muito alegre e capaz de se fazer nele morada estável, se não fosse tão longe do mar.
Desta estalagem vão em seis ou oito dias às plantas de Garcia Rodrigues.
E daqui, em dous dias, chegam à serra de Itatiaia.
Desta serra seguem-se dous caminhos: um, que vai dar nas minas gerais do ribeirão de Nossa Senhora do Carmo e do Ouro Preto, e outro, que vai dar nas minas do rio das Velhas, cada um deles de seis dias de viagem. E desta serra também começam as roçarias de milho e feijão, a perder de vista, donde se provêem os que assistem e lavram nas minas.

CAPÍTULO XI

Roteiro do caminho velho da cidade do Rio de Janeiro para as minas gerais dos Cataguás e do rio das Velhas.

EM MENOS DE TRINTA DIAS, marchando de sol a sol, podem chegar os que partem da cidade do Rio de Janeiro às minas gerais, porém raras vezes sucede poderem seguir esta marcha, por ser o caminho mais áspero que o dos paulistas. E, por relação de quem andou por ele em companhia do governador Artur de Sá, é o seguinte. Partindo aos 23 de agosto da cidade do Rio de Janeiro foram a Parati. De Parati a Taubaté. De Taubaté a Pindamonhangaba. De Pindamonhangaba a Guaratinguetá. De Guaratinguetá às roças de Garcia Rodrigues. Destas roças ao Ribeirão. E do Ribeirão, com oito dias mais de sol a sol, chegaram ao rio das Velhas aos 29 de novembro, havendo parado no caminho oito dias em Parati, dezoito em Taubaté, dous em Guaratinguetá, dous nas roças de Garcia Rodrigues e vinte e seis no Ribeirão, que por todos são cinqüenta e seis dias. E, tirando estes de noventa e nove, que se contam desde 23 de agosto até 29 de novembro, vieram a gastar neste caminho não mais que quarenta e três dias.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.