Poste da estação

Inauguração da iluminação pública em Silvestre Ferraz – 1915

Autoria: Américo Pena.
Publicado na Folha Nova, nº 67,
em 23 de Maio de 1915

BEM-VINDA SEJAS

Ei-la que cintila, na opulência de seus esplendores, amiga e serena, a luz carinhosa, a luz providencial, a luz que anima, que conforta, que movimenta, que alegra.
Bem-vinda sejas, pois, lâmpada divina, filha das cachoeiras, lírio da ciência, companheira do progresso.
Parte saliente da sorte das multidões, tu nos seguirás, vinculada à nossa própria existência noturna, nessa longa estrada da noite extensa, clareando-lhe os contornos, colorindo-lhe as perspectivas, distinguindo-lhe as tonalidades, no fadário santo da movimentação e do desdobramento de um novo dia. Não te ofuscam os fulgores da majestosa Diana, nem o ajasminado das estrelas te apaga o cenário grandioso de teu brilho.
Bem-vinda sejas!

Américo Pena
Silvestre Ferraz, Maio de 1915

A LUZ ELÉTRICA

Apesar de faltar o cunho oficial, principiou a funcionar, no dia 13 de Maio, a nossa iluminação pública, a qual será entregue à nossa municipalidade, pela Empresa de Eletricidade, no dia 31 do corrente.
Não havendo mesmo convites, nem se cogitando de pomposos ornamentos e outras solenidades que se devia fazer em regozijo a tão extraordinário melhoramento progressista, a nossa vila esteve repleta de povo e muitos vivas foram erguidos: ao progresso de Silvestre Ferraz, ao presidente da Câmara e dignos vereadores municipais, à Empresa de Eletricidade, ao presidente do Estado, ao presidente da República, ao Povo e a muitos membros da distinta família Junqueira, essa digna família que sempre se coloca à frente de todos os empreendimentos, só desejando o progresso deste pitoresco e antigo Carmo do Rio Verde, hoje Silvestre Ferraz.
E, sem ambages, podemos hoje dizer, nós que desta coluna muito nos batemos também por esse inigualável melhoramento, que Silvestre Ferraz ficou admiravelmente servido de iluminação, competindo ela com as demais localidades bem iluminadas do nosso grandioso Estado.
Parabéns, pois, ao Povo desta vila, à nossa Câmara Municipal, e felicitações sinceras aos empresários de Luz Elétrica.
Fato por demais notável nos domínios da história contemporânea desta terra, ele se perpetuará no espírito dos que têm sobre os seus ombros a gloriosa tarefa dos destinos e do porvir do Carmo antigo e nos daqueles que vão cooperando para a manifestação positiva destes sucessos de tão elevado alcance e de tão subido valor.
Essa inapagável efeméride, 13 de Maio, o mais grandioso cometimento da moderna democracia, que pôs fim ao hediondo comércio da raça africana, equilibrando as leis racionais da etnografia, teve para nós um caráter duplamente festivo: a rememoração de uma data do passado e a vitória de um feito do presente.
Enquanto que um astro luminoso, o sol da liberdade, nesse memorável prélio de outrora, envolvia em dioramas de regozijo toda essa geração de infelizes, redimindo-os e abrindo-lhes as portas ao nivelamento social, 27 anos após, nesta vila hospitaleira, por entre o delírio popular, nova áurea lei surgia nessas irradiações diamantinas dos postes elétricos, arrancando-nos à escravidão amarga das noites caliginosas, colocando-nos na vanguarda da civilização atual e libertando-nos dos grilhões da monotonia dessas ruas e praças quando imersas no espesso crepe das suas trevas e dos seus apavorantes negrores.
Bem podemos dizer, pois, que a áurea lei nacional é para Silvestre Ferraz uma lei de diamantes.
Notemos agora o alvoroço da nossa população, o seu entusiasmo e o seu contentamento, nesse instante em que todos os peitos arfavam de justa ansiedade e quando se desdobrou o painel dos primeiros albores e da doce fantasia das nossas ruas fascinantemente iluminadas.
A todos parecia ilusão de um sonho a realidade desse melhoramento que começara a delinear os raios vastíssimos do nosso progresso que aí vem, a par da abundante canalização da nossa água potável, em sequência aos nossos preparativos higiênicos e no afã louvável e natural da segurança da nossa viação e do embelezamento das nossas ruas.
O povo, congregando todos os impulsos e todas as classes num só pensamento, estreitava-se em alegrias e impressões admiráveis e não podia conter as explosões de seus arroubos de gratidão aos que assim lhe apresentavam a evidência desse indispensável conforto ao seu viver coletivo e íntimo.
Quando, a cerca de 3 anos, as primeiras idéias se impulsionaram em torno dessa medida reclamada pela opinião sensata e esclarecida, tantos e tão desanimadores eram os óbices a superar, que em muitos espíritos se aninhou a impraticabilidade desta empreitada, sobretudo naqueles que sempre medraram nos errôneos preconceitos do pessimismo.
A acoroçoar as aspirações dos que, com denodo, se batiam pela prosperidade do meio, um combatente surgiu na arena, entrou na liça, lutou e venceu.
A despeito das murmurações dos incrédulos e do desequilíbrio econômico em que se vão afundando todas as classes, ele, o gênio calmo e operoso, procurando subjugar todos os tropeços, em si confiado e nas suas experimentadas energias, e palidamente analisado ainda pelos que duvidavam da resistência da armadura de aço dos que sabem querer, lá foi o digno moço, de calço em calço, palmilhando o calvário escabroso de sua benemérita iniciativa, de encorajamentos cheio, de confiança e de fé.
E subiu, subiu até o pináculo do Tabor de sua glorificação, vencendo os abrolhos, convencendo os incrédulos, beneficiando o povo. E este, soberano e veemente em seus movimentos e gratidão ao esforço propulsor de seu engrandecimento, lhe não regateia as suas palmas, as suas flores e as suas simpatias.
A luz aí está, incandescente e cristalina, a animar a vila, o casaredo e os lares.
Saiba, pois, o governo que dirige a vila, à contento, os destinos deste povo; saibam os nossos concidadãos e saibam todos, enfim, compreender os esforços do incansável e distinto Dr. José Moraes Filho, o herói dessa benemérita aventura, dando-lhe as flores, que bem merece, da sua dedicação e da eficácia indispensável do seu concurso e da sua simpatia.
Ele é um dos beneméritos do nosso futuro.

