Laurita

Autoria: Inácio Nogueira.
Publicado na Folha Nova, nº 1.124,
em 3 de Abril de 1938.

Chamavam-na Laurita, a fadazinha,
O lírio da choupana à beira-mar.
Criança esbelta, loura, bonitinha,
Era o encanto supremo do solar.

Seu perfil despertava na lembrança
De quem a visse, a pétala da rosa.
Dir-se-ia um anjo em corpo de criança,
Tão pura, delicada e tão formosa.

Olhos azuis, de olhar tristonho e mesto,
Boca pequena, rubra, cativante,
Tinha um sorriso para cada gesto
E um gesto meigo para cada instante.

Lá no recanto onde ela residia,
Era o enlevo de todos, era o amor,
A promessa divina, era a alegria
Do velho pai, um simples pescador.

Já combalido, o pobre velhinho
Guardava, receoso, a flor querida,
O lírio da choupana, o louro anjinho,
Que Deus lhe dera já no fim da vida.

Antes do sol nascer, de manhãzinha,
Apresto a caminhar para pescaria,
Ele chegava ao berço da filhinha
E num beijo de amor se despedia.

Depois, à tarde, ao por do sol no poente,
Após um dia inteiro separados,
Laurita ia esperá-lo sorridente
Na praia e vinham alegres abraçados.

Um dia… – Oh! Santo Deus, há sempre um dia
Dentro da vida, um transe doloroso,
Em que o destino vil ignominioso
Não pode mais guardar a hipocrisia…

Foi numa tarde de Abril,
De céu puro cor de anil,
Tarde linda divinal.
Gemia a rola saudosa,
Soprava a brisa cheirosa,
Nas ramas do palmeiral.

Como um gigante que dorme,
Um sonho longo disforme,
O mar sereno dormia.
As ondas leves e mansas,
Moinantes como crianças,
A praia vinham beijar.

Laurita cisma junto à porta do ranchinho.
Está na hora do regresso do paizinho
E no entanto nada… Ao longe, sobre as águas,
No horizonte, a vagar, nenhum batel se avista…
E a pobrezinha vai sentar-se a sós com as mágoas,
Da enorme rocha, abrupta, na fragosa crista.

Dali derrama os olhos tristes macerados
buscando vislumbrar o barco fugidio.
Debalde… Na amplidão dos mares sossegados,
nem vislumbre sequer de um pássaro erradio…

Amargo pranto de equívoco desgosto
Desliza febrilmente pelo rosto
Da pobre fadazinha entristecida…
Mas, de repente, oh! Deus, quanta alegria!
Ao longe o barco pescador surgia
Numa carreira louca destemida…

Laurita põe-se em pé sobre o rochedo,
Saltita, bate plamas e gloriosa,
Feliz, estuante, impávida e sem medo,
Por sobre a pedra corre descuidosa.

Falseia o pé e tomba de repente!
Grita ao papai, mas, já no espaço desce
O seu corpinho leve e incontinente
Por sob as ondas vís desaparece…

Lá muito ao longe, o velho pescador,
Talvez – quem sabe? – ouvindo a voz do sangue,
Atira-se entre as ondas num furor
E avança, embora velho, fraco e enxangue…

Desceu a noite escura e o desengano
Também desceu aos corações depois.
E os pescadores num trabalho insano,
Não conseguiram descobrir os dois…

Mas de manhã quando surgiu o alvor
– Angustia extrema a todos desconforta –
Encontram o velhinho pescador,
Tendo nos braços a filhinha morta…

E ainda hoje lá na praia existe
– Testemunha que as ondas respeitaram –
Da história de Laurita, história triste,
A cruz que os pescadores levantaram…

Inácio Nogueira
Abril de 1938

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