Instrução em Silvestre Ferraz no Ano de 1912

Autoria: Floriano de Lemos.
Título original: Sylvestre Ferraz.
Publicado no Correio da Manhã, do Rio de Janeiro,
Em 15 de Setembro de 1912.

Chamou-se, outrora, Carmo do Rio Verde. Da estação da Estrada de Ferro, a vila é apanhada em flagrante delito de travessura de paisagem, a trepar por uma pequena colina: não há floresta de permeio, as casas afastam-se discretamente umas das outras e, no alto de uma praça que também sobe, a velha igreja, larga e solene, confessa a sua cumplicidade pitoresca.
As ruas mal calçadas, sem luz à noite, como a maior parte das localidades do interior. Silvestre Ferraz destaca-se, entretanto, por um doce conforto intelectual. É um gigante de estudos, no Sul de Minas, à maneira de Ouro Preto, na Zona do Centro. Para pouco mais de duas mil almas, oferece uma Escola de Farmácia e Odontologia, uma Escola Normal (internato de meninas), um Ginásio São José (instituto de humanidades) e o Grupo Escolar (para instrução primária) – quatro grandes casas de ensino, que cursam perto de quinhentos cérebros, entre crianças, rapazes e moças, – ou seja, um quarto da população.
Daí, a natureza dos casos que lá se ouvem contar, e que passariam por límpidas anedotas, em outras condições. Por exemplo: uma vez, certo viajante, tendo-se barbeado em um fígaro do lugar, quiz dar gorjeta ao oficial, que energicamente a recusou: era um estudante de farmácia…
De outra feita, o assombro do nosso forasteiro não foi menor , vendo o moço do hotel em que se hospedara, sair para o Ginásio, atracado a um compêndio de inglês, a ruminar a lição…
De sorte que a primeira impressão oferecida ao estrangeiro é paradoxal. Há um jogo de fatos contrastantes ao serem postos juntos. De uma lado, o atraso material da vila, de outro, o progresso da instrução do povo. Faz lembrar o aspecto boêmio do quarto de um estudante, cujo talento culto o fizesse impor como um espírito superior.
Silvestre Ferraz parece que filosofa, ali à margem do Rio Verde: não se deixou ainda tomar pelo prurido de galas exteriores do século. Que lhe importa a irmã Caxambu, tão vizinha, a meia hora de viagem, e ultimamente remodelada num brinco, onde a alta sociedade brasileira apraz vir recrear-se na quadra apropriada? Os carmenses contentam-se em gozar as delícias subjetivas de educar o intelecto. Não vão mal, já se vê.
Mas a função faz o órgão. Embora modesta, sem delírios exibicionistas, Silvestre Ferraz necessita agora expandir-se e melhorar as suas instalações.
Há uma falta enorme de casas. Os estudantes enchem as escolas e formam as clássicas repúblicas, que aumentam em número e locação dia a dia. Para muitos, e especialmente para as moças, seria de grande vantagem a residência de suas famílias no lugar. E não é só. A uma légua apenas de distância ficam as Águas de São Lourenço, cujo valor medicinal atrai todos os anos uma maciça cópia de excursionistas, apesar de não ter essa estação os recursos materiais de tantas outras. Era a Silvestre Ferraz, como cabeça do município, que incumbia dar hospedagem a parte dessa gente, se tivesse com o quê.
O clima é o que há de melhor: a altitude local sobe a 1.200 metros.
E porque há necessidade de casas, entram agora algumas a construir-se. Da iluminação elétrica, já há um contrato firmado. Dos demais melhoramentos urbanos cuida a ativa Câmara Municipal.
A não poucas pessoas causa espanto a criação de uma Escola de Farmácia e Odontologia encravada num recanto do Sul de Minas.
Eu justifico-a. Sul de Minas é um Estado dentro do Estado, tal a sua extensão e o seu modo especial de ser. Acha-se todo o Sul de Minas tão fora de comunicação com o Centro, que é preciso vir primeiro a Cruzeiro ou a Barra do Piraí, para depois poder seguir viagem em trem direto para Belo Horizonte. Ora, Silvestre Ferraz há muito é um belo meio onde se cultivam as ciências e as letras: mas sucedia, não raro, que grande número de moças e rapazes, tendo completado o seu curso de humanidades, não continuavam os estudos superiores por impossibilidade material de ir fazê-los no Rio de Janeiro ou em São Paulo. A Escola de Farmácia e Odontologia veio resolver o problema. Nunca há mal em abrir-se uma escola: deixar-se de atender aos que dela necessitam e a ela fazem jus é que seria um crime. E há tudo a esperar da Escola de Silvestre Ferraz: o povo merece-a; os seus diretores timbram em mantê-la na devida altura. Resta que o governo patrioticamente a ampare.
