Homenagem ao Padre Inácio

Autoria: Mário de Arantes.
Publicado na Folha Nova, nº 95,
em 5 de Dezembro de 1915.

Em 1862, no Carmo da Cristina, os admiradores do Padre Inácio Nogueira de Carvalho, vigário da paróquia, aventaram de levar a música à chácara dele. Tencionavam fazer-lhe uma manifestação por motivo, na minha dúvida, do aniversário natalício ou pela recondução ao paroquiato.
A banda de música, regida pelo maestro Fernando Brigagão, foi conduzida em um carro de bois ornado com ramagens e coberto por um toldo vistoso, sendo acompanhado por outro carro em que íam moços da sociedade local. Saíram cedo, fazendo uma volta pelo local chamado Arrozal.
A Comissão de festejo mandou preparar nesse ponto um almoço para os músicos e para os moços. Os manifestantes iriam, mais tarde, diretamente à chácara do padre Inácio.
Como se esperava, a viagem foi entremeada de troças, caçoadas e pilhérias. Entre os moços estavam o Mequinho, o Evaristinho (meu irmão) e o Tonico, do tio Luiz Noronha. Estes dois últimos eram ainda garotos.
Pois esses três foram o centro das atenções durante a viagem.
O Mequinho inventava qualquer brincadeira e pedia aos companheiros executá-la ou acompanhá-lo. O Tonico, mais que o Evaristinho, executava-a com modos burlescos, como de palhaço, dando ocasião de fazer soar gargalhadas entre os companheiros.
Lá de vez em quando a banda tocava um dobrado e o Mequinho dançava com um passo de tico-tico, ocasião em que o Tonico o arremedava com muita graça.
Às 10 horas chegaram ao Arrozal, almoçando com bastante vontade, sendo que os quitutes foram molhados por fortes goles de vinho português, arrematados por chistes espirituosos.
Continuaram a viagem. Os músicos tocaram uma valsa deleitosa. A requinta do maestro Fernando levava alegria aos campos, rivalizava com os pássaros canoros, fazia chorar os arbustos à beira da estrada, deixando saudades aos que ficavam à beira do caminho.
Dos músicos dessa jornada só lembro do Dionísio Ferrer, que tocava clarineta e era mocinho, e do Matias, que tocava trompa. Mas lembro bem que essa banda era afamada nas cercanias para cá do Rio Grande até a Mantiqueira. O tempo passa, varrendo as ações, mas um fato ou um nome escrito pelo bem não se apaga. O nome de Fernando Brigagão não se extinguirá na história do Carmo do Pouso Alto.
Às 14 horas chegaram à chácara. Os músicos desceram do carro, formaram-se e seguiram, tocando um marcha triunfante, até a porta da vivenda, onde foram recebidos pelo padre Inácio, pelo Sr. Filadelfo e diversas pessoas da família Souza Rodrigues, de Soledade.
A chácara era situada ao lado esquerdo da estrada que do Carmo vai à atual Estação do Carmo, ficando distante três ou quatro quilometros do povoado.
Logo após chegaram os cavaleiros da comitiva e apearam-se ao som de música e de estampidos de foguetes.
Depois de algum descanso um dos cavaleiros pediu ao maestro Fernando para tocarem a “Marcha dum pobre sem cobre”. Que música comovente e, tangida por essa banda, daria razão às pedras de chorar, se as pedras ainda choram em nosso tempo.
Às 16 horas foram convidados para assentarem à mesa do jantar. Foi um banquete de arromba ordenado pela Dª Francisca de Noronha, esposa do Sr. Filadelfo Nogueira de Carvalho, afilhado do padre Inácio.
Não lembro se houve discurso… Com certeza que houve. Eu, como futuro contista barato, acompanhei os festejos caladinho. Era amigo e admirador do padre Inácio, não podia perder a ocasião de patentear a estima que consagravam ao meu amigo e padrinho. Contava que na volta à minha casa tomaria uma sova pelas mãos maternas, porque fui à festa sem a licença de meus pais. Qual! Tudo passou em festa.
Tudo guardo num latíbulo da memória e agora escrevo enquanto há tempo, antes de “bater com o rabo na cerca” ou entrar na “Chácara do Vigário”.
Das pessoas que foram à chácara do padre Inácio quantos os que ainda vivem?
Eu sozinho?
Não! Com certeza que existem alguns companheiros que ainda não fizeram sua viagem à “Chácara do Vigário”.

Mário de Arantes
Silvestre Ferraz, Novembro de 1915

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