Fazenda das Tres Barras – Município de Carmo de Minas

Nova sedeA casa atual da Fazenda Três Barras é modernista, mas apresentamos neste levantamento a casa construída em 1864 e demolida em 1968, cujo levantamento foi baseado em fotos e plantas antigas, fornecida pelo dono da fazenda, Walter Ribeiro Junqueira, e por levantamento de suas ruínas por nós realizado. Apesar de a casa não mais existir, esta foi uma fazenda-tronco, e por isso a inserimos neste levantamento. Essa casa que apresentamos não foi a primeira da fazenda, antes dela houve duas outras.

“Pelos relatos antigos, após a Sesmaria das Três Barras ter sido comprada, em 1811, por Custódio Ribeiro Pereira Guimarães, o “Velho da Chapada”, e este ter adquirido também a Sesmaria do Palmital, parece-me que esta foi incorporada às Três Barras por algum tempo. Unidas, estas duas fazendas somavam, aproximadamente, a respeitável área de 12.000 hectares, uma vez que as Três Barras tinham cerca de 9.000 ha e o Palmital se aproximava dos 3.000 ha. Esta união deve ter durado até a época em que Custódio Ribeiro Pereira Guimarães entregou aos seus filhos as terras adquiridas em Carmo de Minas.
Joaquim Ribeiro de Carvalho ficou com a parte central das Três Barras, Antônio José Ribeiro de Carvalho ficou com o Condado, e Manoel José Ribeiro de Carvalho ficou com o Palmital. Sentindo-se limitado com as Três Barras de então, Joaquim vendeu-a à seus irmãos, dirigindo-se para Santa Rita do Sapucaí, onde comprou a Fazenda do Sobradinho. Manoel José comprou um pedaço pequeno das Tres Barras, correspondente a uma parte do Córrego Fundo. Antônio José ficou com a quase totalidade da Fazenda das Três Barras. Esta, por algum tempo, se incorporou à fazenda do Condado, que anos antes dela se desmembrara.
Depois de ter sido comprada por Antonio José e incorporada à fazenda do Condado, as Três Barras passaram, por herança, ao seu filho Gabriel Ribeiro Junqueira. Foi ao tempo de Gabriel Ribeiro Junqueira que a Fazenda das Três Barras atingiu seu apogeu.
Da primitiva casa sede da fazenda, onde moraram seus primeiros donos, só resta um muro de pedras. A segunda casa sede não possuía grande tamanho e beleza. Foi rapidamente substituída pela terceira sede, da qual passamos a tratar.
FrenteEm 1864 Gabriel Ribeiro Junqueira tomou emprestado de seu avô, o “Velho do Campo Alegre”, Gabriel Francisco Junqueira (primeiro Barão de Alfenas), um escravo mestre em carpintaria. A obra durou treze meses. Querendo devolver o escravo o mais rápido possível, ergueu um casarão que classificou de simples e sem luxo.
Este tinha uma gigantesca cozinha, com um grande fogão a lenha de oito trempes, que ficava entre ampla copa e outra cozinha ainda maior, esta com dois fogões para doces, um grande forno a lenha e muito espaço de sobra ainda. Os cinco janelões das cozinhas e da copa possuíam fortes barras de sólida madeira.

ImplantaçãoIMPLANTAÇÃO

1. Casa Principal
2. Paiol
3. Retiro
4. Construções Complementares
5. Antiga Tulha
6. Terreiro



Em frente à casa, que tinha a forma de L, ficavam dois magníficos jardins. Saindo por espaçoso alpendre, descia-se à direita por uns degraus de pedra, chegando no que se convencionou chamar de “jardim velho”. Possuía este muitos canteiros floridos, entremeados por pequenas alamedas. Em seu centro ficava um repuxo circular com seus peixes coloridos. Os mais antigos garantiam ter sido este, nos seus áureos tempos, um magnífico jardim.
Continuando pelo alpendre e em linha reta, passando sob um caramanchão de madeira, atingia-se trabalhado portão de ferro que até hoje é conservado em uso. À esquerda deste e cercado por bonito muro de tijolos, cheio de pequenos torreões arredondados, ficava o denominado “jardim novo”.
Eram inúmeros canteiros de vários formatos, cheios de flores. Logo à entrada deste jardim havia outro repuxo, igual ao primeiro.
Pelo lado de trás da casa, dando para um espaçoso terreiro de café, todo ladrilhado de tijolos, existiam duas portas largas que davam acesso aos vastos porões. Eram mais de duzentos e sessenta e seis metros quadrados, repletos de utensílios antigos.
Fachada lateral com acesso à cozinhaDa porta da cozinha partiam duas pequenas escadas cimentadas, para os lados direito e esquerdo, sendo guarnecida em frente por um murete de tijolos.
Os passeios laterais da casa, assim como todos os seus sólidos alicerces, eram feitos de pedras muito bem assentadas.
Do lado fronteiro ao paiol de milho não existiam janelas. Ficavam aí a cozinha de doces e do grande forno, além da despensa grande. Mesmo assim, tinha este casarão vinte e nove janelas do mais puro cedro e de grande tamanho. Media ainda vinte e nove metros de frente por vinte metros de lado.

