Histórico do 1º Centenário de Carmo de Minas

Autoria: Américo Pena
Publicado na Folha Nova, nº 6,
em 24 de Fevereiro de 1914

Silvestre Ferraz - 1927
Silvestre Ferraz – 1927

O município de Silvestre Ferraz, que conserva as mesmas divisas que tinha o antigo distrito do Carmo do Rio Verde, foi criado pela Lei nº 319, de 16 de Setembro de 1901, com dois distritos: o da sede e o de São Lourenço, que não é mais do que nova divisão do antigo distrito.
A encosta da colina onde assenta a Vila era, há pouco mais de um século, coberta de umbrosa mata, entremeada de pinheiros e palmitos, só oferecendo uma pequena clareira, onde se levantava a fazenda do Capitão Antonio de Faria Couto, rodeada talvez, de alguns casebres pertencentes a outros moradores.
O espírito religioso desse núcleo de habitantes, que foram os progenitores dos futuros filhos de Silvestre Ferraz, inspirou-lhes a idéia da criação de uma capela, sob a proteção de Nossa Senhora do Carmo, e, em tosca igrejinha formada de troncos de palmeiras, pouco mais ou menos no lugar onde se eleva hoje o Santo Cruzeiro, rezou-se a primeira missa, sendo o sufragante o padre Narciso José Rodrigues.
Para formarem um patrimônio para essa capela, João Coelho Nunes e sua mulher, Genoveva Custódia de Gouvêa, fizeram doação de um terreno destacado de sua sesmaria, em 24 de Fevereiro de 1814, o qual passando pelo nosso atual teatro, ia, em linha reta, do rio ao cume do morro, ficando assim dado início à nossa Vila. Essa doação veio a reforçar a que já tinha sido feita por Francisco Fernandes de Oliveira, em 23 de Março de 1812.
0 pequeno povoado, sob a denominaçao de Arraial do Carmo, foi, em 18 de Agosto de 1831, desligado de Pouso Alto e elevado a Capela, tendo como Capelão o padre Narciso J. Rodrigues. Era, então, vigário de Baependi, o cônego Rodrigues Afonso, e Bispo de Mariana, D. José da Santíssima Trindade. A hoje Vila de Silvestre Ferraz, de Capela filial de Pouso Alto que era, em seu início, foi pelo decreto de 14 de Julho de 1832, elevada a freguesia, com a denominação de Carmo de Pouso Alto. Recebeu o nome de Carmo da Cristina quando, pela Lei nº 485, de 19 de Julho de 1850, foi desagregado do município de Baependi para ser incorporado ao da Cristina, e o de Carmo do Rio Verde quando a Lei nº 3058, de 28 de Outubro de 1882, assim determinou. Um exame detido no arquivo civil desta localidade forneceu-nos dados curiosos, que muito podem contribuir para esclarecer sua história, quando tratarem de sua cronologia. 0 primeiro livro de notas aí existente, que tem a data de 1831, foi fabricado pelo então vereador pela Vila de Baependi, major Domiciano José Monteiro de Noronha, o tronco proveitoso da família Noronha. A primeira escritura de venda de terras aqui lavrada, foi a do Capitão Joaquim J. de Souza Rodrigues e sua mulher,  Ana Bernardes Rodrigues. Os primeiros juízes de paz, eleitos em 25 de Outubro de 1832, foram: o Capitão Antonio Luiz Pinto, Tenentes José Francisco Lima, Francisco José Ribeiro e o Capitão Joaquim José de Souza Rodrigues. A primeira junta para a qualificação da Guarda Nacional, em 8 de Janeiro de 1832, compõe-se do Capitão Antonio Luiz Pinto, como 1º juiz de paz, Tenente F. José Ribeiro, Manoel Carneiro Santiago (tronco da família Carneiro), Joaquim Pereira de Souza, Capitão Manoel José Ribeiro de Carvalho, Capitão Antonio José Ribeiro de Carvalho e o padre Prudeciano Nogueira.
O município de Silvestre Ferraz faz parte do termo de Cristina e da comarca de Itajubá. Pertence ao 4°. distrito eleitoral federal e ao 3º. estadual. Tem cerca de 700 eleitores qualificados. Confina com os municípios de Pouso Alto, Caxambu, Águas Virtuosas, Virgínia e Cristina, tendo aproximadamente 4 léguas de extensão.
Colocado além de 800 metros do nível do mar, goza de um clima ameno e saudável.
Nos vales formados pelas montanhas e seus contrafortes, correm os ribeirões do Aterrado, São Lourenço, Carmo, São Pedro e Criminosos, que desaguam no Rio Verde. Alguns desses ribeirões se precipitam em cachoeiras e belíssimas cascatas de aparência sedutora e deslumbrante. Há uma queda d’água do Ribeirão São Pedro, na fazenda da Cachoeira, com altura de 83 metros e força de 900 cavalos. Na Cachoeira da Barra, que se despenha na fazenda do mesmo nome, com a vazão de 3.000 litros d’água, é que está sendo construída a Usina de força elétríca que fornecerá, em pouco espaço de tempo, luz para iluminação da Vila e força motora para diversos maquinismos, alguns já em vias de construção e outros em projetos. É a Cachoeira da Barra um salto do Ribeirão do Carmo.
Nas encostas das montanhas que não são atingidas pela geada, viceja prodigiosamente o café, produzindo colheitas iguais aos dos mais afamados terrenos para a cultura dessa rubiácea. Destaca-se, entre outros, pela beleza de seus cafezais, a magnífica fazenda do Sr. Manoel Junqueira de Sousa, que produz média anual de 3.000 a 3.400 arrobas de café.
Nos terrenos secos prospera a mandioca, e, nas margens do Rio Verde e de seus afluentes e confluentes, o arroz dá esplêndidas colheitas. Generaliza-se, também, a plantação de batatas inglesas, sendo esta uma fonte de riqueza agrícola do município.
