Domingos Abrahão

Autoria: João do Rio Verde.
Publicado na Folha Nova, nº 1.339,
em 23 de Agosto de 1942.

Fez, anteontem, 28 anos que uma impressionante e dolorosa ocorrência arrebatou de modo trágico a vida de um cidadão digno e profundamente estimado na nossa terra, onde residia há longos anos, tendo construído aqui no Carmo um lar feliz.
Relembrar este triste acidente que encheu da mais sentida consternação o povo carmelitano é, também, recordar uma existência toda ela devotada ao trabalho e ao amor, iluminada pelos mais belos atos de renúncia e dedicação à família e à sociedade.
Domingos Abrahão foi a vítima desventurada do desastre fatal. Na manhã de 21 de Agosto do ano de 1914, após ter feito uma visita à família do seu velho amigo e compatriota Miguel Altomare, percorria Domingos Abrahão um trecho da estrada de ferro, quando, nos fundos da Chácara, na curva próxima do pontilhão, foi surpreendido por apitos estridentes e prolongados da locomotiva do expresso, vindo de Soledade.
Ficou ele tão desorientado que, em vez de afastar-se do leito da linha, começou a correr em zigue-zague, sendo, então, apanhado pelo limpa trilhos e atirado violentamente de encontro ao corte, vindo a falecer no próprio local.
Era ele um desses italianos de alma grande e coração franco, sentimentos tão peculiares aos filhos da formosa península.
Domingos Abrahão nasceu a 26 de Fevereiro de 1847, na risonha província de Salerno, nas proximidades da lendária cidade de Nápoles, em cujo porto embarcou para o Brasil em companhia do pai, quando contava apenas 11 anos de idade.
Foi um homem bom e digno da estima com que sempre o cercou o povo do Carmo do Rio Verde. O cumprimento da palavra empenhada era para ele uma espécie de dogma, pois nada o fazia retroceder.
Para Domingos Abrahão a suprema felicidade consistia em passar horas tranquilas no seio do lar, ao lado da esposa carinhosa e dos filhos queridos, dispensando o mesmo afeto aos dois enteados: Pedro e Toniquinho.
Era um homem dinâmico, não recuando ante o trabalho. Foi negociante, fotógrafo e, nas horas vagas, por ocasião de festas religiosas, exercia ainda, desinteressadamente, o cargo de leiloeiro, concorrendo, com seus pregões alegres e jocosos, para relevante acréscimo nas rendas.
A sua vida foi sempre trilhada por claros e belos caminhos, razão porque viveu no coração do bom povo carmelitano. Morto, deixou aos filhos uma grande e inesgotável fortuna: o seu passado de homem honrado.
Eu o vejo nesta hora com os olhos do pensamento, através de uma sincera saudade e presto-lhe esta homenagem espontânea e justa, pois o seu querido nome continua presente na recordação sincera do povo de nossa terra.
A sua honrada companheira, Dª Ida Abrahão, essa senhora de virtudes peregrinas, a qual tem sempre um sorriso de bondade iluminando a sua fisionomia, marejam-se-lhe, entretanto, lágrimas em profusão nos olhos, quando ela, saudosa dos dias ditosos que já se foram, evoca no coração a lembrança do inesquecível e venerado esposo.
E foi nessa remota manhã de Agosto, há precisamente 28 anos, que o nosso torrão natal perdeu, de maneira tão trágica, esse dedicado filho adotivo, cujo coração se achava sempre aberto à mais sublime bondade, a que não aspira recompensas.

João do Rio Verde
Agosto de 1942

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