Elogio aos que envelhecem

Autoria: Helena Junqueira Loureiro.
Publicado na Folha Nova, nº 93,
em 21 de novambro de 1915.

Ao meu querido tio
Francisco Ribeiro Junqueira

Não sei, não posso compreender por que razão a velhice te causa tanto horror!
Não achas poesia nos cabelos brancos? E não achas belo o sorriso dos velhos?
Pois eu confesso que jamais vi sorrir um velho que não me sentisse comovida até o âmago de minha alma. É tão tocante o sorrir dos velhos…
Quando um velho sorri, parece-me contemplar uma rosa fenada, que não deixou de ser linda.
O velho sorri às nobres ações, e esse sorriso é tão doce que nos enternece; tem sorrisos de indulgência para as fraquezas humanas, e esse sorriso é tão bondoso que purifica; e sorrisos de piedade para todas as misérias, e esses sorrisos são tão elevados que animam.
Dizes que nem sempre o longo caminhar pela existência leva à perfeição.
-Sim, concordo. Mas concorda tu, também, que é dificílima a senda que vai ter à perfeição. E perdoa as asperezas da velhice. Lembra-te de quantas ilusões desfeitas, de quantas esperanças perdidas, de quantos ideais esfacelados e de quantas ingratidões viram-se feridos os corações que jazem em peitos encanecidos. Os dissabores amargam o coração e o tornam ríspido: façamos que se torne doce essa amargura e tenhamos uma carícia para cada lamento da velhice.
Os velhos, sempre, são simples e bondosos, ainda que algumas vezes rudes; reconhecem que as grandezas da vida são transitórias como a própria vida, sentem a morte aproximar-se e curvam-se perante Aquele que a envia.
Nunca notastes como os velhos são atraídos pelas crianças? É que eles, cansados das perfídias dos homens, sentem-se impelidos para a sinceridade e para a candura da inocência.
Censuras a mania dos velhos de contarem sempre as mesmas pilhérias da extinta juventude; não achas isso natural? As recordações gratas não nos cabem no peito, por isso, a cada momento, deixamo-las expandirem-se, enquanto procuramos sufocar as dores que nos assaltam a alma.
Os que ainda não alcançaram o cimo do viver sempre encontram novas alegrias, novas distrações e sonhos novos; podem, portanto, manifestar idéias várias. Mas os velhos, aqueles que já percorreram a estrada da existência e só tratam do regresso, já não podem anhelar fantasias.
Contentam-se, então, em rememorar o passado, comprazendo-se em relatar os acontecimentos da longínqua mocidade.
Ouçamo-los com afeto, tributemo-lhes a nossa veneração e o nosso respeito. Eles já tiveram tempo de observar muitos fatos e jamais recusam a dar um bom conselho.
Acatemos a velhice e aproveitemo-nos de sua experiência e sabedoria.

Helena Junqueira Loureiro
Silvestre Ferraz, Novembro de 1915

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