Tem o município excelentes criações de suínos, cavalos e gado bovino, que podem ser qualificadas entre as mais aperfeiçoadas do Estado. O leite é empregado no fabrico de bons queijos e na produção da manteiga, existindo 3 importantíssimas fábricas desta indústria, pertencentes ao Coronel Francisco Ribeiro Junqueira, Frausino Pereira e Francisco Altomare.
A renda atual do município, para a receita e a despesa, é de 212 contos. A coletoria arrecada, anualmente, cerca de 35 contos. Anexa à coletoria, temos uma Caixa Econômica do Estado, onde, em pequenas frações, existe em deposito para mais de 80 contos de réis.
O correio tem uma média de 450$000 de venda de selos mensalmente.
A Vila de Silvestre Ferraz, que observada da Estação da Estrada de Ferro Sapucai, apresenta gracioso aspecto, está colocada na encosta de aprazível colina, que se prolonga de Oeste a Leste, banhada pelo Ribeirão do Carmo. É constituída por 12 ruas cortadas por 9 ladeiras, sendo alguns trechos calçados. No centro de sua principal praça se eleva a majestosa Matriz, que embora seja de construção antiga e pesada, oferece cativante perspectiva.
Tem a Vila 300 casas, que formam um conjunto agradável, sendo algumas sobrados e de construção moderna. Possui um bom teatro, uma tipografia bem montada, um belíssimo Grupo Escolar, onde a educação da infância é uma realidade, pela dedicação dos mestres e boa orientação de seu diretor. Além do Grupo Escolar, tem duas escolas em São Lourenço, uma no Bairro dos Campos e uma escola noturna dentro da Vila, com 54 alunos matriculados.
No Grupo Escolar a matrícula regula de 300 a 320 alunos, sendo de 250 a média da frequência.
Conta 10 negócios de fazendas e 17 de molhados e gêneros do país, 3 farmácias, 2 hotéis e um modesto prédio que serve de Câmara Municipal.
Existe uma pequena casa, ao lado do cemitério, para abrigo da pobreza desamparada, construída pela Associação de São Vicente de Paula.
No seu antigo e tosco matadouro público (a Câmara projeta edificar um novo e mais afastado do centro da Vila), são abatidas 5 reses por semana.
A construção, agora, de uma Santa Casa de Misericórdia será uma realidade. A comissão que angaria donativos para esse fim já iniciou o serviço, e, em pouco tempo, teremos esse belo e majestoso edifício, patenteando, no alto do ponto que vai ser edificado, o progresso, o adiantamento de Silvestre Ferraz e a índole criativa de seus generosos e bons habitantes.
O serviço de água e esgoto já está muito adiantado e, até o mês de Maio, será inaugurado. O reservatório belíssimo e vistoso que se ostenta no alto do morro tem a capacidade para 150 mil litros de água. O material para a distribuição da água e os encanamentos para o esgoto vão ser distribuídos por toda a Vila. Este serviço está sendo feito por administração da Câmara e foi, pela Comissão de Melhoramentos Municipais, orçado em 100:000$000.
Durante um século, somente 6 padres paroquiaram esta localidade:
Narciso José Rodrigues e José Fortunato da Silva, durante o tempo que foi Capela filial de Pouso Alto; o vigário Prudenciano Nogueira, de 22 de Novembro de 1833 até 27 de Março de 1843; o vigário Inácio Joaquim Nogueira de Carvalho, da última data até 1867; o padre Marciano Castro da Rocha Brandão, de 1867 a 8 de Dezembro de 1873; o cônego arcipreste José Inácio de Faria Nogueira, de 1873 a 1889; e o nosso atual vigário Cônego Antonio Nogueira, dessa última data até hoje.
Esta Villa pertenceu a 3 bispados: ao de Mariana até 1901, ao de Pouso Alegre até 1901 e ao de Campanha atualmente.
Há treze anos que tem ela a dita suprema de possuir em seu seio um instituto de ensino afamado, qual seja o Colégio Nossa Senhora da Conceição, há dois lustros equiparado às Escolas Normais do Estado. Funciona esse magnífico estabelecimento na graciosa Chácara da Conceição, onde as alunas desfrutam um soberbo panorama e um delicioso clima. É timoneiro dessa prodigiosa náu, que sulca, com extraordinário garbo, o oceano infinito do saber, o genial pedagogo Jeronimo Guedes Fernandes, que bebe energia e coragem na virtude peregrina de sua digna Esposa, auxiliar imediata da Diretoria. Notáveis docentes ministram ali o ensino, que acorda com os métodos pedagógicos mais avançados. Há um curso especial de piano e canto, o qual goza de um justo renome.
A frequencia média dessa oficina de Minerva, é de 110 educandas. Dali têm saído professoras eméritas, que muito hão concorrido para o brilhantismo da instrução primária de nosso Estado nestes últimos tempos.
Existe, também, nesta afortunada terra, uma Escola Agrícola. Fundada recentemente, já conta ela tão poderosos elementos que breve, como a Escola Normal, será um outro foco gandioso de luz, que irradiará no céu da Instrução Mineira como uma estrela de primeira grandeza. Funciona há um ano apenas, e já abriga meia centena de futuros engenheiros agrônomos.
Foi o nosso Carmo o berço de muitos homens ilustres, que hoje honram a magistratura, o clero, a medicina, a engenharia e o magistério mineiros.
Daqui saíram 8 advogados, 3 padres, 3 médicos, 1 engenheiro e algumas dezenas de normalistas. Vários publicistas, farmacêuticos e dentistas tiveram-no por berço. Finalmente, aqui nasceu a célebre Nina Sanzi.

