Jura Macabra

Jura Macabra

Autoria: Plínio Motta
Publicado na Folha Nova, nº 1.088,
em 2 de Maio de 1937

Quando eu morrer, ouvi-me o que vos digo:
Hei de vir visitar-vos como amigo.
À meia-noite em ponto, a essa hora morta,
De vosso quarto baterei à porta;
Darei, lembrai-vos bem, quatro pancadas,
Vagarosas, soturnas, prolongadas.
Vosso aposento, misteriosamente,
Clareia-se de luz fosforescente…
Abre-se a porta, aos poucos, rangendo…
E um vulto branco, de aspecto horrendo,
Ali vereis entrando, passo a passo.
-Sou eu, falar-vos-ei, dai-me um abraço.
E, olhos vazios, rosto já desfeito,
À beira chegarei do vosso leito.
Tentais gritar, mas é debalde o esforço:
Corre um frio de morte em vosso dorso!
Então, estralejando a minha ossada,
Tocarei a vossa fronte regelada.

Na frincha da janela geme o vento,
Como um responso ou fúnebre lamento.
E uma coruja, pela noite fria,
Corta mortalha e, lúgubre, chirria.

Depois, lívida a cor, o olhar transido,
Esta fala ouvireis, como um gemido:

“Oh! homem – barro vil – homem vaidoso,
De que te vale um dia só de gozo,
Se mil, depois, virão de sofrimento?
Pensa na morte, ao menos um momento;
Tua caveira, em horas de desgosto
Apalpa, sob a pele do teu rosto,
Para que te lembres quanto é vã a vida.
A alegria é fugaz e fementida,
E a gargalhada, vê, é a verdadeira
Exposição grotesca da caveira.
A carne que o teu corpo, hoje, reveste,
É frágil como a folha do cipreste,
Que a tua cova há de ensombrar um dia:
Desfaz-se em poeira, sob a lage fria.
Pondera nesta triste dualidade:
Vida é segundo, morte, eternidade.
Pensa em teu fim, ao menos, um instante,
Epílogo fatal e apavorante!
Como é angustiante o transe da agonia,
Neste trespasse atroz, teu corpo esfria,
Turba-te a vista, mas, à tua mente,
Para teu castigo, tudo inda é presente:
O tic-tac do relógio, trabalhando,
Cicios de orações, e, a quando e quando,
O soluço dos entes mais queridos
Ainda chegarão a teus ouvidos.
E tu irás morrendo, lento… lento…
Que hora triste, que trágico momento,
Já te crepita, às mãos, ardente vela
E, mais, o teu corpo, hirto, se enregela;
Reina, em torno de ti, por tudo, agora,
Silêncio tumular, que te apavora.
Nada mais ouves, nada mais divisas,
E arquejas, e estertoras, e agonizas…
Eis da existência tua o desenlace,
A palidez mortal já tens na face;
Cerra-te a boca doloroso trismo,
Parece-te que tombas num abismo,
Em um abismo intérmino, sem fundo,
Que é, certamente, o abismo do outro mundo.

Depois, é o incognoscível, é a infinita
Região dos astros, onde Deus habita.
Lá, mísero mortal, ouve-me e pasma,
É que se vive. Aqui somos fantasma.

Deixa de orgulho, deixa de vaidade,
Pratica, todo o dia, a caridade
-Escada de Jacó, por onde vamos
À suprema ventura que gozamos;
Teu pão reparte-o sempre com o mendigo,
E, mais do que o outro, preza o teu amigo.
Tudo que o homem fere, como espinho,
Procura suavizar com o teu carinho;
Ao desgraçado, enfim, ama-o e consola,
Como Dom Bosco ou Inácio de Loyola.
Bendita seja a mão, bendita e santa,
Que, para fazer o bem, só se levanta.
Segue, em tudo, a Jesus: sê bom e puro,
Que tu te salvarás, eu te asseguro.”

Assim falando, em voz lugente e rouca,
Colarei a minha boca à vossa boca.
E, ao beijo que nos lábios vos deponho,
Tudo se desvanece… como um sonho…

Plinio Motta
Silvestre Ferraz, Maio de 1937

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