Para dar uma idéia a atividade intelectual da antiga Carmo do Rio Verde, basta dizer que a Escola Normal possui a sua revista A Aurora; o Ginásio São José, os órgãos Pindorama, Colibri e Reforma; Soares de Faria, um simples estudante, que agora entra na puberdade, acaba de publicar, editado pela Tipografia Lomônaco (também da localidade) o seu livro Gente Rude, que encerra a promessa de um vigoroso narrador das nossas coisas e dos nossos homens do interior; e Pinto Pereira – professor da Escola e orador à maneira brilhante de Patrocínio – sendo ainda um jovem de 23 anos, que já conquistou um pergaminho e no ano próximo possuirá o segundo, pela Faculdade de Direito de São Paulo – elabora atualmente um trabalho de fôlego sobre A Mulher no Brasil, do qual o Correio da Manhã vai ter ocasião de publicar alguns capítulos, por uma gentileza do autor, pensando nos leitores que apreciam páginas de real valor.
A Escola Normal de Silvestre Ferraz, ou Internato Nossa Senhora da Conceição, conta atualmente 130 alunas. Este estabelecimento de educação funciona em um prédio situado no seio de uma enorme chácara – que é o Instituto Agronômico. Eu já venho tecendo tantos elogios a Silvestre Ferraz que me sinto receioso de dizer, mais uma vez, bem da terra, ao ter de referir-me a este parque… Mas quê fazer? O seu proprietário derrubou uma floresta para plantar, inteligentemente, outra: onde havia vegetais silvestres, medram hoje alinhadas árvores frutíferas, um mundo de parreiras escolhidas e renques intermináveis de ananazais. O clima, frio, favorece a adaptação de amendoeiras, de pereiras, de damascos, de castanheiros – de todas as boas espécies européias, em suma. As plantas nacionais são cultivadas com apuro. Fio que o dr. Pedro de Toledo, tão bom ministro na sua pasta, há de ter uma sensação muito agradável se um dia visitar o instituto agrícola em questão. Pela minha parte, invejei fundamente o coronel Jerônimo Guedes Fernandes, que ali vive, dono e autor daquela obra: não pode haver ninguém mais feliz.
Silvestre Ferraz não esqueceu a sua instrução militar. Conta uma linha de tiro de cento e trinta sócios, fundada pelo tenente José Novaes. É a linha 210 da Confederação do Tiro Brasileiro. Preside-a o coronel Francisco Junqueira, venerando chefe de uma das maiores famílias do Sul de Minas, e que tem dado os melhores representantes nas ciências, nas artes e na política.
O Grupo Escolar é um dos mais bem regidos em todo o Estado.
Fato que se deve assinalar, por não comum, é o espírito de camaradagem dos alunos das diferentes escolas. Não há, por exemplo, separação de classes entre os preparatorianos do Ginásio e os acadêmicos da Escola. Ao contrário: auxiliam-se sempre. Quando os ginasianos pretendem fazer uma festa, o subsídio principal que recebem vem do pessoal da farmácia e odontologia. Os estudante divertem-se à vontade, enchendo as ruas com a sua alegria natural: mas, porque sabem se manter na medida das boas normas da polidez, são geralmente estimados. Perguntando eu a ordem do fato, estranhei que não aparecesse aí algum elemento dissolvente ou subversivo. Mas responderam-me:
-A rapaziada mineira é, por índole, simples e boa: vem para aqui ainda não contaminada, e aqui não encontra com que se perder. E quanto aos elementos maus que aparecem de fora, uma de duas: ou regeneram-se ou mudam-se. O meio ainda é muito pequeno. Quem vem para cá é porque quer estudar. É essa, mesma, a razão da confiança com que fazendeiros e proprietários de todo o Sul de Minas mandam para Silvestre Ferraz, não só os seus filhos, mas ainda as próprias filhas.
E é verdade. Encontrei, na vila, a estudar, moças de Cabo Verde, Cachoeira, Três Corações, São Gonçalo do Sapucaí, Passa Quatro, Alfenas, Botelhos, Cristina, além de larga cópia, enfim, de vilas e cidades do Estado.
Dou fim a estas impressões. Não as poderia dignamente ramatar, senão fazendo referência às moças gentilíssimas que lá encontrei. Com a sua grande bondade elas dão, à família carmense, aquele encanto tão doce e emocionante para um espírito também culto e bom. E que me permitam invocá-las, para assinar com um traço colorido e luminoso, essa apagada crônica incolor.

Floriano de Lemos
Rio de Janeiro, Setembro de 1912

1 comentário em “Instrução em Silvestre Ferraz no Ano de 1912”

  1. Poderiam me informar se houve um prorfessor de nome Plinio Motta do ginasio Sivestre Ferraz por volta de 1913?

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