Fazenda? Nem de graça!

Autoria de Zaidan Baracat.
Publicado na Folha Nova, nº 2567, em 30 de julho de 1969.

É algo masoquista certo produtor rural que me pergunta, sempre que me vê:
– Como é, quer me comprar a fazenda?
Sim, algo masoquista, porque minha resposta o fere fundo, e no entanto faz questão de ouvi-la:
– Fazenda? Nem de graça.
Sei que publicando tal resposta magoo duplamente os proprietários rurais: reduzo a nada um bem que lhes é caro não só materialmente, como também sentimentalmente. Mas é a verdade.
Se me oferecerem de graça uma fazenda, com a condição de não poder aliená-la, e mediante a imposição de explorá-la com número apropriado de empregados, agradecerei comovido, mas não aceitarei o presente. Aceitaria, sim, se fosse certo que a situação iria melhorar. Do jeito que está, não. Milênios de experiência comercial – tenho sangue fenício nas veias – me inspiram a resposta: – Não.
É melhor não ter a fazenda, do que tê-la e viver na aflitiva iminência de perdê-la.
É melhor não ter empregados, do que tê-los sem ter as condições mínimas de pagar-lhes tudo o que a lei exige se lhes pague.
É melhor não produzir, do que produzir, num desalento mortal, que o preço dos produtos não paga a despesa.
Hoje, muitos produtores rurais se mantém em pé pelos empréstimos conseguidos junto a bancos e particulares.
Quanto tempo de duração teria o produtor avesso a empréstimos e que cumprisse religiosamente todas as leis, tal como estão em vigor, confiscado como está o preço do café, limitado como está o preço do leite e descontrolado como está o preço dos demais produtos?
Três anos? É muito!
Dois?
Um?
Seis meses?…

Zaidan Baracat
Julho de 1969

1 comentário em “Fazenda? Nem de graça!”

  1. Luiz Fernando

    No entanto, o Zaidanzinho está lá tocando a fazenda rs. E de 69 pra cá, não mudou muita coisa não.

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