À sombra amiga do meu lar

Hino às árvores

Autoria: Fátima Cléo
Publicado na Folha Nova, nº 1.100,
em 26 de Setembro de 1937

Árvores, vós sois como as monjas piedosas,
braços erguidos para a vastidão dos céus,
em prece permanente pelas almas
que são tíbias e pelos corações incréus.
Sois as sentinelas esmeraldinas
dos montes e das colinas do meu Brasil,
assim vestidas de esperança,
lindas como as manhãs de Abril.

Ninguém cometeria o horrendo sacrilégio
de passar por vós,
prostrado de cansaço,
sem fulgores no olhar,
para beber a paz da sombra vossa,
antes de vos abençoar.
Porque, no augusto santuário das vossas ramagens,
há ternuras de mãe, há sorrisos
e há sonhos de ritmos extraordinários,
santificando os ninhos todos que agasalhais,
haja sol, haja luar ou haja temporais.

Descerraram-se, agora,
as cortinas do Infinito,
e a Primavera vem,
ansiosa, espaço em fora,
entre hosanas e poemas de luz,
derramar sobre vós,
pelos lábios da Aurora,
a celeste unção de aromas
e de alvas pétalas.
E, assim, vestidas de branco,
de aparência gentil,
sois as noivas sonhadoras
do meu Brasil.

À sombra amiga do meu lar
À sombra amiga do meu lar

Mas é a ti, somente, oh!, querido Coqueiro,
meu amante fiel, meu terno companheiro
das horas de abandono e das noites de tédio,
para as quais não pude encontrar remédio,
é a ti, somente, que venho cantar
minhas estrofes de amor,
tecidas na expansão dolorosa de lágrimas aflitivas,
aos delíquios sangrentos do Sol pôr.
Vi-te crescer à sombra amiga do meu lar,
e amei-te, meu discreto e doce confidente.

Certo dia, porém,
premida pela mão injusta do destino,
separei-me de ti, para não mais te ver,
porque uma enorme e bárbara muralha
se interpôs entre nós.

E, desde então, em êxtases de saudade,
ouvindo sempre ao longe, a minha voz,
foste crescendo mais,
e quase atingiste os sem-fins da amplidão.

Eis-me, afinal,
dentro da auréola veludosa da presença tua,
a enviar-te, do meu alpendre,
carícias cor-de-rosa quando me acenas
com as tuas verdes plumas,
para que não te consumas,
como eu,
no triste esquecimento.

És tu a minha crença,
a minha religião, o meu altar,
onde as minhas esperanças medrarão.
Contigo, arribarei a maior glória,
a de cantarmos juntos nosso amor,
fora da vida que tanto me intimida.

Mas ergue-me, primeiro.
Envolve-me em teus braços macios,
para que eu possa ouvir
as suaves canções dos teus cicios.
Quero viver bem no alto,
bem distante da hipocrisia humana
que ao mundo inteiro afaga
e ao mundo inteiro engana.

De minuto em minuto,
aquece minha boca regelada,
ao calor dos cristalinos beijos teus.
Ilumina de arrebóis o meu futuro
que risonho há de ser,
por que só tu, meu amante fiel,
meu terno companheiro,
farás palpitar, ainda,
num paraíso de encantadoras visões
e de supremas venturas
o meu sombrio entardecer.

Fátima Cléo
Silvestre Ferraz, Setembro de 1937

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