Joaquim de Paiva

Autoria: João do Rio Verde.
Publicado na Folha Nova, nº 1300,
em 9 de Novembro de 1941.

Já em uma destas crônicas, crônicas de saudade, evoquei os gloriosos tempos da Escola Normal Nossa Senhora da Conceição e do Ginásio São Jose, relembrando ainda, de maneira minuciosa, o esplendor com que se encerravam anualmente as aulas dos afamados estabelecimentos de ensino do nosso querido Carmo do Rio Verde.
Se Guedes Fernandes, na direção do Ginásio, era o cérebro dinâmico, iluminando com a ciência e as letras, Joaquim de Paiva, na administração, era o coração transvasado de bondade irradiando messes de carinho e dedicação, pois ele transformara aquela casa de estudos num feliz prolongamento do lar distante aos pequeninos seres que lhes eram confiados.
Há tempos, pelas colunas desta Folha, um antigo discípulo afirmava que, embora tivesse sido como colegial “um demônio de indisciplina, uma praga da ordem”, reconhecia e proclamava que Joaquim de Paiva foi um verdadeiro deus.
E são estes conceitos admiráveis que Joaquim Severino de Paiva Azevedo gravou com letras de ouro no coração de cada um dos discentes do saudoso Ginásio São Jose.
Um gesto impensado, aliás perfeitamente explicável na mocidade, o fez pontilhar toda a sua existência por atos inspirados na mais fervorosa caridade, na mais sincera comiseração pelo sofrimento humano, sendo as suas grandes virtudes morais e cristãs dignas das páginas maravilhosas dos atos santificados.
Ninguém melhor do que ele soube praticar a caridade em nossa terra, pois socorria cotidianamente os indigentes e, especialmente, os “pobres envergonhados”, procurando, por todos os meios possíveis, ocultar a mão bendita que lhes enviava o óbulo beneficiador.
Quando Joaquim de Paiva, combalido pela grave moléstia de que fora acometido, teve de deixar a nossa terra, a sua partida ecoou na alma da pobreza carmelitana qual dobre tristíssimo de finados e, de quando em quando, se ouviam pesarosas lamentações, partidas do seio dos desfavorecidos da fortuna.
Lembro-me de uma trôpega velhinha, com os olhos marejados de lágrimas, com a voz fraca e cavernosa, exclamando em tom de prece aos céus, as seguintes palavras: “- O pai dos pobres foi embrora e esta velha agora vai morrer.”
Joaquim de Paiva, sofrendo de enfermidade dolorosa e incurável, suportou com estoicismo de santo as mais terríveis provações, buscando sempre, com suprema resignação, o conforto divino na sagrada mesa da sublime eucaristia.
O seu nome ficou escrito, com os traços invisíveis da gratidão, na história deste nosso rincão natal.
Relembrando, pois, a vida beneficente de tão justo varão, quero apontá-lo à nossa geração silvestrense como exemplo tocante daqueles que atravessam a escalada da existência entre as bençãos dos que sofrem a tortura da miséria.

João do Rio Verde
Novembro de 1941

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