Dr. José Paulino Ribeiro Gorgulho

Autoria: Américo Pena.
Publicado na Folha Nova, nº 17,
em 17 de maio de 1914.

Dr. José Paulino Ribeiro Gorgulho
Dr. José Paulino Ribeiro Gorgulho

Eis que o velho Carmo, de chofre, sem a menor previsão, na noite fatal do domingo transacto, é privado de um de seus mais caros filhos, de um de seus mais belos ornamentos, de um de seus mais lúcidos espíritos, assistindo ao passamento do ilustre clínico cujo nome serve de epígrafe a essas lutuosas linhas.
Quem, três dias antes de baixar à tumba o nosso pranteado médico, pôde vê-lo acudindo, solicito, os seus doentes, tão cheio de vigor e saúde com os seus cinquenta e poucos anos, promissores de dezenas mais, pareceu sonhar ouvindo tangerem os sinos funebremente para o seu funeral.
A Parca tem dessas traições cruéis.
E como é cega, às vezes, na sua triste faina de decepar vidas. Não viu ela que era, o nosso caro extinto, um chefe de numerosa prole, que tanto carecia, ainda, de seus zelos de pai. Não compreendeu que era ele o médico sábio e caridoso, que corria não somente às habitações fidalgas, mas também ao miserável tugurio do pobre, para, com seu profundo saber médico e a sua dedicação extrema, arrancar da borda da cova entes quase moribundos. Não reconheceu que era ele um dos fortes esteios que sustentavam o nome geralmente acatado de nossa terra, emprestando-lhe o seu precioso concursonos grandes cometimentos.
É cega a terrível Parca. Não, não é cega: é vingativa. Matando-o tão cedo e traiçoeiramente, vinga-se daquele que lhe arrebatara das garras tantas e tantas vítimas. Matando-o, vinga-se de um esforçado inimigo, inimigo que inúmeras vezes a levara de vencida, na rude peleja da vida contra a morte.
Sim, o bisturi do cirurgião venceu muitas vezes a machadinha da Morte; a auscultação do médico desvendou, muitas vezes, a estratégia sinistra da traidora inimiga; a pena do cientista traçou, muitas vezes, planos invencíveis de combate.
Tinha razão a Parca em ser-lhe cruel: era um inimigo – não o poupou.
Mas, não viu também ela que, ferindo-o, ia entregar uma pobre senhora à mais profunda dor; ia deixar tantos filhos em soluços e lágrimas; ia roubar, a uma sociedade, um de seus mais preciosos ornamentos; ia arrebatar a seus amigos um grande amigo.
Deus, porém, nos seus altos desígnios bem sabe o que faz; e resigna-se a família enlutada, resigna-se o Carmo e resignam-se todos, que o grande morto foi levado para Ele, a quem abraçou quando exalou o último suspiro.

