Flora do Lourenço

Autoria: João do Rio Verde.
Publicado na Folha Nova, nº 2.558,
em 20 de Maio de 1967.

Morreu a Flora do Lourenço! Aquela velhinha de cor possuía uma alma de alvura cristalina. Quanta bondade e quanta doçura emanavam daquele coração, que parou de pulsar após um século de existência sempre alentada por atos de virtude e de amor às coisas do céu.
Vejo-a, ainda, com os olhos de minha recuada infância, na sua modesta casinha, ao lado da capela de São Sebastião, recebendo carinhosamente o Lourenço, quando seu esposo regressava do Largo da Matriz, depois de terminada a célebre congada por ele magnificamente dirigida e, por isso, aplaudida por toda população do velho Carmo do Rio Verde.
Bem sentenciou o poeta que “a dor da saudade é irmã gêmea da angústia da morte”.
O desaparecimento da Flora do Lourenço veio despertar em mim doces lembranças de tempos idos, provocando em meu ser cruciantes saudades da época remota de minha meninice…
Não me sinto, portanto, com ânimo bastante para prosseguir a evocação de um passado longínquo, pois já me sufocam lágrimas espontâneas e inesgotáveis. Ninguem pôde, então, observar a crise de choro de que fui acometido durante os momentos de meditação, de reminiscências. Não me envergonho, confesso, pois eu me recordo daquelas palavras de um saudoso escritor: “Jesus chorou. Os heróis choraram. E o pranto que nasce no coração é mais profundo e sincero”.
Presto, através destas pálidas linhas, uma homenagem àquela criatura que personificou a humildade, a fé, a resignação com a vontade suprema do Criador.
A Flora do Lourenço está no céu!

João do Rio Verde
Junho de 1967

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