Fachada lateral com escada antiga
Base de pedras da fachada lateral
Detalhe da antiga escada
Detalhe da antiga escada

Sobre todas as muitas portas internas, sempre em folhas duplas, havia bandeiras de vidro, às vezes coloridos. Do lado de fora das janelas e portas externas, um bonito enfeite de madeira trabalhada, em forma de um cochinho com tampa.
Ainda colada ao muro de pedra do “jardim velho”, majestosa magnólia, doada pelo Coronel Jerônimo Guedes Fernandes, de Carmo de Minas, enfeitava todo o ambiente, atraindo, com os seus frutinhos, dezenas e às vezes até centenas dos mais lindos passarinhos.
Um grande pomar em forma de ferradura circundava o paiol, terreiros, garagens, tulha e galinheiros próximos à casa.
Cercando este imenso pomar foi construído um muro de arrimo feito de pedras . Sob o pé deste paredão corria, à direita, o Córrego da Boa Vista, e, à esquerda, o Córrego do Pouso Alegre. No fundo do pomar eles se juntavam, formando o Ribeirão do Carmo.
Cercando os currais, as varandas e estábulos, assim como toda a sede da fazenda, via-se os magníficos muros de pedras, como nunca vi iguais em nenhuma outra fazenda. Altos e largos, suas pedras disformes foram assentadas com soberba mestria. Foram todos construídos por pedreiros portugueses, os quais exerciam seu ofício nas mais importantes fazendas mineiras.”

A quem se interessar pela descrição completa da casa, recomendamos a leitura do livro “Fazendas e Famílias do Sul de Minas”, de Walter Ribeiro Junqueira. O que mais nos interessa nessa citação é que a casa foi feita por um mestre escravo vindo do Campo Alegre. Isso mostra que, assim como acontecia nas artes, na construção civil os mestres portugueses acabaram passando seus conhecimentos para ajudantes escravos, que depois se tornaram também mestres. Mostra também que a Campo Alegre foi uma importante fazenda-tronco que, além dos desmembramentos de suas próprias terras, exportou não só sua influência, mas também mão de obra qualificada para erguer fazendas em outra região.

Planta baixaA planta das Três Barras era um L clássico, diferente da maioria das fazendas do grupo de Cruzília. Seu corpo principal possuía as mesmas proporções clássicas, 3 x 4 mas as dimensões eram maiores; conforme foi comprovado pelas ruínas de pedra, media 14 x 20 metros. O mais comum, nessa região e também em Santa Rita do Sapucaí, era o corpo principal medir 13 x 17 metros. Entrava-se na casa por uma sala de distribuição.

3 comentários em “Fazenda das Tres Barras – Município de Carmo de Minas”

    1. Folha Nova

      Obrigado por sua visita, Lília. Infelizmente a casa sede da Fazenda das Três Barras já foi demolida há bastante tempo.

  1. José carlos Valentim

    Meu nome é José Carlos Valentim, filho de Maria Imaculada Valentim. Nesta Fazenda das Três Barras nasceu a minha irmã Maria Zélia, hoje residente em Carmo de Minas. Recordo-me de ter ido ao seu casamento, que foi nesta fazenda. Quantas recordações, meu Jesus. Minha mãe foi nascida e criada no Ribeiro, onde todos os fazendeiros eram seus parentes. O nome do meu avô era Manoel Gorgulho Junqueira. Navegando por esta página busquei as lembranças de minhas raízes familiares do ramo de minha saudosa mãe, que Deus a tenha.

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