Dr. Zeca ( José Paulino Ribeiro Gorgulho )

Autoria: João do Rio Verde.
Publicado na Folha Nova, nº 1.285,
em 13 de Julho de 1941.

Fez vinte e sete anos no dia dez do mês de Maio que a morte, tirânica e inexorável, arrebatou do nosso convívio um filho dileto dessa terra, cuja vida foi a de um apóstolo do Bem, merecendo o seu nome ser conhecido e abençoado pela nova geração silvestrense.
O Dr. José Paulino Ribeiro Gorgulho (Dr. Zeca ou Dr. Zequinha, como era chamado pelos carmelitanos) não foi somente um clínico notável, mas um verdadeiro sacerdote da ciência, sendo sempre a sua palavra ouvida e acatada por todos os seus colegas das localidades vizinhas, os quais solicitavam a sua valiosa opinião, quando se lhes deparava um caso raro e di9fícil de oferecer diagnóstico.
Foi ele a personificação viva da caridade, pois jamais exigia qualquer remuneração dos enfermos desprotegidos da fortuna.
O mesmo carinho com que atendia ao chamado do rico, era por ele dispensado ao humilde diarista que, muita vez, se achava deitado sobre uma velha esteira, em um tosco casebre à beira da estrada.
Ante a cabeceira do doente, o Dr. Zeca nivelava todos os seres humanos.
Cirurgião de valor, há trinta e cinco anos passados já aplicava certo método em determinadas operações, o qual só agora eminentes profissionais de fama mundial consagraram como único sistema para um resultado eficaz e de cura rápida.
Inteligente e estudioso, passava, diariamente, longas horas no seu consultório, na dependência térrea da sua residência no largo da matriz, lendo revistas médicas e consultando livros de clínica recentemente publicados, acompanhando, assim, a evolução em geral da medicina.
À tarde, após a visita aos seus doentes, o Dr. Zeca fazia,impreterivelmente, um passeio pela linha férrea até o fim da reta, regressando, à hora do crepúsculo, para o recesso da família.
Entusiasta da instrução, sempre esteve ao lado do Cel. Fernandes, ocupando o cargo de inspetor do Governo junto ao Ginásio São José.
O Dr. Zeca gozava de excelente saúde e era metódico em todos os seus atos, seguindo rigorosos preceitos preventivos para conservar a invejável robustez.
Enfermando, porém, de súbito, conheceu perfeitamente a gravidade do mal de que fora acometido; procurou, então, confortar a sua dedicada esposa e, ao mesmo tempo, revelou à família desolada a incurabilidade da moléstia, chegando ao caso raro de prever o dia e a hora do tristíssimo desenlace.
Filho de uma piedosíssima senhora (‘Sia’ Maria Clara foi uma verdadeira iluminada do amor divino) o Dr. Zeca tinha que exalar o derradeiro suspiro no seio da maravilhosa religião católica.
E, depois de receber todos os sacramentos ministrados aos moribundos, resignado, como um justo, no alvorecer do dia 10 de maio de 1914, deixou de existir esse inesquecível benfeitor da nossa estremecida terra natalícia.

João do Rio Verde
Julho de 1941

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