SÃO LOURENÇO – O garboso São Lourenço está colocado em risonho vale, à margem do Rio Verde, cercado por verdejantes colinas de aspecto sedutor e reconhecida uberdade.
É banhado pelo rio de seu nome, que traça uma linha reta do poente ao leste.
A tantos atrativos que a natureza o presenteou, se deve acrescentar mais o de possuir 7 fontes de águas minerais de qualidades variadas e de reconhecido valor terapêutico.
Sendo reconhecidamente a primeira estação de águas para os doentes, que vêm de todos os pontos do Brasil em procura de saúde, já seria um local próspero e a estância mais preferida, se tivesse sido removido o principal embaraço que impede o seu desenvolvimento: as enchentes do Rio Verde.
Tem duas fontes captadas. Duas fontes férreas, gasosas, e sobretudo a magnesiana, de importância reconhecida, reclamam melhoramentos, e o Governo do Estado pensa muito em breve iniciar esses serviços.
São Lourenço tem 50 casas semeadas em grupo pelas colinas que cercam os poços minerais, de acordo com o plano geral de alinhamento.
Na grimpa de um rochedo se levanta uma capelinha consagrada ao orago de seu nome, de forma esbelta e arquitetônica e, agora, em obras para adaptação de uma sacristia.
Sua Estação na Rede Sul Mineira, é uma das principais na estrada pela sua exportação.
Possui 3 magníficos hotéis, com grandes acomodações.
Com uma bonita frequencia existem ali 2 escolas, sendo uma do sexo masculino e outra do sexo feminino.

Eis, pois, o pálido resumo histórico do nosso próspero e majestoso município.
Pedimos escusa se alguma omissão houve, o que poderiam ocasionar a escassez de tempo e a falta de dados e apontamentos mais minuciosos.
Um serviço completo relativamente ao assunto dependia de meses, e nós precisávamos algo dizer sobre o município hoje, que ele completa cem anos de existência, entre as bençãos de seus antepassados e o regozijo por parte de seus amados filhos e de seus operosos habitantes.

Américo Pena
Silvestre Ferraz,  24 de Fevereiro de 1914.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.