Histórias do Grupo Escolar Gabriel Ribeiro

Autoria: Fernando Pena.
Publicado na Folha Nova, nº 2.183,
em 26 de Julho de 1959.

Quando o Grupo Escolar Gabriel Ribeiro se torna cinquentenário e recebe festas, o que sinto é um misto de gratidão e saudade.
Gratidão ao querido educandário onde aprendi a ler e a escrever e saudade daquela quadra feliz e já distante.
Revejo agora, pelos olhos da recordação, o velho Grupo que frequentei por cinco anos: dois casarões ligados por uma varanda coberta e divididos em seis amplas salas. O pátio íngreme, ensombrado por por vetustas árvores… a sineta que badalava o horário… aquelas torneiras que gotejavam sem cessar… os gradís de ferro e os portões fincados em grossas colunas… Acima do portão uma placa: “Grupo Escolar Gabriel Ribeiro. Fundado em 28-7-1909”. E as roseiras, cujos galhos entrelaçavam a placa, como a tecer-lhe uma grinalda de glória, a se esforçarem, anos a fio, por florir-lhe o nome.
Nossos mestres – que gente amável. Quanta paciência no aturar-nos as peraltices, a incutir-nos ensinamentos, a dizer-nos o que era correto. Dona Sinhá, Siô Alfredo, Dona Elisa, Siô Antonio, que guiaram meus passos na trajetória escolar. O Siô Brito, figura inesquecível, a tudo dirigindo, a correr de classe em classe e a coçar a cabeça com os seus “pequenos problemas”… A Djanira, sempre queixosa, e a Dona Adélia, já de cabelos branquinhos, ambas prestimosas, e que entreabriam o portão aos retardatários, evitando-lhes a entrada pela Secretaria e as gaguejantes e nunca convincentes desculpas ao Diretor.
A Secretaria!… que pavor nos infundia. “-Vocês não sabem? O Siô Brito tem lá uma palmatória dos diabos e uma vara de marmeleiro da grossura de um dedo de homem. Sabem para quê? Para exemplar os malcriados”. E contavam coisas de arrepiar. Certa feita fui chamado à Secretaria. Deus do Céu! Que fizera de mal para receber castigo? Tremendo como vara verde apresentei-me ao Diretor. “-Sente-se aí”, e continuou a escrever. Comecei, então, a examinar o cômodo: livros, cadernos, papéis, papéis, papéis… Nada dos instrumentos de tortura, o que me acalmou um pouco. Assustei-me, porém, com a voz do Diretor: -“Leve este ofício ao Correio.” E consultando o relógio sem corrente, que tirou do bolso do colete: “E correndo, que vou começar a aula de canto”. Aliviado, saí voando, e voando voltei, a tempo de juntar-me aos colegas, na varanda, e ouvir o Siô Brito, de piston à boca, puxar os primeiros acordes do Salve-lindo-pendão-da-esperança…
Os colegas – que bons camaradas e que belos pestes. Eram peraltices umas atrás das outras, a nos pregar peças, a consumir com nossas merendas. Como sabiam infernizar a vida dos outros! Como caprichavam em pôr toda a classe em dificuldades com os mestres. Mas… alegres companheiros de uma infância descuidada. De um aluno ninguém se esqueceu – o Zé Joana. Quando começamos no 1º ano, achamos lá o crioulo; quando recebemos o diploma, ele ainda estava no 1º ano. Como sabia ser lento…
Às quintas-feiras não havia aulas; descansavam os mestres, os alunos não. Saíamos em turmas, rumo ao ribeirão, para nadar e pescar, ou caçar saracuras e preás no brejo.Fazíamos audaciosas excursões ao Campo Redondo, Mumbuca e Covóca, atrás de frutas e milho verde. Ai dos pomares e hortas! No dia seguinte, queimados de sol e picados de espinhos e mutucas, estávamos firmes lá no Grupo, estudando, aprendendo e traçando planos para o próximo feriado. Oh! tempinho bom.
Na formatura, lá estávamos, solenes, metidos na fatiota domingueira. Presentes o juiz, o vigário, o inspetor escolar, o pessoal do Grupo e nossos familiares. Discursos, entrega de diplomas, abraços, despedidas chorosas. Afinal, recebíamos o prêmio de nosso esforço. Mais dos mestres do que nosso, pareceu-me. À saída notei que éramos três com botinas só no pé esquerdo, o direito descalço, com o dedão esfolado e queimado de iôdo, culpa daquele futebol de rua, em frente ao Grupo, que acabava com as nossas canelas, com as vidraças do prédio escolar e com a paciência do Diretor.
Quantas historiazinhas assim poderão contar os ex-alunos do Grupo? Centenas, ou milhares. Historiazinhas singelas, sem graça talvez, mas que recordam o nosso Grupo Escolar, que falam da época que ali viveram e aprenderam. Mas há, também, as histórias lindas da abnegação dos mestres, de seu amor ao ensino, de sua afeição às crianças; as histórias de renúncia e de dedicação dos que labutaram com humildade naquela Casa; histórias despercebidas de todos os dias da vida escolar. Meio século de histórias, para fazer a história mais bonita de todas, a história do “Gabriel Ribeiro”, esse patrimônio de tradição que pertence à nossa cidade e um pouquinho a cada um de nós, ex-alunos, porque forjado no carinho que lhe devemos e na gratidão que nos pôde proporcionar.

Fernando Pena
Silvestre Ferraz, Julho de 1959

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