Domingos Teodoro

Autoria: João do Rio Verde.
Publicado na Folha Nova, nº 1.296,
em 12 de Outubro de 1941.

Muitas vezes, com o pensamento imerso em profunda saudade, numa sequência de doces recordações dos tempos idos da longínqua infância, desfilam pela minha mente meigas fisionomias iluminadas por um sorriso de amor ou de bondade, as quais gravaram na retina da minha alma juvenil estas páginas do querido Carmo de Outrora, procurando, então, rememorá-las nestas singelas crônicas, transmitindo, assim, as minhas impressões de antanho aos numerosos leitores da festejada “Folha Nova”.
Trago hoje à imaginação e presto uma merecida e sincera homenagem àquele que, em vida, se chamou Domingos Teodoro Ribeiro Junqueira.
Proprietário da conhecida e importante fazenda agrícola deste município, denominada “Criminosos”, passava ele, porém, grande parte do ano no arraial do Carmo do Rio Verde, na sua confortável vivenda situada à rua Direita.
Quem, com a visão da saudade, evocar a nossa terra de quarenta anos passados, reviverá a dulcíssima alegria reinante naquele lar bafejado pelo sopro da felicidade e onde pontificava tão digno chefe, homem bom e honestíssimo, verdadeiro espelho onde se miravam os demais membros da distinta e estimada família Junqueira do nosso Carmo do Rio Verde.
Há tempos, dos lábios de um homem simples da roça, ouvi o seguinte julgamento a respeito do saudoso Domingos Teodoro: “Aquele é que foi um fazendeiro bom, pois para os pobres e para os vizinhos as suas culturas não tinham porteiras”. Valho-me das próprias palavras pronunciadas em linguagem tosca por um “groteiro”, a fim de manifestar um conceito de que gozava o pranteado carmelitano.
Em seguida, o meu modesto entrevistado narrou-me uma série de fatos, todos eles norteados por lances de bondade e de justiça, inspirados por um verdadeiro espírito do mais elevado altruísmo, os quais demonstram a grandeza de coração de Domingos Teodoro.
Já um notável escritor sertanista, ao desvendar episódios que observara nos sertões brasileiros, afirmou que é na alma ingênua do povo da gleba, onde se encontra, frequentemente, a voz sincera da verdade.
Guardei durante largos anos os conceitos emitidos pelo humilde vizinho da fazenda Criminosos, para hoje externa-los, tributando uma justa homenagem à memória de Domingos Teodoro.
Faleceu a 19 de Setembro de 1914, confortado com os sacramentos da religião católica, religião que ele sempre cultivou desveladamente durante a existência.
Vós, Dª Helena Junqueira, que com o vosso coração angustiado de cruciantes reminiscências, viveis ainda nessa mesma casa, onde outrora se achava ao vosso lado tão digno companheiro e perfeito cidadão, recebei estas humílimas e singelas páginas, como se elas fossem pétalas de saudades, desfolhadas pelo povo da minha terra sobre o mármore frio que, lá no alto, no campo santo, guarda as cinzas do vosso estremecido e inesquecível esposo.

João do Rio Verde
Outubro de 1941

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