Lembranças da Província de Minas

Breve notícia sobre a Sociedade Ensaios Literários – Rio de Janeiro

Criada em 4 de Dezembro de 1859 e inaugurada a 1º de Janeiro de 1860, a Sociedade Ensaios Literários tem por fins promover o desenvolvimento intelectual de seus associados, facilitando-lhes os estudos e as discussões sobre pontos de literatura.
Ela se compõe de sócios honorários, correspondentes e efetivos em número indeterminado, contando já para cima de cento e cinquenta desta última classe; é condiçãol essencial para se ser sócio a naturalidade brasileira.
Celebra suas sessões todos os domingos na casa da rua de São Pedro, nr. 126, e mantém presentemente as aulas de francês e inglês, sendo professores os srs. Alfredo Fleury e Thomaz C. Gosling.
É administrada por uma diretoria eleita semestralmente: compõe-se a atual administração de:
Presidente – Feliciano Teixeira Leitão, r. dos Arcos, 35;
Vice-Presidente – João Sílvio de Moura Rangel, r. de São Pedro, 34;
1º Secretário – Joaquim Antonio de Souza Ribeiro;
2º Secretário – Manoel Amarante Vieira da Cunha;
Tesoureiro – José Lopes de Souza Cardia Paraty.

Em Janeiro de 1864, foi publicada pela Sociedade Ensaios Literários a seguinte cronica, de autoria de João Sílvio de Moura Rangel:

Lembranças da Província de Minas

Eis-me tocada a vez primeira de vos apresentar uma cronica, leitores, mas uma cronica sem mérito nem revelações de um talento, ainda mesmo inferior.
Não acostumado a escrever para o público, vejo-me sempre embaraçado quando tenho de o fazer; assim, pois, nutro a esperança de que vos merecerei toda a benevolência que em tais casos se costumais prodigalizar.
Não vos enfastiarei mais com as palavras da tarifa, e principiarei; mas, não sem vos dar parte de que cheguei a esta Corte no dia 2 dos mês passado, após uma viagem de 3 meses pela poética província de Minas.
Na verdade, leitores, quem nunca viajou pela província de Minas, pode dizer que nada tem visto de belo no nosso pátrio torrão.
Clima ameno e saudável; natureza risonha e luxuriosa; golpes de vista magníficos e soberbos; cascatas ruidosas a admiráveis; montanhas elevadas e magestosas; rios que ora correm sonolentos, ora iracundos, e mais além tristonhos e silenciosos como um cemitério; campinas, enfim, alegres e infinitas! Vi, admirei e extaziei-me diante de tanta magnificência e poesia. E reconheci mais uma vez em todas essas grandezas o sinal indelével do dedo divino.
Quisera dar-vos conta de toda a minha viagem, mas, bem a pesar meu, não posso fazê-lo, porque os limites que me são traçados para a cronica não me dão lugar a isso, por serem estreitos demais.
Dir-vos-ei somente que as povoações do Sul de Minas estão numa decadência digna de lástima. O comércio frouxo e difícil; a lavoura desanimada em razão dos preços baixos por que estão os produtos mineiros; enfim, tudo anuncia um cataclismo próximo.
Em geral as mineiras são belas e amáveis, mas um pouco esquivas e acanhadas, com algumas exceções bem honrosas.
Os mineiros são francos e obsequiosos ao último ponto. A música acha-se desenvolvida nessa província em um grau muito elevado. É raro ver-se um menino de 10 anos que não a saiba!
O espírito religioso acha-se também muito desenvolvido em todas as classes da sociedade mineira; porém, algumas vezes, e em alguns lugares, acobertando muitas mazelas hediondas… Mas onde vou eu? Quis apenas dizer-vos que chego da província de Minas, e que por isso não tenho tido tempo suficiente para coligir dados, afim de vos dar uma cronica minuciosa, e tenho-me estendido tanto! Passarei, portanto, a outro assunto, mas não sem render as últimas homenagens que devo à encantadora província de Minas.
Minas, direi, concluindo, é o paraíso terrestre do Brasil.

João Sílvio de Moura Rangel
Rio de Janeiro, Janeiro de 1864.

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