José Antonio Lomônaco

Autoria: João do Rio Verde.
Publicado na Folha Nova, nº 1.402,
em 14 de Novembro de 1943.

Reviver páginas evocativas desfolhadas, outrora, no grande livro do passado do nosso velho arraial do Carmo do Rio Verde, é sentir acender em nossos corações aquele doce sofrimento de que nos fala o brilhante escritor Godofredo Rangel.
O imortal e glorioso poeta Martins Fontes proclamou num de seus maviosos sonetos: “Como é bom ser bom”.
Essa magnífica frase, numa cadeia construída de amor ao próximo e de gratidão ao suave trovador, já percorreu todos os quadrantes do Brasil. Recordando essa sublime setença do saudoso poeta santista, vimos hoje prestar uma homenagem a um carmelitano que, durante a sua curta existência, sempre soube ser bom, merecendo, portanto, que na sua pessoa glorifiquemos a própria Bondade: José Antonio Lomônaco.
O José foi um dos primeiros alunos que se matricularam na Escola Primária regida pelo professor Brito, quando este começou a carreira no magistério público do Estado. As aulas daquele mestre funcionavam à rua Gorgulho, no prédio em que reside hoje Dª Stela Franqueira, sendo o José um dos alunos mais velhos e, também, um dos mais aplicados nos estudos.
Iniciou ele a sua luta na vida bem jovem ainda, como tipógrafo nas oficinas da “Procelária”, jornal de propriedade de seu irmão João.
Partiu, mais tarde, para São Paulo, continuando a trabalhar na arte tipográfica no diário paulista “A Gazeta” e, nas horas vagas, cursava a Escola de Comércio. Estudioso e inteligente, embora não seguisse carreira, de muito lhe valeram os conhecimentos adquiridos na referida casa de ensino.
Em São Paulo, nos momentos de folga, gostava de frequentar o “Frontão”, jogo que ele apreciava muito. Nas proximidades daquela casa de diversões encontravam-se quase diariamente o José, o Chiquinho e o Zito, pois elos de profunda amizade irmanavam os três conterrâneos. Chiquinho e Zito trabalhavam nos escritórios da Sorocabana e estudavam em cursos noturnos de preparatórios.
Como os três carmelitanos recebessem ordenados reduzidos e lutassem com sérias dificuldades financeiras, auxiliavam-se reciprocamente com pequenos empréstimos, resgatados logo que a situação financeira do devedor melhorasse. Quando se avistavam, antes mesmo de trocar palavras, já se sabia qual dos três necessitava de numerário: o que estivesse com a barba por fazer.
Mais tarde o José voltou para a terra natal, não só movido pela saudade dos velhos pais, pois ele foi sempre um ótimo filho, senão atendendo ainda à voz íntima do coração. Amava ele sincera e apaixonadamente uma distinta moça carmelitana e, cremos, foi o único e grande amor de sua vida.
Estamos, atrvés de um “doce sofrimento”, ouvindo a voz rouca e triste do José, cantando aos acordes do seu violão, nas noites enluaradas, nas proximidades da casa da sua eleita, a sua canção predileta: “Meia noite, talvez que já durmas…”
Realizou o seu velho sonho, desposando aquela que ele sempre amou: uniu-se pelos laços do matrimônio a Ana Nogueira de Oliveira, prendada filha do casal Olímpio de Oliveira e Teresa Nogueira de Oliveira.
Encontrou na esposa a companheira almejada durante longos anos, pois a sua hoje inconsolável viúva foi o exemplo da mulher dedicada e carinhosa idealizada pelo nosso saudoso José.
Residiu durante alguns anos em Conceição do Rio Verde, sendo então nomeado pelo Governo do estado para elevadas funções, demonstrando sempre qualidades de funcionário cumpridor dos deveres.
Transferiu posteriormente a sua residência para Uberlândia e, mais tarde, para Belo Horizonte, onde faleceu a 2 de Agosto de 1937, deixando os seguintes filhos: Maria da Glória, Maria Aparecida, Maria Auxiliadora, Renato, Murilo, Gilberto, José e Maria Luiza.
Prestando esta sentida e sincera homenagem ao bondoso e querido José Lomônaco – separado de nós pela morte, mas cada vez mais unido pela saudade – temos o coração iluminado por aquela maravilhosa sentença de um inspirado poeta: “Bem aventurados os que podem recordar, porque esles serão consolados”.

João do Rio Verde
Novembro de 1943

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