Em memória de Américo Pena

Autoria: João do Rio Verde
Publicado na Folha Nova, nº 1.273,
em 20 de Abril de 1941

Encantadora e poética manhã de Domingo, do mês de Maio de 1911.
O padre Antonio, virtuoso e venerado vigário da paróquia de Nossa Senhora do Carmo do Rio Verde, acaba de celebrar a missa das oito. Formam-se, como de costume, agrupamentos de pessoas nas proximidades da matriz.
Nesse dia, a que ora me reporto saudoso, era assunto obrigatório, nas palestras, no adro da igreja, a estréia, na véspera, de uma pequena companhia dramática, vinda de Tres Corações.
Um homem ainda moço, de basta cabeleira negra e olhos penetrantes, arrancara aplausos prolongados da platéia, no papel de “Padre Oscar”, no drama “Deus e a Natureza”. Todos estavam ansiosos por saber o nome do grande ator, como jamais igual aportara à nossa pequenina terra.
Eis quando alguém que se achava no local, onde outrora, nos tempos do arraial, havia uma ramalhuda casuarina, tira do bolso do casaco um programa e, pausadamente, lê: Américo Pena. Os componentes dos demais grupos aproximam-se e alguns repetem o nome do festejado discípulo de Talma.
Sucedem-se os espetáculos e cresciam os aplausos ao consagrado artista, recebendo ele, nos momentos mais emotivos, delirantes e intermináveis salvas de palmas.
Por ocasião da partida da Companhia para Itajubá, Américo Pena já vivia na admiração do povo carmelitano e, em uma noitada alegre, depois do último espetáculo, os moços convidaram-no para ficar residindo em nossa terra.
O saudoso Pena, com aquele seu temperamento folgazão e comunicativo, respondeu aos rapazes: – Como é para bem de vocês todos e para minha felicidade pessoal, eu fico. (O Zeca Morais, por ocasião do funeral do estimado jornalista, com os olhos marejados de lágrimas, rememorou esse interessante episódio).
A Companhia desde essa noite perdera o seu principal elemento e a nossa terra ganhara mais um digno e talentoso filho adotivo.
Américo Pena dirigiu por algum tempo um grupo de amadores da ribalta e, a 1º de Janeiro de 1914, fundou a “Folha Nova”.
Seu jornal tornou-se conhecido e apreciadíssimo, prestando relevantes serviços ao Município, ao Estado e ao País.
Américo Pena sustentou pelas suas colunas, durante um quarto de século, memoráveis campanhas políticas, norteando-as sempre por um espírito independente e por uma vontade inquebrantável.
É certo que, por vezes, divergi da sua orientação política, porém sempre reconheci e proclamei a integridade do seu caráter e a sinceridade das suas convicções.
A 8 de Junho, ainda de 1914, contraiu segundas núpcias com distinta jovem silvestrense, encontrando uma esposa dedicada e carinhosa que soube suavizar-lhe os últimos anos de existência, combalidos pela moléstia cardíaca.
Fernando Pena colocou como ponto de honra a continuação da esplêndida obra criada por seu pai: a “Folha Nova”.
E, com a simpatia e o apoio dos amigos do saudoso morto, eis a “Folha Nova” ininterrupta e galhardamente prosseguindo, sem intervalos, na sua fecunda jornada nas lides do pensamento.
Américo Pena possuia um coração boníssimo e sabia conquistar amigos devotados, abrindo, com a sua morte, um vácuo impreenchível nos nossos meios sociais.
Evocando, hoje, a memória desse valoroso e culto lutador na arena da imprensa, rendo-lhe aqui, nestas singelas linhas, em êxtases de admiração, as homenagens da minha saudade.

João do Rio Verde
Abril de 1941

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