No Cemitério

À beira do túmulo, o nosso distinto companheiro de redação, Dr. Julio Gorgulho Nogueira, recitou belíssima poesia, que vai transcrita mais abaixo, e o talentoso e ilustre Cel. Jerônimo Guedes Fernandes pronunciou um tocante discurso, do qual destacamos o seguinte trecho:
“Cena pugentíssima o terrível desenlace.
Lágrimas, soluços, ais, gritos de angústia da amorosa esposa, dos caros filhos, dos parentes e dos amigos, numa orquestra sentimental de desesperação e de dores.
Matou-o a rapidez e a violência inesperada de insidiosa enfermidade.
Agonizava o inditoso amigo e, lento e lento, se aproximava o instante fatal da longa viagem. Agonizava…
E sua alma boa, caritativa, bem formada, ia-se evolando à mansão dos justos, enquanto que a lua, nessa noite triste, a branca hóstia de luz, contemplava, serena e calma, a mágoa indizível daquela família em lágrimas, deslizando pela curva graciosa de um firmamento límpido, tranquilo e azul.
E assim tombou o Dr. José Paulino Ribeiro Gorgulho, o inesquecido e sempre admirado carmense, indo em busca dessas paragens insondáveis do Além.
Pai extremoso, modelar chefe de família, de uma moralidade evangélica, o pranteado extinto teve a ventura celestial de descansar a fronte no peito carinhoso e maternal da Igreja Católica, levando para essa grande jornada o escudo forte da fé e da prece, para a augusta cruzada da Eternidade.
Descansai em paz, chorado morto, na estreiteza de vosso frio leito, aqui neste Campo Santo, onde tantos corações se desfizeram já e onde tantos filhos do Carmo convosco dormem o seu sono derradeiro.
É bem que vos diga, com o velho Hugo: Os mortos são invisíveis, mas não estão ausentes.
Vivereis, assim, na memória de todos, nas vossas virtudes, na vossa moral, nos reflexos da vossa alma peregrina, na nobreza do vosso coração, nas lágrimas da querida esposa, nas saudades dos amados filhos, nas recordações dos dedicados amigos, nas efemérides e na história do vosso idolatrado Carmo.
Sobre o vosso modesto túmulo, nesta hora angustiosa da separação, eu deponho os meus sentimentos de pesar, ornamentando esse ádito santo com muitos punhados de flores, de goivos e de semprevivas.
Que Deus, o bom Deus, vos receba nos vastos domínios dessa primavera eterna, no seu reino de delícias e que fiquem convosco os preludios da consternação, do luto e da mágoa de todos quantos aqui vieram render-vos esta última e merecida homenagem.
Descanse em paz e adeus…”

Nenia

Ao pranteado primo Dr. José Paulino Ribeiro Gorgulho

As lágrimas que verte a nossa terra agora,
São lágrimas de mãe que um filho amado chora,
Um filho que perdeu. Que dor, que funda mágoa
Essa, pois, que lhe torna os olhos rasos d’água!
Uma tumba fechada, um vácuo enorme aberto,
Um santo homem que morre, um lar de pai deserto:
Eis o golpe fatal que lhe golpeia a alma,
Enchendo-a de amargor, fustigando-lhe a calma!

Chorai, chorai, chorai, ó vale, ó rio, ó prado…
Chorai, chorai, ó Carmo, o nosso bom finado.

Quanto pobre não chora o grande amigo morto,
Esse que muita vez o arrebatou do porto
Onde funérea nau, cedo ou tarde, nos toma
Para o fatal transporte ao Além, que nos doma!
E nada recebia o grande morto amigo.
Pobrezinhos, chorai! Prantos vertei comigo
Por quem restituiu ao nosso pai amado,
À cara esposa nossa, ou ao filho adorado,
A golpes de ciência e de dedicação,
A vida, que era já indeciso clarão.