MANIFESTAÇÃO POPULAR

No dia 15 do corrente mês, a primeira vez que o Dr. Jose de Moraes Filho, diretor da Empresa Elétrica, visitou esta localidade, após a instalação da luz em algumas ruas, recebeu imponente manifestação popular, promovida pela parte mais seleta de nossa sociedade.
Em nome do povo falou o eloquente tribuno, Cel. Guedes Fernandes, saudando em vibrante oração o homenageado, pelo grande melhoramento com que acabara de dotar Silvestre Ferraz.

Antiga Usina da Barra
Antiga Usina da Barra

Respondeu-lhe o Dr. Jose de Moraes Filho, em frases repassadas de gratidão, dizendo que do ramalhete de flores que acabara de receber do povo Carmense, pelo verbo brilhante de Guedes Fernandes, destacava três flores: uma para oferecer ao Cap. Francisco Isidoro Silveira Pinto, que, na qualidade de Presidente da Câmara, prestou-lhe inestimáveis serviços, facilitando-lhe meios, que dependiam da Câmara, para a instalação elétrica; outra ao Cap. Gabriel Ribeiro Junqueira Junior, que doou a cachoeira e terrenos marginais para a instalação da usina; e, finalmente, a última ao Cel. Guedes Fernandes, que soubera tão fielmente interpretar o sentimento do povo carmense, na hora presente.
Foram convidados os presentes para um brinde, onde, ainda, em frases repassadas de dor, o Cel. Guedes Fernandes saudou, na pessoa do Cap. Gabriel Ribeiro Junqueira Junior, a pessoa de sua veneranda mãe, a Dª Genoveva Clara Junqueira, e a memória do inolvidável Cel. Gabriel Ribeiro, que deu as mais admiráveis e edificantes provas de civismo e caridade, e que o povo carmense sempre chorará, como a mais brilhante figura de sua história.

Usina da Barra nos dias atuais
Usina da Barra nos dias atuais

Vista da Cachooeira da Barra à esquerda, tendo à direita e ao fundo a usina e, acima desta, a boca da tubulação que levava a água para o gerador.

Tubulação
Tubulação

Início da tubulação de abastecimento da usina, localizada ao final do canal que trazia a água do Ribeirão do Carmo.

Canal de alimentação da usina
Canal de alimentação da usina

Vista do canal de abastecimento, com a usina aparecendo ao fundo.

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