Gabriel Dias de Castro

Autoria: João do Rio Verde.
Publicado na Folha Nova, nº 1.325,
em 10 de maio de 1942.

Alguns séculos antes de Cristo, conta-nos a história da heróica e gloriosa Grécia, Diógenes, o filósofo cínico, com uma lanterna acesa, andava ao meio-dia numa praça pública, à procura de um homem bom e honesto.
Se na era cristã, um novo Diógenes surgisse, quantas almas puras e corações generosos não se lhe deparariam ao transpor o pequeno e humilde arraial do Carmo do Rio Verde, nas últimas décadas do século dezenove.
Gabriel Dias de Castro – eis um nome que encerra um símbolo de bondade e de honradez.
Se o célebre filósofo de Sinope projetasse a luz de sua lanterna sobre a pessoa de Gabriel Dias, por certo, com a alma delirante do mais sincero entusiasmo, exclamaria: Encontrei! Aqui está o homem perfeito e puro que eu busco.
Gabriel Dias de Castro era casado com a distinta senhora Maria Rita de Castro, deixando o casal numerosa prole.
Felizes aqueles que, num retrospecto ao passado, encontram na sua árvore genealógica um ascendente possuidor das grandes virtudes morais e cristãs que tanto ornaram o caráter impoluto do saudoso carmelitano, cuja memória ora evoco nestas linhas inspiradas no mais nobre sentimento de justiça.
Era ele membro acatado da tradicional e estimada família Dias, sendo a sua palavra sempre ouvida por todos e os seus conselhos seguidos rigorosamente, pois a sua opinião era ditada pelo bom senso e guiada pelos sagrados princípios de equidade e de direito, de amor ao próximo e da mais severa obediência aos preceitos da lei de Deus.
Embora frequentasse assiduamente o Carmo, onde possuía uma confortável casa à rua Francisco Isidoro, sempre residiu na sua próspera fazenda denominada Lagoa, que fica à margem da via férrea da Rede Mineira de Viação Sul, no ramal de Campanha.
Sucederam-lhe, na referida estância, os seus filhos Chiquinho e Cornélio Dias, sendo este na parte chamada Fazendinha, ao lado oposto da Lagoa, tomando por divisa a mencionada estrada. Ambos, como os demais descendentes de Gabriel Dias de Castro, herdaram os valiosos dotes do venerado patriarca.
Dª Julia, filha do Siô Gabriel, é casada com o distinto e estimado tricordiano Cel. Virgílio Alves Pereira, dono de uma das mais belas e ricas propriedades agrícolas deste município. Não há dúvida que a fazenda Sant’Ana geográfica e administrativamente pertence ao município de Cristina, mas o Cel. Virgílio e Dª Julhinha, nas divisas do coração, colocaram-na bem no âmago do município de Silvestre Ferraz.
Gabriel Dias era amigo inseparável de seus irmãos João Dias, Américo Dias e Francisco Dias, todos eles igualmente cidadãos probos, boníssimos e católicos praticantes.
Vou narrar, com as cores da verdade, um episódio interessante que, no século passado, durante cerca de duas semanas, encheu de sobressaltos e de sérias apreensões toda a digna família Dias. O Cornélio, filho do Siô Gabriel, o qual, por essa ocasião, contava pouco mais de dezesseis anos de idade, estudava preparatórios em São Paulo.
Certo dia, Siô Gabriel recebeu do filho uma carta impressionante. Nela o jovem dizia que, absolutamente, já não queria viver no meio retrógrado da família; que os parentes não deviam contar com ele, pois não pretendia voltar para o Carmo; que estava noivo de uma italianinha muito bonita, pretendendo desposá-la em breve; que os pais o deixassem em paz.
Gabriel Dias e Dª Maria Rita ficaram profundamente abalados com o disparatado teor da citada missiva. É certo que não duvidavam do elevado caráter do filho, pois, embora muito moço, o Cornélio já cultivava as levantadas virtudes paternas; mas estavam certos de que ele se achava sofrendo de grande desequilíbrio emocional. Daí toda a angústia dos parentes e amigos.
Um mensageiro da máxima confiança viajou imediatamente com destino a São Paulo, enquanto os pais, numa verdadeira agonia, aguardavam a chegada de notícias.
Tudo ficou, então, esclarecido. Não passava de mera brincadeira do Carvalho, nortista folgazão e jocoso, o qual se divertia em pregar peças aos amigos. ( O Carvalho, já falecido, foi marido de Dª Lavínia Rangel e, portanto, pai de Dª Stela Franqueira. Era ele muito querido na nossa terra, onde viveu longos anos.)
O Cornélio havia escrito uma carta ao pai, carta toda ela vazada em termos carinhosos, e o Carvalho a levara do Braz para colocá-la no correio da cidade. E como estivesse mal fechada, resolveu substituir por outra em que ele, Carvalho, imitava perfeitamente a letra ao jovem carmelitano.
Siô Gabriel, ao ter ciência da maneira como se dera o fato, depois de desanuviar a fisionomia, deixando transparecer um sorriso discreto, pronunciou a seguinte frase: “O Carvalho quase nos matou com a brincadeira… Mas, enfim, ele é um bom amigo.”
Gabriel Dias de Castro faleceu serena e santamente na fazenda da Lagoa, no ano de 1917, restando-nos, agora, a saudade imensa e inapagável desse carmelitano admirável, cuja memória se conservará sempre viva nos corações dos parentes e amigos.
Evocando, hoje, o seu digno nome, presto-lhe um preito da mais profunda gratidão, em nome da terra natal que ele tanto soube amar e servir durante a vida.

João do Rio Verde
Maio de 1942

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