Julio Gorgulho Nogueira

Manifestações de Pesar

A Escola Normal e o Colégio São Luiz, em sinal de pesar, suspenderam as suas aulas no dia onze.
O Grupo Escolar também suspendeu suas aulas.
O Clube Literário, por determinação de seu presidente, cerrou suas portas por três dias.
Logo que a notícia do falecimento circulou pela vila, o pesar manifestou-se em todos os habitantes e a casa mortuária ficou repleta de amigos da falecido, que ali foram levar à família as suas condolências.
O Cônego Antonio Nogueira, virtuoso vigário da Paróquia, acompanhou o corpo do inditoso Dr. José Gorgulho, da casa de residência do morto até o cemitério, precedido da irmandade.
O cortejo fúnebre teve lugar às quatro horas da tarde. Notamos, entre outras pessoas cujos nomes nos escaparam, os seguintes senhores:
Antonio Gabriel Ribeiro Junqueira, representando o Diretório Político;
Joaquim Ribeiro Junqueira, Francisco Isidoro e Antonio Coli Filho pela Câmara Municipal;
O Colégio São Luiz, representado por uma turma de alunos e pelos srs. Dr. Bigler e Julio Amaral;
A Escola Normal, pelo seu diretor, Jerônimo Guedes Fernandes, e seu secretário, Jorge Alberto Pereira;
O Grupo Escolar, pelo seu diretor, Manoel Jacinto Ferreira de Brito;
A Folha Nova, pelo seu diretor, Américo Pena;
E os senhores Joaquim Tiburcio Junqueira, Domingos Teodoro Junqueira, Augusto Junqueira, Plínio Motta, José Pinto da Fonseca, Domingos Ribeiro Franqueira, Arlindo Santoro, Mario Ribeiro Franqueira, Domingos Gomes Franqueira, João Lourenço Noronha, Omar Franqueira, Custódio Ferraz, Olímpio Dias Ferraz, Francisco Altomare, Joaquim Cazuza, Vicente Grandinetti, Olímpio Bernardes, José Luiz de Freitas, Anselmo de Andrade, Eugênio Rubião, Luiz Noronha, Antonio Nogueira, Alvaro Franqueira, Adeodato Pereira, Fausto Carneiro, Francisco Campos, Argentino Junqueira, Reinaldo de Almeida, João Batista Agostinho, Gabriel Ferrer, Dr. Sizenando de Freitas, João de Moura, Carlos Gomes Nogueira, Carmo Pricolli, Joaquim Tito Ribeiro de Carvalho, Adolfo Noronha, Astolfo Proença, Silvio de Almeida, Carlos Severiano Nogueira, Fernando Atalécio, Arthur Carneiro, José Pinto Garcia, Cândido Pereira de Castro, Alfredo Alves Pereira, Frauzino Cândido Pereira, Joaquim Paulino Junqueira, Nestor Ferrer, Dr. Carlos Azevedo, Bernardo Ferreira, José Junqueira, Joaquim Ribeiro de Carvalho Junior, Custódio Junqueira, Manoel Pinto, Miguel Mohalem, José Bastos, Dr. José Gorgulho Nogueira, Ovídio de Paula Garcia, Joaquim Alves de Castro, Bras Lomônaco, Mausolino Carvalho, Manoel José Ribeiro de Carvalho, Francisco Pereira Neto, Manoel Carneiro de Paiva, Manoel Pereira Penha, Fernando Moreira, Francisco Olinto, Alcídio Porto, Francisco Braga, Antonio Leite, Joaquim Branco, Aristides Andrade, Carlos Carneiro, Francisco Bacelar, Sebastião Pereira, Isidro Pereira, Gabriel Dias de Castro, Alberto Pereira, Virgílio Pereira, Francisco Dias de Castro, Aurelio Dias de Castro, Jonas Jardim, Rosalino Guimarães, João Crisóstomo, Pedro Campos, Matiniano Camilo, Antonio Abrahão, Leopoldo Vieira, Domingos Osvaldo Nogueira, Rafael Filardi, Pedro Lomônaco, Francisco Fortunato, José de Oliveira Martins, Manoel Candido Ribeiro, Luciano Ferrer, João B. Ferrer, Luiz Ferrer Rubião, Américo Pena Filho, Alfredo Bernardes, Genaro Junho, Gorgulino Garcia, Pascoal Flora, Vicente Guerra, José Ribeiro da Silveira, Olívio da Silveira, Rubens Sabino, Azarias Chaib, Francisco Messias de Andrade, Manoel J. Carneiro Filho, Carmelino Alves, Benjamin Lima, Martiniano José de Souza, Cassiano Araujo e Joaquim Jardim.

Mausoléu

Túmulo Dr. Zeca em 2013
Túmulo Dr. Zeca em 2013
Na mesma tarde do enterramento foi, por iniciativa do Dr. Sizenando de Freitas, aberta uma lista entre amigos do finado, para a construção de um mausoléu que perpetue a saudosa lembrança do ilustre extinto.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.